Sobre leis e salsichas

Todo esse caso da carne adulterada produzida pelas famílias Batista (Friboi/JBS) e Diniz (BR Foods) causou um enorme furor. Praticamente toda carne que o brasileiro come vem dessas duas empresas. Sadia, Perdigão, Seara etc. são todas marcas que pertencem a esses grupos.

Começou então uma batalha nas redes sociais entre comedores de carne furiosos e uns poucos vegetarianos e veganos que se arriscaram a dar umas risadas públicas com a situação.

Lembro aos amigos veganos que ser sensível a dor dos animais sem ser sensível a dor de barriga do próximo não condiz com a conduta de vida das Testemunhas de Jeovegan.

Ok, ponto final aqui.

Eu entendo a indignação das pessoas. Imagino que descobrir de repente que a comida que está alimentando meus filhos está sendo maquiada com aditivos químicos perigosos não é nada engraçado. Eu lamento pelos meus amigos e pela minha família.

Mas, a priori, você é responsável pelo que põe na própria boca e na boca dos seus filhos. E não é o ataque a pessoa física que vai resolver o problema. E se você confia na palavra de empresas, atores famosos e agências de inspeção do governo, é melhor parar de fazer isso o quanto antes. A qualidade e saudabilidade (existe essa palavra?) do alimento está diretamente ligada ao modo como ele é produzido. Se você não tem a mínima ideia de como sua comida é feita, tem duas alternativas: 1) continuar sem saber e confiar na auto regulação do mercado e na competência do governo ou 2) tentar descobrir e tomar decisões a partir daí.

Um sujeito chamado Jonathan, preocupado ao ficar sabendo que logo seria pai, resolveu seguir a opção 2 e pesquisar um pouco sobre como é produzida a carne que alimentaria seu filho. O resultado da pesquisa acabou virando um livro. Comer animais, de Jonathan Safran Foer, é um estudo minucioso da produção de carne nos EUA (que define o rumo da indústria no mundo). Um livro escrito em primeira pessoa, de forma leve, eu diria até bem humorada, bastante imparcial e sem um pingo de radicalismo, recheado de dados e fontes mas com linguagem simples e direta.

Recomendo a leitura. Caso tenha se interessado, tem pra vender na Amazon ou você pode encontrar em formato epub “livre” na web.

Abaixo reproduzo um trecho particularmente interessante que mostra bem a sanha da indústria de carne em produzir e lucrar sempre mais gastando menos. E como o governo, qualquer governo, cumpre seu papel de vassalo. Isso não é novo e não está evoluindo para melhor ou para o bem comum, tenha isso em mente. Não é o trecho mais leve do livro mas é o único que resume o processo do começo ao fim.

Leia se quiser ou não leia, a escolha é sua. Só não venha me encher o saco enquanto dou minhas gostosas risadas.

A vida e a morte de uma ave

A segunda propriedade rural que visitei com C estava organi­zada numa série de vinte galpões, cada um deles com 13 metros de largura por 150 de comprimento e abrigando um número aproxi­mado de 33 mil aves. Eu não tinha uma fita métrica comigo e nem condições de fazer qualquer coisa semelhante a uma contagem de cabeças. Mas posso fornecer esses números com confiança porque tais dimensões são típicas na indústria aviária — embora alguns criadores estejam agora construindo galpões maiores: de até de­zoito por 154 metros, abrigando cinquenta mil aves ou mais.

É difícil visualizar a magnitude de 33 mil aves num mesmo am­biente. Não precisa ver por si mesmo, nem sequer fazer as contas, para entender que as coisas por ali ficam bastante amontoadas. Em suas Normas para o Bem-Estar Animal, o National Chicken Council (Associação Nacional do Frango) indica a densidade de criação apropriada de oito décimos de um pé quadrado por ave (equivale aproximadamente a 743 centímetros quadrados. Uma folha A4 mede 623,7 centímetros quadrados). É isso o que uma das principais organizações representantes dos produtores de frango considera bem-estar animal, o que nos mos­tra o quão completamente cooptadas as ideias do que seja bem-estar se tornaram — e por que não podemos confiar nos rótulos que vêm de todos os lugares, exceto de uma terceira fonte confiável.

Vale a pena parar aqui por um instante. Embora muitos ani­mais vivam com bem menos, vamos partir do pressuposto de menos de um pé quadrado. Tente visualizar. (É improvável que algum dia você veja pessoalmente o interior de uma granja, mas há muitas imagens na internet se a sua imaginação precisar de ajuda.) Pegue um pedaço de folha A4 para impressora e imagine uma ave adulta, com formato semelhante ao de uma bola de fu­tebol americano com patas, de pé sobre a folha de papel. Imagine 33 mil desses retângulos numa grade. (Frangos de corte nunca ficam em gaiolas e nunca em vários níveis.) Agora, coloque a grade dentro de paredes sem janelas, com um ventilador no teto. Insira nesse cenário sistemas de alimentação (guarnecida com drogas), água, aquecimento e ventilação. Isso é uma granja.

Agora, vamos à maneira como as coisas são feitas.

Primeiro, encontre uma galinha que cresça rápido com o mí­nimo de comida possível. Os músculos e tecidos de gordura dos frangos de corte projetados recentemente crescem bem mais do que seus ossos, levando a deformidades e doenças. Algo entre 1 e 4% dessas aves morrerão retorcendo-se em convulsões devido à síndrome da morte súbita, uma doença quase desconhecida fora das granjas de criação intensiva. Outra doença induzida por essas granjas industriais, em que o excesso de fluidos enche a cavidade corporal, a ascite, mata ainda mais (5% das aves do mundo). Três a cada quatro aves terão algum grau de defeito ao caminhar, e o senso comum sugere que sentem dor crônica. Uma a cada qua­tro terá tantos problemas ao caminhar que não há dúvidas de que sentirá dor.

Para os frangos de corte, deixe as luzes acesas cerca de 24 horas por dia durante a primeira semana de vida dos pintos, mais ou menos. Isso os encoraja a comer mais. Depois, apague as luzes um pouco, dando-lhes cerca de quatro horas de escuridão por dia — sono suficiente para que sobrevivam. É claro que as galinhas enlouquecem se forem obrigadas a viver em condições tão antinaturais por muito tempo — as luzes, o modo como ficam comprimi­das e o fardo de seus corpos grotescos. Pelo menos, os frangos de corte em geral são abatidos no 42º dia de vida (ou, cada vez mais, no 39º), então ainda não estabeleceram hierarquias sociais pelas quais brigar.

Desnecessário dizer que aves comprimidas, deformadas, dro­gadas e com estresse demais num lugar fechado, imundo e for­rado de excrementos não vivem em situação muito saudável. Além das deformidades, danos aos olhos, cegueira, sangramento interno, infecção bacteriana dos ossos, vértebras deslocadas, pa­tas e pescoços tortos, doenças respiratórias e sistema imunológico enfraquecido são problemas frequentes e duradouros em granjas industriais. Estudos científicos e registros do governo sugerem que praticamente todas as galinhas (mais de 95%) acabam infec­tadas pela E. coli (um indicador de contaminação fecal), e entre 39 e 75% delas ainda continuarão infectadas na comercialização. Cerca de 8% das aves têm infecção por salmonela (menos do que anos atrás, quando pelo menos uma em cada quatro aves era in­fectada, o que ainda ocorre em algumas criações). Entre 70 e 90% são infectadas por outro patógeno potencialmente mortal, o campilobacter. Banhos de cloro são comumente usados para remover o muco, o odor e as bactérias.

Claro, os consumidores talvez percebam que o sabor de suas galinhas não anda muito bom — e como poderia um animal entu­pido de drogas, doente e contaminado por merda ter gosto bom? —, mas “caldos” e soluções salinas serão nelas injetados, coloca­dos de algum modo, no interior de seus corpos, para deixá-los com o que passamos a considerar o aspecto, o cheiro e o gosto da galinha. (Um estudo recente da Costumer Reports descobriu que produtos feitos com carne de galinha e de peru, muitos deles rotulados como naturais, “continham de 10 a 30% de seu peso em caldo, condimentos ou água”.)

Terminada a etapa da criação, é chegada a hora do “processa­mento”.

Em primeiro lugar, você vai ter que encontrar empregados para colocar as aves em engradados e manter o ritmo da produção que irá transformar as aves vivas e íntegras em pedaços embru­lhados com plástico. Precisará estar sempre procurando empre­gados, já que a taxa anual de rotatividade de pessoal excede 100%. (As entrevistas que fiz sugerem que fica em torno de 150%.) Dá-se preferência a imigrantes ilegais, mas imigrantes pobres que não falem inglês também são desejáveis. Pelos padrões da comu­nidade internacional, as condições de trabalho típicas dos abatedouros americanos constituem violação dos direitos humanos; para você, elas constituem uma forma crucial de produzir carne barata e alimentar o mundo. Pague a seus funcionários um salário mínimo, ou perto disso, para juntar as aves — segurando cinco em cada mão, de cabeça para baixo, pelas pernas — e amontoe-as em engradados para o transporte.

Se sua linha de produção funciona na velocidade adequada — 105 frangos postos em engradados por um único trabalhador em 3,5 minutos é a média esperada, segundo vários apanhadores que entrevistei —, as aves serão manipuladas sem cuidados e, como também me contaram, os trabalhadores com frequência sentem os ossos das aves se partindo em suas mãos. (Cerca de 30% de to­das as aves vivas que chegam ao abatedouro têm ossos que acaba­ram de se partir, como resultado de sua genética de Frankenstein e do tratamento descuidado.) Nenhuma lei as protege, mas é claro que há leis sobre como você pode tratar os empregados, e esse tipo de trabalho tende a deixá-los com dores durante vários dias seguidos, então, mais uma vez, certifique-se de que as pes­soas que contrata não terão condições de reclamar. Pessoas como “Maria”, empregada de uma das maiores processadoras de fran­gos na Califórnia, com quem passei uma tarde. Depois de mais de quarenta anos de trabalho e cinco cirurgias devido a problemas físicos relacionados ao trabalho, Maria já não consegue usar as mãos nem para lavar pratos. Sente tanta dor o tempo inteiro que passa as noites com os braços mergulhados em água com gelo e, com frequência, não consegue dormir sem remédios. Recebe oito dólares por hora, e pediu que eu não usasse seu nome verdadeiro, com medo de represálias.

Coloque os caixotes em caminhões. Ignore extremos climáticos e não dê comida nem água às aves, mesmo que o abatedouro este­ja a centenas de quilômetros dali. Ao chegar ao abatedouro, faça mais funcionários pegarem as aves, pendurá-las de cabeça para baixo pelas patas em grilhões de metal, colocando-as numa es­teira transportadora. Mais ossos serão quebrados. Com frequên­cia, os gritos das aves e o barulho de suas asas batendo serão tão fortes, que os trabalhadores não conseguirão escutar a pessoa que estiver a seu lado na linha de abate. Com frequência, as aves vão defecar de dor e pavor.

A esteira transportadora arrasta as aves por uma banheira de água eletrificada. Isso provavelmente as paralisa, mas não as tor­na insensíveis. Outros países, incluindo vários países europeus, requerem (legalmente, pelo menos) que as galinhas fiquem in­conscientes ou sejam mortas antes da sangria e do escaldamento. Nos Estados Unidos, onde a interpretação do USDA da Lei dos Métodos Humanitários de Abate exclui o abate de aves, a voltagem é mantida baixa — cerca de um décimo do nível necessário para deixar os animais inconscientes. Depois de passar pelo ba­nho, os olhos de uma ave paralisada talvez ainda se movam. As vezes, elas terão suficiente controle do corpo para abrir devagar o bico, como se tentassem gritar.

O passo seguinte na linha de abate para a ave imobilizada-porém-consciente será um cortador automático de pescoço. A me­nos que as artérias principais não sejam atingidas, o sangue vai se esvair devagar. De acordo com outro trabalhador com o qual fa­lei, isso acontece “o tempo todo”. Então, mais alguns trabalhado­res são necessários para atuar como reservas no abate — “matado­res” — que cortam o pescoço das aves que a máquina não cortou. A menos que eles também não consigam cortá-los, o que, pelo que me falaram, acontece igualmente “o tempo todo”. Segundo o National Chicken Council — representantes da indústria —, cer­ca de 180 milhões de galinhas são abatidas de modo inadequado a cada ano. Quando lhe perguntaram se esses números o inco­modavam, Richard L. Lobb, o porta-voz do conselho, suspirou: “O processo termina em questão de minutos.”

Falei com numerosos funcionários responsáveis por apanhar os frangos, pendurá-los e matá-los que descreveram aves vivas e conscientes indo para o tanque de escaldamento. (Estimativas do governo obtidas através da Lei da Liberdade de Informação su­gerem que isso acontece com quatro milhões de aves a cada ano.) Já que fezes na pele e nas penas terminam nos tanques, as aves saem cheias de patógenos que podem ter inalado ou absorvido através da pele (a água quente dos tanques ajuda a abrir os poros).

Depois que as cabeças das aves são arrancadas e seus pés, re­movidos, máquinas as abrem com uma incisão vertical e removem suas entranhas. A contaminação com frequência acontece nessa etapa, já que as máquinas de alta velocidade comumente rasgam os intestinos das aves, liberando fezes para o interior da cavidade corporal. No passado, inspetores do USDA tinham que conde­nar qualquer ave com qualquer tipo de contaminação fecal. Mas, há cerca de trinta anos, a indústria aviária convenceu o USDA a reclassificar fezes para poder continuar usando esses evisceradores mecânicos. Outrora um agente perigoso de contaminação, as fezes agora são classificadas como “defeitos cosméticos”. Como resultado, os inspetores condenam metade dos animais que con­denariam. Talvez Lobb e o National Chicken Council apenas suspirem e digam: “As pessoas acabam por eliminar as fezes em questão de minutos.”

Em seguida, as aves são inspecionadas por um oficial do USDA, cuja função aparentemente é manter o consumidor a salvo. O ins­petor tem mais ou menos dois segundos para examinar cada ave por dentro e por fora, tanto a carcaça quanto os órgãos, em bus­ca de mais de uma dúzia de diferentes doenças e anormalidades suspeitas. Ele, ou ela, inspeciona 25 mil aves por dia. O jornalista Scott Bronstein escreveu para o Atlanta Journal-Constitution uma série notável sobre a inspeção de aves, que devia ser leitura obri­gatória para todo mundo que considera a hipótese de comer gali­nha. Ele entrevistou quase cem inspetores do USDA em 37 abatedouros. “A cada semana”, relata, “milhões de galinhas com pus amarelo escorrendo, manchadas por fezes verdes, contaminadas por bactérias nocivas ou prejudicadas por infecções pulmonares e cardíacas, tumores cancerígenos ou problemas de pele são envia­das aos consumidores.”

Em seguida, as galinhas vão para um imenso tanque refrige­rado, onde milhares de aves são resfriadas, em conjunto, na água. Tom Devine, do Government Accountability Project (Projeto de Responsabilidade Governamental), disse que “a água nesses tan­ques foi apropriadamente chamada de ‘sopa fecal’, devido a toda a imundície e bactérias que flutuam ali. Ao imergir aves limpas e saudáveis no mesmo tanque com as sujas, você está praticamente assegurando a contaminação”.

Enquanto um número significativo de processadores de aves europeus e canadenses empregam sistemas de resfriamento a ar, 99% dos produtores de aves nos Estados Unidos permanecem com seus sistemas de imersão e enfrentam processos tanto dos consumidores quanto da indústria da carne bovina para conti­nuar com o uso antiquado do resfriamento pela água. Não é difícil descobrir por quê. O resfriamento a ar reduz o peso da carcaça, enquanto o resfriamento pela água a deixa encharcada (da mesma água conhecida como “sopa fecal”). Um estudo revelou que o mero ato de embalar as carcaças das galinhas em sacos plásticos durante o processo de resfriamento eliminaria a contaminação. Mas isso também eliminaria uma oportunidade para a indústria transformar água suja em peso adicional na comercialização das aves, num valor de dezenas de milhões de dólares.

Não faz muito tempo, havia um limite de 8%, estabelecido pelo USDA, de quanto líquido absorvido podia ser incluído no preço de carne ao consumidor antes que o governo tomasse uma atitude. Quando isso se tornou de conhecimento público, na dé­cada de 1990, houve um compreensível clamor. Os consumidores processaram a prática, que lhes parecia não apenas repulsiva mas uma adulteração. Os tribunais concluíram que a regra dos 8% era “arbitrária e extravagante”.

Ironicamente, porém, a interpretação do USDA das determi­nações legais permitiu que a indústria de frangos fizesse suas pró­prias pesquisas para avaliar qual o percentual de carne que devia ser composto de água suja e clorada. (Esse é um resultado bastan­te comum quando se desafia a indústria do agronegócio.) Após consulta à indústria, a nova lei permite um pouco mais de 11% de absorção de líquido (o percentual exato é indicado em letras miúdas na embalagem — dê uma olhada da próxima vez). Assim que a atenção do público se deslocou para outra direção, a indús­tria de aves distorceu em seu próprio benefício regulamentos que deveriam proteger os consumidores.

Os consumidores dos Estados Unidos doam agora milhões de dólares adicionais aos grandes produtores de aves, a cada ano, como resultado desse líquido adicionado. O USDA sabe e defende a prática. Afinal, os processadores de aves estão, como tantos criadores de granjas industriais gostam de dizer, apenas fazendo o melhor possível para “alimentar o mundo”. (Ou, nesse caso, ga­rantir sua hidratação.)

O que descrevi não é excepcional. Não é o resultado de trabalha­dores masoquistas, de maquinário defeituoso ou de “maçãs po­dres”. É a regra. Mais de 99% de todas as galinhas vendidas por sua carne nos Estados Unidos vivem e morrem desse jeito.

Em muitos aspectos, os sistemas de granjas industriais podem variar consideravelmente, por exemplo, no percentual de aves es­caldadas vivas por acidente durante o processo, ou na quantidade de sopa fecal que seus corpos absorvem. Trata-se de diferenças significativas. Em outros aspectos, porém, granjas industriais — bem ou mal administradas, com animais criados soltos ou não — são basicamente as mesmas: todas as aves vêm de bandos gené­ticos frankensteinianos; todas são confinadas; nenhuma desfruta da brisa ou do calor do sol; nenhuma tem condições de dar vazão a todos os traços de comportamento característicos de sua espécie (em geral, não tem condições de dar vazão a nenhum deles), como fazer ninho, empoleirar-se, explorar seu ambiente e for­mar unidades sociais estáveis; as doenças são sempre em enorme quantidade; o sofrimento é sempre a regra; os animais são sempre apenas uma unidade, um peso; a morte é invariavelmente cruel. Essas similaridades importam mais do que as diferenças.

A vastidão da indústria aviária significa que, se há alguma coisa errada com o sistema, há alguma coisa terrivelmente errada com nosso mundo. Hoje, anualmente, seis bilhões de galinhas são criadas mais ou menos nessas condições na União Européia, mais de nove bilhões, na América, e mais de sete bilhões, na China. A população da Índia, superior a um bilhão, consome muito pou­ca carne de frango per capita, mas o total ainda soma um bilhão de aves criadas em granjas industriais por ano, e esse número está aumentando, assim como na China, a taxas agressivas e global­mente significativas (com frequência o dobro do crescimento da indústria aviária nos Estados Unidos, que aumenta rapidamen­te). No total, são cinquenta bilhões de aves em granjas industriais no mundo, e o número está aumentando. Se a Índia e a China em algum momento começarem a consumir frangos nos níveis em que os Estados Unidos os consomem, isso elevaria a mais do que o dobro esse número já estarrecedor.

Cinquenta bilhões. A cada ano, cinquenta bilhões de aves são obrigadas a viver e morrer desse jeito. Não se pode subestimar o quão revolucionária e relativamente nova é essa realidade — o número de aves criadas em granjas industriais era zero antes da experiência de Celia Steele em 1929. E não estamos apenas crian­do galinhas de um jeito diferente; estamos comendo mais gali­nhas: os americanos comem 150 vezes mais aves do que comiam há apenas oitenta anos.

Outra coisa que poderíamos dizer sobre esses cinquenta bi­lhões é que são calculados com a maior meticulosidade. Os esta­tísticos que geram a cifra de nove bilhões nos Estados Unidos a decompõem por mês, por estado e pelo peso da ave, e a comparam — todos os meses, sem exceção — ao número de aves abatidas um ano antes. Esses números são estudados, debatidos, projetados e praticamente reverenciados como objeto de culto pela indústria. Não são meros dados, mas o anúncio de uma vitória.

(Comer animais, Jonathan Safran Foer, Editora Rocco, 2009, páginas 133-141)

 

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Direitos Animais: A Abordagem Abolicionista

Animais: Nossa Esquizofrenia Moral

Dizemos levar os animais a sério.

Todos nós concordamos que é errado causar sofrimento ou morte aos animais “sem necessidade”. Mas o que isso quer dizer?

No mínimo, quer dizer que é errado causar sofrimento e morte aos animais só porque sentimos prazer ou nos divertimos fazendo isso, ou então porque é conveniente, ou porque é puro hábito.

Mas a esmagadora maioria dos usos que fazemos dos animais – quase todos os usos – não tem nenhuma justificativa, a não ser nosso prazer, divertimento, hábito ou conveniência.

A maioria dos animais é morta para a produção de comida. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), os humanos matam aproximadamente 53 bilhões de animais – isto é, 53.000.000.000 – para comida por ano, fora os peixes e outros animais marinhos.

145 milhões.........mortos a cada dia
6 milhões..........mortos a cada hora
100.000..........mortos a cada minuto
1.680 ..........mortos a cada segundo

Esse número está crescendo e poderá dobrar na segunda metade do século.

Como podemos justificar essa matança?

Não podemos justificar essa matança baseados na ideia de que precisamos comer produtos animais por questões de saúde. Não há dúvida de que não precisamos. Na realidade, a evidência mostra, cada vez mais, que os produtos animais fazem mal à saúde humana.

Não podemos justificar essa matança baseados na ideia de que ela é “natural” porque os humanos comem animais há milênios. O fato de estarmos fazendo uma coisa há muito tempo não quer dizer que essa coisa seja moralmente boa. Os humanos foram racistas e machistas durante muitos séculos, e agora reconhecem que o racismo e o machismo são imorais.

Não podemos justificar essa matança como necessária para a ecologia global. Há um crescente consenso quanto ao fato de que a criação de animais para comida é um desastre ambiental.


  • Segundo a FAO, a criação de animais para comida é responsável por mais emissão de gases do efeito estufa do que o uso de gasolina em carros, caminhões e outros veículos.
  • A pecuária utiliza 30% de todo o solo do planeta, incluindo 33% das terras cultiváveis, usadas para produzir comida para os animais explorados nessa atividade.
  • A criação de animais para comida está resultando na devastação das florestas para criar novas pastagens e numa grave e extensa degradação do solo, que sofre compressão devido ao pastoreio excessivo, além de erosão.
  • A criação de animais para comida é uma das principais ameaças aos recursos hídricos mundiais, cada vez mais escassos. É preciso um imenso volume de água para produzir alimento para esses animais. O pastoreio excessivo em várias partes do planeta atrapalha os ciclos da água. A criação de animais para comida contribui significativamente para a contaminação aquática.
  • Os animais consomem mais proteína do que produzem. Para cada quilo de proteína animal produzida, os animais consomem, em média, quase 6 quilos de proteína proveniente de grãos e forragem.
  • São necessários mais de 100.000 litros de água para produzir 1 quilo de carne e aproximadamente 900 litros para produzir 1 quilo de trigo.

Como os animais consomem muito mais proteína do que produzem, os grãos que deveriam servir de alimento aos humanos são dados de comer aos animais. Assim, a criação de animais para comida, junto com outros fatores, condena muitos seres humanos a passarem fome.

A única justificativa que temos para causar sofrimento e morte a 53 bilhões de animais por ano é que comê-los nos dá prazer, é conveniente para nós e é um hábito.

Em outras palavras, não temos nenhuma boa justificativa.

Nosso modo de pensar sobre os animais não humanos é muito confuso. Muitos de nós vivem, ou já viveram, com companheiros animais como cães, gatos, coelhos, etc. Nós amamos esses animais. Eles são membros importantes das nossas famílias. Quando eles morrem, sofremos.

Mas enfiamos garfos em outros animais que não são diferentes daqueles que amamos. Isso não faz o menor sentido.

Como tratamos os animais

Além de usarmos os animais para todo tipo de finalidade que não pode ser considerada “necessária”, nós também lhes damos um tratamento que, se fosse dado a seres humanos, seria considerado tortura.

Há leis de bem-estar animal exigindo que tratemos os animais “humanitariamente”. Mas essas leis geralmente não fazem sentido, porque os animais são propriedade. Os animais são mercadorias: seu único valor é aquele que nós lhes damos. No que concerne à lei, animais são como carros, móveis ou qualquer outra propriedade nossa.

Como os animais são propriedade, nós geralmente permitimos que as pessoas os usem para a finalidade que quiserem e lhes causem um sofrimento terrível durante o processo.

Por que não obter leis e padrões industriais melhores?

A maioria das organizações de proteção animal afirma que a solução para o problema da exploração desses seres é melhorar as leis de bem-estar animal, ou fazer pressão para a indústria melhorar os padrões de tratamento. Essas organizações fazem campanhas por métodos de abate mais “humanitários”, sistemas de confinamento mais “humanitários” como jaulas maiores, etc. Algumas delas afirmam que melhorar o tratamento dos animais faz com que o uso de animais seja totalmente eliminado no futuro, ou, pelo menos, seja significativamente reduzido.

Mas será que a solução é essa, mesmo? Não, não é.

A realidade econômica é tal que as reformas bem-estaristas oferecem poucas melhoras, se é que oferecem alguma. Por exemplo, o abate “humanitário” de aves com gás envolve tanto sofrimento quanto o abate de aves com choque elétrico.


Caracterizar a exploração dos animais como uma atividade que está ficando mais “humanitária” faz o público se sentir mais à vontade quanto ao uso de animais, o que o incentiva a continuar consumindo produtos animais e pode até aumentar o saldo de sofrimento e mortes.


Além disso, não há absolutamente nenhuma prova de que as reformas bem-estaristas levem ao fim do uso de animais ou a uma redução significativa do seu uso. Os padrões e as leis de bem-estar já existem há mais de 200 anos e nós estamos explorando mais animais, e em condições ainda mais horríveis, do que em qualquer época da história humana.

E o mais importante de tudo é que reformar a exploração ignora a questão fundamental: como podemos justificar o uso de animais como nossos recursos – por mais “humanitariamente” que os tratemos?

Qual a solução?

A solução é abolir a exploração dos animais, em vez de regulá-la. A solução é reconhecer que, assim como reconhecemos que todo ser humano, independentemente de suas características particulares, tem o direito fundamental de não ser tratado como propriedade alheia, todo não humano senciente (perceptivamente consciente) também tem esse direito.

O que isso significa na prática?

Você deve estar querendo saber como fazer alguma coisa para abolir a exploração animal.

Há uma coisa que você pode fazer.

Você pode se tornar vegano(a). Agora mesmo. Veganismo quer dizer que você parou de consumir produtos de origem animal.

O veganismo não é uma mera questão de dieta; é um compromisso moral e político com a abolição, no nível individual, e abrange questões não só de comida, mas também de roupas e outros produtos, além de outras ações e escolhas pessoais.

O veganismo é aquilo que todos nós podemos fazer hoje – agora – para ajudar os animais. O veganismo não requer uma campanha cara, nem o envolvimento de uma grande organização, nem legislação, nem nada fora o nosso reconhecimento de que, se o termo “direitos animais” significa alguma coisa, significa que não temos justificativa para matar e comer animais.

O veganismo reduz o sofrimento e a morte dos animais por meio da redução da demanda. Representa uma rejeição à condição de mercadoria dos animais não humanos e o reconhecimento de seu valor inerente.

O veganismo também é um compromisso com a não violência. O movimento pelos direitos animais deve ser um movimento de paz e deve rejeitar a violência contra todos os animais – humanos e não humanos.

O veganismo é a forma mais importante de ativismo político em que podemos nos engajar pelos animais.

E uma vez que você tiver se tornado vegano(a), comece a educar sua família, seus amigos e outras pessoas de sua comunidade a também se tornarem veganos.

Se quisermos abolir a exploração animal, um movimento vegano é um pré-requisito necessário. E esse movimento começa com a decisão do indivíduo.

Mas o que há de errado em comer produtos animais que não a carne?

Não há nenhuma diferença significativa entre comer carnes e comer laticínios ou outros produtos animais. Os animais explorados para produzir laticínios, ovos ou outros produtos são tão maltratados quanto os animais criados para produzir carne (ou mais maltratados ainda). E todos eles acabam no mesmo matadouro, depois do quê nós consumimos sua carne do mesmo jeito.


Há tanto sofrimento e morte num copo de leite, ou num sorvete, ou num ovo, quanto num bife.


Dizer que há uma diferença moral entre comer carnes e comer laticínios, ovos ou outros produtos animais é tão absurdo quanto dizer que há uma diferença moral entre comer vacas grandes e comer vacas pequenas.

Enquanto mais de 99% das pessoas continuarem pensando que é aceitável consumir produtos animais, nada vai mudar de verdade para os animais.

Portanto…

A decisão é sua. Ninguém pode tomá-la por você. Mas, se você acredita que as vidas dos animais têm valor para eles próprios, e que por isso você deve respeitá-las, então pare de participar da matança dos animais, por mais “humanitariamente” que eles sejam tratados.

Junte-se ao movimento abolicionista. Torne-se vegano(a). Hoje. É fácil ser vegano(a). E é a coisa certa a fazer.

Para mais informações, visite A abordagem abolicionista em:

http://www.AbolitionistApproach.com

© 2008 Gary L. Francione & Anna E. Charlton.
A distribuição por outros indivíduos ou organizações não indica necessariamente que os autores aprovem quaisquer pontos de vista que possam ser expressos por esses indivíduos ou organizações, que não os contidos aqui.


Retirado do modelo do panfleto disponível aqui. Salve, imprima, distribua.

Um por um, continuo soltando meus balões vermelhos

Agora em agosto fez dois anos que me tornei vegano. De lá pra cá, meu mundo mudou um bocado, um tanto que não daria pra descrever e eu acho que nem gostaria de fazer isso.

Foi uma decisão pensada e amadurecida depois de muita reflexão e estudo. Apesar disso, não tinha ideia do impacto na minha vida prática. Com certeza digo que em nenhum momento fiquei tentado a desistir ou me arrependi, mas também sempre fui honesto comigo mesmo, de maneira que se mudasse de ideia não hesitaria em voltar atrás.

moedor

Fazendo um balanço desses meses todos, posso dizer que foi e está sendo bom e ruim, me faz bem e me faz mal.

Fisicamente só me faz bem. Perdi 2o kg da mais pura gordura sem esforço extra e fiquei ligeiro como era quando tinha 18. Praticamente me tornei outra pessoa de tanto que o funcionamento do meu organismo melhorou.

Espiritualmente e socialmente tem sido um pé no saco. Além de veganos, ninguém gosta de veganos. Mesmo amigos e familiares podem ser um teste de paciência no convívio social. Claro que no começo eu era muito chato também, agora sou apenas chatinho, acho. Em geral tenho ficado quieto no meu canto mas volta e meia acabo envolvido num bateu-levou.

É a lei da selva -> não vivemos mais nela.

Temos caninos -> elefantes tem dentes enormes.

Estamos no topo da cadeia alimentar -> Principalmente no supermercado. Mas ótimo: podemos escolher o que comemos ou deixamos de comer.

Nosso cérebro só evoluiu por causa da proteína animal -> vá estudar.

Carne é saudável e tem os nutrientes que precisamos para viver -> de novo, vá estudar. E se você for douto, faça um favor aos seus pacientes e vá se reciclar.

Comer carne sempre fez parte da história da humanidade -> matar recém nascidos defeituosos e estuprar as mulheres dos inimigos, também, e daí?

Deus nos deu os animais como alimento -> vá dar a bunda, depois vá estudar.

Como carne porque é gostoso -> esse é um bom argumento, o único minimamente respeitável. Mas gostar de carne assada, cozida ou frita e temperada é moleza, eu também acho uma delícia. Quero ver você comer uma língua de boi crua e sem tempero, como um bom animal predador, usando seus fortíssimos caninos, honrando seus antepassados das cavernas, no topo da sua cadeia alimentar de supermercados.

Pra ser um vegano zen ainda me falta muito. É bem difícil, sempre tem alguém testando minha capacidade de lidar com piadas e gracejos. E me sinto bastante incomodado cada vez que me deparo com a onipresença do consumo de derivados animais. Nesse caso, as vezes fico até feliz por meu círculo social ser pequeno.

E é óbvio e triste ter a clareza de saber que não há como escapar. Qualquer vegano mais experimentado sabe que nem tudo pode ser evitado. Temos controle do que comemos e de uma pequena parte do que usamos e olhe lá. Mas a gente faz o que pode com as ferramentas que tem. É pouco, mas suficiente pra dar um sentimento permanente de satisfação, mesmo nos momentos mais duros.

Também sempre há aquelas perguntas simples e diretas, às vezes honestas, que me deixam sem ação.

Eu ainda carrego poucas certezas e muitas dúvidas sobre meus hábitos. Frequentemente me pego sem argumento convincente nem para mim mesmo. Cada passo acaba sendo um teste de fogo onde procuro descobrir o real sentido da minha conduta. Tenho medo de me ver de repente fazendo gestos sem sentido e passar pela vergonha de me sentir equivocado, mas mesmo assim busco manter a mente e o coração abertos. Como eu disse, acima de tudo, não tenho medo de mudar de ideia.

Por enquanto não vejo razão para tal. Abrir concessão ou exceção para a escravidão e holocausto em massa de seres inocentes e sencientes não me parece algo fácil de se justificar. É uma coisa que não entra na minha dura cabeça.

Optar pelo veganismo foi a saída mais simples para mim, tirando esse fardo dos meus ombros estreitos e caídos. Para a maioria das pessoas parece ser mais fácil cair no duplipensar e continuar na esquizofrenia social reinante no que tange ao modo como lidamos com os outros animais.

Mas é claro que essa é apenas uma opinião minha, que reconheço ser bastante implacável. Da mesma forma que tento desenvolver empatia pelos outros animais, preciso tê-la com meus irmãos de espécie em primeiro lugar e não exigir deles na mesma medida em que exijo de mim, senão posso acabar virando um mártir ou sendo exilado, o que só é bonito nos filmes ou quando você é o Caetano Veloso.

Enfim, é o que eu tinha a dizer sobre isso. Por hora fique com essa música bacana.

You and I in a little toy shop
buy a bag of balloons with the money we’ve got
Set them free at the break of dawn
‘Til one by one, they were gone

Caro(a) colega

Caro(a) colega:

Direitos animais são um assunto binário: você explora animais ou se torna vegano(a).

Não há terceira opção.

Você não pode explorar “compassivamente”. Você simplesmente explora. Sua “compaixão” se trata de fazer você se sentir melhor quanto a continuar explorando animais. A exploração “compassiva” não tem nada a ver com a obrigação de justiça que devemos aos animais não humanos.

Justiça requer que paremos totalmente de usar animais. Exploração “humanitária” não passa de fantasia. Todo uso de animais envolve tortura. E mesmo se não envolvesse, e mesmo se pudéssemos tratar “humanitariamente” os animais que exploramos, não podemos justificar o uso e a morte dos animais para o prazer do nosso paladar, nosso sentido de moda, entretenimento ou qualquer outra finalidade.

Esteja certo(a): exploração animal “compassiva” é um absurdo, assim como escravidão “compassiva” e genocídio “compassivo” são um absurdo.

Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É fácil; é melhor para a sua saúde e o planeta. Mas o mais importante é que é a coisa moralmente certa a fazer. Você nunca fará mais nada tão fácil e tão gratificante em sua vida.

Gary L. Francione

Tradução de Regina Rhedahttp://francionetraduzido.blogspot.com/2011/03/uso-compassivo-de-animais-e-um-absurdo.html

A comida dos campeões… veganos

É engraçado que volta e meia me perguntam o que eu como, imaginando que veganos tem uma dieta especial ou do tipo usada por astronautas. Não há nada demais na minha dieta, apenas não consumo alimentos que tenham origem animal. Ou seja, quase tudo. Ou quase nada, dependendo da perspectiva.

Pensando nisso, resolvi que seria válido descrever minha alimentação e dar uma pequena mas real contribuição para mostrar como o veganismo não é nada complicado ou fora do normal.

A princípio, a única particularidade notável é que existe pouca distribuição e alcance de produtos industrializados cuja composição seja estritamente vegetal, daí a dificuldade de se encontrar essa variedade em cidades pequenas.

Outro problema é limitar o consumo de industrializados a marcas que não trabalhem com produtos de origem animal, prática comum entre veganos mais ferrenhos. Isso torna tudo muito difícil, pra não dizer impossível, já que nem mesmo um simples pacote de macarrão de sêmola escaparia.

Morando numa cidade minúscula e limitada, eu tomei a decisão de evitar determinadas marcas quando possível e apenas isso.

Outro ângulo a ser visto é que o veganismo não se limita a alimentação e vai muito além, abarcando vestuário, produtos de higiene e limpeza etc. Por enquanto apenas controlo o que como.

CAFÉ DA MANHÃ

Sou do tipo de gente que não sente vontade de comer quando acorda, preferiria apenas tomar uma xícara de café e só. Faço um esforço, já que é consenso que essa é a refeição mais importante. É?

De manhã, além de café adoçado com açúcar mascavo, eu tomo leite de soja da Purity/Cocamar. Andei fazendo leite de soja em casa mas definitivamente não fica tão bom quanto esse.

Na maioria das vezes eu como apenas pão integral, e tenho preferência pelos da linha Grão Sabor, da Wickbold.

Quanto a margarina ou creme vegetal, até pouquíssimo tempo eu usava a Mesa, da Vigor, mas fiquei sabendo que ambas as marcas pertencem a JBS Friboi e, apesar de nada constar na embalagem, há suspeitas de que o fabricante usa sebo como origem de alguns ingredientes. Eu adoro o mundo capitalista, e você?

Bem, o pessoal vegano fala que azeite no pão é o que há, preciso experimentar…

Um recheio para pão que é excelente e as vezes me dou o trabalho de fazer é manteiga de amendoim. Minha receita é essa:

  1. Asse meio quilo de amendoins
  2. Retire a pele (não é fácil e demora)
  3. Moa num moedor. Se não for possível, dá pra arriscar ir direto no liquidificador, desde que este seja dos bons
  4. Bata muito bem no liquidificador juntamente com uma xícara de açúcar mascavo e um pouco de água para facilitar
  5. Pegue um pote de margarina, jogue o conteúdo fora, lave-o bem e coloque a manteiga de amendoim dentro 😛

Para terminar a lista do café da manhã: as vezes também arrisco uma banana ou um pedaço pequeno de maçã ou pêra, meio forçado porque não sou fã de frutas.

ALMOÇO

Assim que cortei definitivamente a carne do cardápio, a substitui por PTS, proteína texturizada de soja. Não é um alimento realmente necessário e aos poucos vou abandoná-la, mas ela facilitou no começo, ocupando no prato o lugar da carne.

A proteína de soja é a base para muitas receitas veganas que tentam emular pratos carnívoros. Particularmente não gosto muito da ideia mas… é uma opção pra quem curte junk food, tipo massas, salgados etc.

A proteína de soja, após ser devidamente hidratada, pode ser preparada como se fosse carne. Minha mãe, que é a cozinheira de casa, a faz como se fosse picadinho.

Antes que você logo pense “mimimi mamãe que tem o trabalho de fazer a comidinha do vegano bichinha” quero dizer que o trabalho a mais que minha mãe tem é de preparar uma variedade maior de legumes, o que só faz bem pra todos.

Em termos simples, a grande diferença no meu almoço é a variedade. Antes eu me limitava a comer o que mais gostasse, ou seja, macarrão, arroz, feijão, carne, em porções generosas, e dava pouco espaço para vegetais. Agora, reservo no prato um espaço igual para cada coisa. Sigo a regra do “quanto mais cores, melhor”.

Meu almoço é composto variavelmente de arroz, feijão, macarrão, mandioca, batata, lentilha, abobrinha e proteína de soja como bases, sendo acompanhos de salada de grão de bico, ervilha, milho, beterraba, cenoura, tomate e folhas, com atenção especial a rúcula, brócolis e couve-flor.

Veja, praticamente como de tudo. Antes eu não poderia dizer o mesmo.

JANTAR

Meu jantar é um repeteco do almoço e sempre tento tomar cuidado para não exagerar no arroz ou no feijão.

COMPLEMENTAÇÃO COM VITAMINA B12

A única coisa que não existe no reino vegetal e é fundamental para nosso organismo é a vitamina B12, presente em alimentos de origem animal. Em algum momento na evolução humana paramos de produzi-la.

Para não correr riscos, veganos necessitam tomar um único suplemento, que é esse. Todo o resto que você ouvir por aí é mito, lenda ou pura besteira. E antes que você pergunte, eu respondo: não é cara e é sintetizada em laboratório.

SINTO FALTA?

De carne, não. De ovos, sim. De leite, não, mas de queijo, sim. Do que mais sinto falta são opções doces. Estou aprendendo a fazer bolos sem leite e ovos para diminuir essa carência. 🙂

COMIDA INDUSTRIALIZADA

Ouvi isso não sei onde é a mais pura pérola de sabedoria: “Não coma nada que sua bisavó não identificaria como comida.”

É muito difícil ter controle sobre os ingredientes de comidas industrializadas. Muitos fabricantes não se dão ao trabalho de informar corretamente na embalagem e nos seus respectivos SACs e sites do que se compõe seus produtos. As vezes eles jogam sujo e além de outros truques desonestos, podem mudar a fórmula sem aviso. A saída, na dúvida, é não comer.

Gente radical e que defende o carnivorismo com unhas e dentes (é…) adora dizer que o veganismo é uma ilusão porque tudo tem carne/ovo/leite/sebo etc. Sim, com certeza volta e meia eu me alimento de algo que tem uma infinitésima parte disso, a questão é que quando tomo conhecimento, não como mais. Simples assim, sem drama.

Não sou alérgico ou tenho nojo, é apenas uma opção de vida. E como eu já disse antes, não importam as razões para se adotar uma dieta vegana, todas são excelentes.

Perca 8kg sem esforço, pergunte-me como!

Ao ler o título você já pensou “lá vem o mala de novo com essa conversa”.

Hoje fui ao centro e aproveitei para entrar numa farmácia e usar a balança na faixa. Deu 77,5 kg. Nada mal pra quem estava com 85 kg há alguns meses atrás e não precisou mover nenhum músculo ou suar nenhuma gota para se livrar desses quilos.

Estou quase pesando o mesmo que em 2009, quando fiquei mais sedentário e parei de fumar, ganhando 10 quilos em um ano.

Como na época eu fumava muito mas também andava muito, não sei se estava no peso ideal. Com a caminhada puxada e a alta dose de nicotina correndo nas veias, meu metabolismo tinha outro ritmo. Imagino que agora eu vou parar de emagrecer. Mas ainda tô vendo uma sobrinha de gordura aqui…

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Não pense que estou obcecado em emagrecer ou algo do tipo. A perda (do excesso) de peso foi apenas um brinde (muito bem vindo) da minha mudança de paradigma.

Gosto de bater nessa tecla porque é por onde se captura a atenção das pessoas mais facilmente. Falar sobre ética, empatia e abolicionismo animal soam como loucura aos ouvidos de boa parte das pessoas. Excitar a vaidade ou a busca por saúde é um bom truque para apontar o vegetarianismo como caminho a ser considerado.

Então reflita sobre isso e use meu caso como referência. Não faço academia, não faço exercício regular. Tão somente ando todo dia de bicicleta no caminho casa/trabalho, mais ou menos 2 km por dia.

Antes eu já não era de exagerar com comidas gordurosas e hiper calóricas, mas de vez em quando rolava refrigerante, doce, salgadinho. Hoje só sobrou o refrigerante pois não é fácil encontrar guloseimas que não contenham carne/leite/ovo. Mas faço bolos de vez em quando. 🙂

Enfim, tudo se resume a o quanto somos escravos dos nossos estômagos frente a o quanto queremos manter nossa saúde. Vamos pensar nisso?

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Cozinhar com o coração II

Uma vez, quando eu era pequeno, tentei fazer um bolo. Minha mãe supervisionou a mistura dos ingredientes mas algo deu errado e o resultado foi um biscoitão duro e seco, pelo menos com muita sustância.

Esses dias atrás andei caçando uma receita de bolo vegano para poder fazer um pra minha mãe, que faz aniversário por esses dias. Nada mais justo: fazendo as contas aí por cima, ela já fez mais de 20 bolos de aniversário para mim, fora os regulares, né?

Encontrei e decidi seguir essa receita aqui. Simples e precisa, mas o bestão aqui trocou ingredientes e estragou tudo. Usei açúcar mascavo e farinha de trigo integral porque pensei que ficaria mais gostoso. O bolo acabou saíndo mais pro salgado do que pro doce e ainda por cima meio esfarelento. Um desastre.

Hoje resolvi tentar de novo e ficou muito melhor. Não excelente, mas ao menos gostoso, o que é um avanço. É o terceiro bolo que faço na vida.

Como gosto de compartilhar, compartilho com você o método que usei. Faça você também um bolo livre de crueldade e muito saudável. É fácil!

BOLO DE CHOCOLATE VEGANO (adaptação dessa receita aqui)

Sem ovos e sem leite.

Ingredientes

  • 3 xícaras de farinha de trigo comum
  • 2 xícaras de açúcar comum
  • 6 colheres de cacau em pó
  • 2 colherinhas de bicabornato de sódio
  • 1 colherinha de sal
  • Quase meia xícara de óleo
  • 2 colheres de vinagre (usei de maçã)
  • 2 colheres generosas de baunilha
  • 1 xícara de leite de soja
  • 1 xícara de água
  • Meia lata de leite condensado de soja para cobertura (opcional)

Modo de fazer

  • Misture primeiro os ingredientes secos numa tigela e depois adicione os outros. Misture e bata bastante. Imagino que quanto mais bater, mais fofo ficará.
  • Coloque no forno a 180 graus por 40 minutos.

Nota: eu usei um forno microondas, de tamanho médio, em 70% da potência, segundo instrução para confecção de bolos do próprio manual. Mas retirei com 35 minutos, pois ele já estava ficando seco demais. Ficou duro na borda, talvez eu tenha batido pouco ou ficou muito tempo no forno).

Bem, leia a receita original e a minha e tire a média. Se não der certo da primeira vez, tente de novo 😉