Torta de beringela

Milhares de pessoas pediram minha famosa receita de torta de beringela e finalmente vou revelar o segredo. É uma receita com beringela para quem não gosta de beringela, ou pensa que não gosta, ou algo assim.

Ingredientes da massa

  • 2 xícaras de farinha de trigo refinada
  • 2/3 xícara de água morna
  • Sal a gosto
  • 1 colher de sopa de óleo ou azeite
  • 1 colher de sopa de fermento granulado

Ingredientes do recheio

  • 2 xícaras de proteína de soja miúda
  • 1 cebola grande
  • 1 dente de alho
  • 1 limão
  • 2 colheres de sopa de óleo
  • Sal a gosto
  • 1 beringela
  • 2 tomates
  • 1 pimentão chapéu-de-frade
  • 1/2 xícara de cheiro verde fresco

Preparando a massa

Misture muito bem os ingredientes secos e só depois acrescente os outros. Cuidado pra não deixar a massa muito dura. Amasse bem e deixe a massa descansando num recipiente coberto enquanto prepara o recheio.

Preparando o recheio

Despeje a proteína de soja numa panela com bastante água e coloque para ferver. Quando levantar fervura, esprema o limão em cima e misture. Deixe fervendo por mais um minuto e depois retire do fogo. Imediatamente escorra bem a água e aperte um pouco a soja pra retirar o excesso. Parabéns, você aprendeu a hidratar carne de soja do jeito certo 🙂

Pique bem fino a cebola, o alho, o cheiro verde, o pimentão e o tomate. É bom retirar as sementes do tomate. Descasque a beringela, corte ao meio e retire as partes com sementes usando uma faca para escavar. Sim, boa parte da beringela tem sementes mas é importante retirar toda a casca e as partes com semente senão a magia não acontece. Pique em cubos pequenos.

Numa panela média, despeje duas colheres de óleo, uma pitada de sal, o alho e metade da cebola picada. Espere dar aquela fritadinha marota e então jogue a soja hidratada. Mexa e deixe em fogo baixo por alguns minutos. Parabéns, você aprendeu a preparar o picadinho de carne de soja do jeito certo 🙂

Quando o picadinho estiver parecendo bem seco, jogue o pimentão, o tomate, o cheiro verde, a outra metade da cebola e por fim a gloriosa beringela. Misture e deixe em fogo baixo mais alguns minutos. Retire a panela do fogo e deixe esfriar destampada.

Montando a torta

Corte a massa em dois pedaços, um deles um pouco maior que o outro, esse será a parte de baixo. Estique com um rolo ou uma garrafa. Não pode ficar muito fina, algo próximo de meio centímetro. Unte a forma com óleo e ajeite a massa com cuidado, sem esticar nos cantos. Deixe uma boa borda mas corte o excesso.

Coloque o recheio e espalhe bem pra não deixar espaços vazios.

Estique a outra metade da massa e cubra a forma inteira, cortando o excesso mas deixando as bordas das duas partes bem coladas. A massa que sobrou pode ser cortada em tiras e colocada em cima da torta.

Pincele azeite ou óleo e leve ao forno com fogo baixo/médio. O tempo varia, mas algo em torno de uma hora deve ser suficiente.

Bon Appetit!

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Um por um, continuo soltando meus balões vermelhos

Agora em agosto fez dois anos que me tornei vegano. De lá pra cá, meu mundo mudou um bocado, um tanto que não daria pra descrever e eu acho que nem gostaria de fazer isso.

Foi uma decisão pensada e amadurecida depois de muita reflexão e estudo. Apesar disso, não tinha ideia do impacto na minha vida prática. Com certeza digo que em nenhum momento fiquei tentado a desistir ou me arrependi, mas também sempre fui honesto comigo mesmo, de maneira que se mudasse de ideia não hesitaria em voltar atrás.

moedor

Fazendo um balanço desses meses todos, posso dizer que foi e está sendo bom e ruim, me faz bem e me faz mal.

Fisicamente só me faz bem. Perdi 2o kg da mais pura gordura sem esforço extra e fiquei ligeiro como era quando tinha 18. Praticamente me tornei outra pessoa de tanto que o funcionamento do meu organismo melhorou.

Espiritualmente e socialmente tem sido um pé no saco. Além de veganos, ninguém gosta de veganos. Mesmo amigos e familiares podem ser um teste de paciência no convívio social. Claro que no começo eu era muito chato também, agora sou apenas chatinho, acho. Em geral tenho ficado quieto no meu canto mas volta e meia acabo envolvido num bateu-levou.

É a lei da selva -> não vivemos mais nela.

Temos caninos -> elefantes tem dentes enormes.

Estamos no topo da cadeia alimentar -> Principalmente no supermercado. Mas ótimo: podemos escolher o que comemos ou deixamos de comer.

Nosso cérebro só evoluiu por causa da proteína animal -> vá estudar.

Carne é saudável e tem os nutrientes que precisamos para viver -> de novo, vá estudar. E se você for douto, faça um favor aos seus pacientes e vá se reciclar.

Comer carne sempre fez parte da história da humanidade -> matar recém nascidos defeituosos e estuprar as mulheres dos inimigos, também, e daí?

Deus nos deu os animais como alimento -> vá dar a bunda, depois vá estudar.

Como carne porque é gostoso -> esse é um bom argumento, o único minimamente respeitável. Mas gostar de carne assada, cozida ou frita e temperada é moleza, eu também acho uma delícia. Quero ver você comer uma língua de boi crua e sem tempero, como um bom animal predador, usando seus fortíssimos caninos, honrando seus antepassados das cavernas, no topo da sua cadeia alimentar de supermercados.

Pra ser um vegano zen ainda me falta muito. É bem difícil, sempre tem alguém testando minha capacidade de lidar com piadas e gracejos. E me sinto bastante incomodado cada vez que me deparo com a onipresença do consumo de derivados animais. Nesse caso, as vezes fico até feliz por meu círculo social ser pequeno.

E é óbvio e triste ter a clareza de saber que não há como escapar. Qualquer vegano mais experimentado sabe que nem tudo pode ser evitado. Temos controle do que comemos e de uma pequena parte do que usamos e olhe lá. Mas a gente faz o que pode com as ferramentas que tem. É pouco, mas suficiente pra dar um sentimento permanente de satisfação, mesmo nos momentos mais duros.

Também sempre há aquelas perguntas simples e diretas, às vezes honestas, que me deixam sem ação.

Eu ainda carrego poucas certezas e muitas dúvidas sobre meus hábitos. Frequentemente me pego sem argumento convincente nem para mim mesmo. Cada passo acaba sendo um teste de fogo onde procuro descobrir o real sentido da minha conduta. Tenho medo de me ver de repente fazendo gestos sem sentido e passar pela vergonha de me sentir equivocado, mas mesmo assim busco manter a mente e o coração abertos. Como eu disse, acima de tudo, não tenho medo de mudar de ideia.

Por enquanto não vejo razão para tal. Abrir concessão ou exceção para a escravidão e holocausto em massa de seres inocentes e sencientes não me parece algo fácil de se justificar. É uma coisa que não entra na minha dura cabeça.

Optar pelo veganismo foi a saída mais simples para mim, tirando esse fardo dos meus ombros estreitos e caídos. Para a maioria das pessoas parece ser mais fácil cair no duplipensar e continuar na esquizofrenia social reinante no que tange ao modo como lidamos com os outros animais.

Mas é claro que essa é apenas uma opinião minha, que reconheço ser bastante implacável. Da mesma forma que tento desenvolver empatia pelos outros animais, preciso tê-la com meus irmãos de espécie em primeiro lugar e não exigir deles na mesma medida em que exijo de mim, senão posso acabar virando um mártir ou sendo exilado, o que só é bonito nos filmes ou quando você é o Caetano Veloso.

Enfim, é o que eu tinha a dizer sobre isso. Por hora fique com essa música bacana.

You and I in a little toy shop
buy a bag of balloons with the money we’ve got
Set them free at the break of dawn
‘Til one by one, they were gone

Roberto Slim

Agora que me toquei que eu devia ter escrito aqui no meu blog também. Vá lá, antes tarde que nunca.
Quem se preocupa com peso é mulher e bicha, diz o teutão, mas tá aí o resultado de uma vida mais saudável sem esforço:

haters-gonna-hate

Revolução na minha mesa

vegetariana

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS, MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OUTROS

Ignorar e não se importar são coisas diferentes. Ignorar é não conhecer, não saber. Não se importar é ser indiferente e é uma ação que pressupõe conhecimento prévio, por menor que seja.

Isso explica porque tanta gente se recusa a assistir documentários e conhecer mais profundamente sobre a criação industrial de animais.

O que se vê nesses filmes já é mais ou menos conhecido, mas não em cores bem definidas. A partir do momento em que você se torna conhecedor dos detalhes e vê em cores nítidas como as coisas acontecem e como funciona o mundo da produção industrial de carne e o uso industrial de animais, acaba sendo forçado a tomar uma posição consciente e deixar de lado qualquer manto de hipocrisia e ignorância, escolhendo um dos lados. Como em vários outros aspectos da vida, enquanto você não faz isso, vive semi imerso na realidade. Veja só uma coisa: você provavelmente imagina isso quando pensa em criação de gado, mas na verdade pode ser assim (pode clicar, não é nada feio).

É evidente que a ignorância parcial (porque, como eu disse, invariavelmente temos uma vaga idéia de como as coisas funcionam) nos preserva em segurança na nossa zona de conforto. Existe um muro entre nós e certos fatos, um muro que nós mesmos construímos usando alguns tijolos presenteados pela vida moderna.

Conhecimento traz sofrimento e ignorância é benção. Concorda?

SOMOS TODOS CRIADORES POR PROCURAÇÃO

Ao consumir algum produto, automaticamente o consumidor entrega ao produtor uma procuração dando o aval para que aquele determinado produto seja feito. Isso implica na concordância com todos os detalhes e métodos da produção. Isso está escrito lá nas letras miúdas. Mas afinal, quem tem tempo pra ler as letras miúdas, não é mesmo? Considere-se um criador de animais a distância. Você consome mais ou menos uns 90 quilos de carne anualmente.

Vou colocar em poucas palavras o que você assina em baixo com tinta invisível porém indelével sempre que come um alimento industrializado de origem animal:

  • Que o animal seja deliberadamente torturado do começo ao fim de sua vida. E isso não é um exagero.
  • Que se consuma na produção de cada quilo de carne cerca de 15000 litros de água doce limpa.
  • Que a poluição gerada pela criação em larga escala contamine rios e lençóis freáticos e que se derrubem florestas para abrir espaço para mais pasto devido ao crescimento da demanda.

Talvez você já saiba mais ou menos disso, mas talvez não. E esses são apenas alguns aspectos do consumo, que não se limita só ao que você mastiga, já que do boi, do porco, da galinha e de outros bichos só se perde o grito.

ESSA É A PARTE QUE ME CABE

A minha cota de vaga ideia de como as coisas são foi contraída de um baterista com quem eu tocava. Um vegan militante, portanto um chato tagarela. Eu era bem novo, obviamente na época eu apenas ria e dava de ombros. Mas a sua postura, mais do que as suas palavras, sempre foi uma lembrança cutucando minha mente.

Algo me trouxe até aqui, até essa posição nesse momento da minha vida. Não sei o quê exatamente e não me incomoda não saber. Não vejo isso como algo bom ou ruim, é apenas o caos ou algo desse tipo, ou outras dessas bobagens em que acreditamos ou deixamos de acreditar.

Fato é que assim como não é possível desver o que foi visto, não dá pra esquecer o que se passa a conhecer. Sabendo disso e consciente de que provavelmente eu fosse ficar incomodado, assisti ao filme Terráqueos.

Penso que foi talvez aí que algo mudou aqui nesse coraçãozinho de pedra. Esse filme plantou na minha cabeça sérias dúvidas sobre o modo como me relaciono com os animais, tanto na posição de indivíduo como na de representante da minha espécie. Foi nesse mesmo estado de espírito que, procurando mais sarna pra me coçar, li o livro Comer animais, de Jonathan Foer.

Virar o rosto e continuar cortando meu bife deixou de ser para mim uma opção correta. Simplesmente não mais me sinto confortável comendo carne e usando voluntariamente coisas de origem animal. Optando conscientemente por esse caminho, resolvi mudar meus hábitos.

É comum que as pessoas que se tornam vegetarianas o façam repentinamente e bem cedo na vida, geralmente na adolescência. Estou no grupo da exceção, passei da idade de “inventar moda” e estou deixando de comer carne paulatinamente.

Pode ser mais um passo na minha busca por autoconhecimento, na definição da minha personalidade, sei lá. Pense o que quiser enquanto penso que está tudo bem e no devido lugar. Hoje mais do que ontem.

MAIS DÚVIDAS DO QUE CERTEZAS

Posso estar errado mas acredito que, da mesma forma que existem mais motivos para se parar de fumar do que para se continuar fumando, o mesmo pode ser com comer carne. Calma, não estou dizendo que comer carne é um vício que prejudica a saúde em níveis alarmantes. Afinal, é lógico que você pode parar quando quiser 😀

Mas, no frigir dos ovos que nunca mais comerei, é interessante notar que na decisão de se parar de fazer algo o que pesa mais é sempre um detalhe, um único ponto, as vezes subjetivo e extremamente pessoal.

Por exemplo, talvez meu principal motivo para largar o cigarro tenha sido o cheiro desagradável que ele deixa na pele e nas roupas, além do hálito. Não para o meu nariz, mas para o dos outros.

Seguindo esse princípio, posso dizer que o motivo primal para eu parar de comer carne e seus derivados talvez seja por não concordar que animais sejam tratados como coisas. E que isso seja feito para mim, para o meu paladar, através do meu aval como consumidor.

Cada um se prende a questão que lhe é mais relevante. Talvez alguns futuros vegetarianos se preocupem mais com a questão ecológica ou de saúde física. Pode ser. Mas o ponto é que motivos para parar não faltam e são numerosos. Por outro lado, razões para manter o bife no cardápio em geral são bem questionáveis. Ou não.

Essas são minhas opiniões e minhas escolhas. Aos amigos e chegados que acompanham meu bloguinho e que podem estar estranhando minha mudança, quero relembrar os seguintes posts que mostram mais ou menos a evolução dessa mudança de postura. Não, essa não é mais uma modinha do robertão 🙂

Só quero que não fiquem loucos matutando muito nisso e tentando classificar as atitudes da pessoa mais importante na sua vida: eu. Não tenho que provar nada a ninguém, morram todos.

A PARTE DIFÍCIL

Duas coisas ficaram muito nítidas para mim quando comecei a refletir sobre o vegetarianismo e a decisão de se evitar o consumo de produtos de origem animal:

  1. Se metade de quase tudo vem do petróleo, a outra metade vem de animais.
  2. As pessoas se reúnem e confraternizam em volta de mesas, na partilha do alimento, onde a fartura é festivamente representada principalmente pela presença de carne.

São dois pontos que tornam complicada a vida de um vegetariano. A primeira porque dificilmente um vegan consegue manter longe do seu carrinho de supermercado coisas que tem relação direta com produção animal. A segunda, porque acaba por isolar, limitar ou no mínimo dificultar o convívio social, as vezes quebrando ritos e tradições familiares e jogando um ex-carnívoro no limbo social. Imagine um vegetariano num churrasco, na ceia de Natal, numa festa de aniversário. Dependendo da postura adotada por ele, atrito e desconforto podem ser seu cartão de visitas.

Vivo num círculo social pequeno e estou confiante de que não serei mal tratado por tomar a decisão de parar de comer carne, porém imagino que torno as coisas um pouco complicadas. Mas acima de tudo espero não virar um vegetariano chato, assim como tenho procurado não ser um ex-fumante chato.

Outra questão é a que se refere a necessidade nutricional, que mesmo não sendo consenso, é bem definida. A carne e seus derivados são uma fonte fácil e muito barata de proteína e de uma vitamina essencial para o organismo: a B12. Isso significa que fora da dieta onívora comum, alimentar-se adequadamente dá mais trabalho e gastos extras.

Mas acredito que para fazer-se o que se considera certo todo esforço é válido porque é necessário.

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10 Mandamentos para o carnívoro

Por Alison Green. Tradução de Mirian M. Costa.

Concluí, após cuidadosa análise, que comer carne era incompatível com meus valores, apesar de adorar carne e não gostar muito de verduras. Eu tinha certeza que minhas papilas gustativas iam se rebelar, talvez manter um ou dois brotos de feijão como reféns em minha boca até que eu pagasse o resgate com um hambúrguer ou um pedacinho de bacon.

Felizmente, não aconteceu bem como eu esperava, meu maior problema como vegetariana não foi a comida — que descobri ser deliciosa e tão satisfatória como a carne — mas as atitudes desconcertantes de minha família e dos amigos. Outros vegetarianos fazem as mesmas reclamações: os olhares estranhos, as perguntas tolas, os interrogatórios pouco amistosos. Parece que os vegetarianos —12 milhões só nos Estados Unidos, e aumentando a cada dia — são uma minoria na verdade tristemente mal compreendida. Assim, eu bolei dez simples mandamentos para os carnívoros usarem em seus contatos com os vegetarianos:

Não pense que os vegetarianos são espartanos que se alimentam de cenouras cruas e brotos de feijão.

A pergunta que mais ouço é “O que você come?” Esta me deixa desconcertada; o que pode responder uma pessoa que tem uma dieta razoavelmente variada? Eu como espaguete, refogados, humus, cozidos, sorvete de framboesa, minestrone, saladas, burritos de feijão, bolo de gengibre, lentilha, lasanha, espetinhos de tofu, waffles, hambúrgueres vegetarianos, alcachofras, tacos, bagels, arroz com açafrão, musselina de limão, risoto de cogumelos silvestres — o que você come?

Aprenda um pouco de biologia.

Eu ainda não sei bem o que fazer com pessoas que são inteligentes sob outros aspectos mas acham que uma galinha não é um animal. Só para constar, vegetarianismo significa não consumir carne vermelha, aves, ou peixe — nada que tenha um rosto. Já perdi a conta das vezes em que garçons sugeriram um prato de frutos do mar como entrada “vegetariana”.

Principalmente se as pessoas forem vegetarianas por razões éticas, não julgue que elas não se importarão com “só um pouquinho” de carne em sua refeição.

Você aceitaria “só um pouquinho” de seu gato, ou “um bocadinho” do Tio Jim em sua sopa?

Deixe de fazer lobby para a indústria da carne.

Parece que os carnívoros pensam que os vegetarianos são como as pessoas que fazem regime e que nós queremos trapacear de vez em quando. Meu pai tem certeza de que se ele conseguir me convencer que sua carne enlatada é uma delícia, eu vou ceder e comê-la. Amigos tentam me fazer experimentar “só um pedacinho” de qualquer prato com carne que eles estejam comendo, partindo da premissa de que é tão bom que é impossível que eu recuse. Há vezes em que penso que os carnívoros aprenderam a fazer pressão com os caras malvados dos filmes anti-drogas que nós assistíamos no ginásio. Ouçam bem: não precisam insistir dizendo que é “ótimo”, nós não vamos comer.

Quando um vegetariano fica doente, não diga a ele ou a ela que está desnutrido.

Dos comentários que ouvi quando tive gripe, vocês pensariam que os carnívoros nunca ficam doentes. Quando eu fico doente, tem sempre alguém esperando para me dizer que é por causa da minha dieta. Na verdade, da mesma forma que existem carnívoros saudáveis e doentes, há vegetarianos saudáveis e doentes.  (Por falar nisso, estudos demonstraram que os vegetarianos tem o sistema imunológico mais resistente do que os carnívoros.)

Quando estiverem em um restaurante com um vegetariano, tenham paciência — comer fora pode ser um desafio mesmo para o mais consumado vegetariano.

Apesar da aceitação em voga da dieta à base de vegetais, a maior parte dos cardápios de restaurantes ainda está repleta de produtos animais. Alguns restaurantes parecem não ter nada a não ser carne em seus cardápios; mesmo as saladas têm ovos ou frango! Não reclamem se seus esforços para determinar os ingredientes exatos do minestrone parecerem paranóia; a experiência nos ensinou que esses interrogatórios à mesa são necessários. Após anos interrogando garçons e garçonetes, descobri que itens descritos como vegetarianos muitas vezes contém caldo de galinha, banha, ovos, ou outros ingredientes animais.

Não façam caretas para nossos alimentos.

Antes de torcerem o nariz para meu cachorro-quente de soja ou para o tofu, pensem naquilo que vocês estão comendo. Só porque se alimentar de animais é amplamente aceito, isso não significa que não seja uma grosseria.

Percebam que nós provavelmente já ouvimos isso antes.

Uma das coisas mais engraçadas sobre ser veg é a pessoa que tem certeza de ter o argumento que vai mudar minha maneira de pensar. Quase que invariavelmente vêem como uma destas jóias:

(a) “Animais comem outros animais, portanto porque os seres humanos não o fariam?”

(Resposta: A maior parte dos animais que mata para se alimentar não sobreviveria se não o fizesse.  Esse obviamente não é o caso com os seres humanos. E desde quando usamos os animais como exemplo de comportamento?)

(b) “Nossos ancestrais comiam carne.”

(Resposta: Talvez — mas eles também moravam em cavernas, conversavam aos grunhidos, e tinham escolhas muito limitadas de estilo de vida. Supõe-se que nós já tenhamos evoluído desde aquela época.)

Apesar da opinião popular, vocês não têm o direito de esperar que os vegetarianos transijam convicções pessoais em nome da “cortesia”.

Pessoas que nunca sonhariam em convidar um alcoólatra recuperado para experimentar sua vodca preferida, ou em querer que alguém que levasse uma vida kosher aceitasse um pouco de bacon, acham perfeitamente razoável esperar que eu coma o bolo de carne da tia Maria porque eu o adorava quando criança e ela ficaria muito ofendida se eu não aceitasse um pouco agora.

Parem de dizer que os seres humanos “precisam” comer carne;

Nós somos a prova viva de que não precisam. Pessoas que sob outros aspectos respeitam minha capacidade de me cuidar recusam-se a acreditar que não tomei a decisão de me tornar vegetariana impulsivamente. Eu fiz muita pesquisa sobre o vegetarianismo — provavelmente mais do que vocês fizeram sobre dieta e nutrição — e estou confiante da escolha que fiz. Vocês conhecem os estudos que demonstram que os carnívoros tem duas vezes mais possibilidade de morrer de problemas cardíacos, 60% mais chance de morrer de câncer e 30% a mais de possibilidade de morrer de outras doenças? Eu não estaria comendo desta maneira se uma extensa pesquisa não tivesse me convencido de que o vegetarianismo é mais saudável e mais ético do que comer carne; uma pergunta mais pertinente seria se você pode justificar a sua dieta. 

Fonte: encontrei aqui.

E vamos nós de novo

…falar sobre aquele lance de ser e não ser vegetariano, ou melhor, ser vegetariano só da boca pra fora.

Pois então, acabei comprando um livro que versa sobre esse dilema. Caiu na minha mesa uma resenha sobre o “Comer animais”, de um sujeito de nome engraçado, Jonathan Safran Foer. Até então, ele era conhecido por duas boas ficções, mas de repente resolveu lançar esse livro contando sobre o dilema alimentício que passou com a chegada de um filho.

Li um trecho do livro, gostei, tá encomendado. Parece ser uma mistura de reportagem com reflexão filosófica e reminiscências da infância. Você sabe, aqueles textos bem pessoais, despretensiosos e que são gostosos de ler. Como esses que você encontra aqui 🙂

Vegetarianismo é um tema espinhoso. Só de ouvir a palavra, muitos já sobem as guardas e soltam as piadas. Assim como um ex-fumante chato ou um ecochato, um vegetariano militante também é igualmente odiado. Ninguém quer ser catequizado, não é?

Quando parei de fumar fiquei com meu olhar superior pairando sobre todos os fumantes a minha volta durante algum tempo, mas aos poucos fui suprimindo esse sentimento nocivo. Também tento resistir ao velho “bom pra mim, bom pra você” e ficar agarrando o braço de todo fumante e falar sobre as benesses de ter os pulmões limpos como uma esponja nova. Mas não é fácil, porque é uma tendência humana querer compartilhar o que consideramos bom pra nós. Obviamente, os mais próximos são os principais alvos no nosso proselitismo.

Enfim, é preciso ter paciência. Você precisa ter paciência, manolo. Com os ecochatos, vegetarianos e ex-fumantes. E também comigo.

Leia essas resenhas do livro, caso tenha ficado interessado. Uma da Folha, uma do Estadão e uma do iG.

“A pior parte foi perto do fim. Um monte de gente morreu bem no fim, e eu não sabia se ia conseguir sobreviver por mais um dia. Um fazendeiro, um russo, que Deus o abençoe, viu meu estado, correu até sua casa e voltou com um pedaço de carne para mim.”
– Ele salvou sua vida.
– Eu não comi.
– Não comeu?
– Era porco. Eu não ia comer porco.
– Por quê?
– Como assim, por quê?
– Porque não era kosher, é isso?
– Claro.
– Mas nem mesmo para salvar a sua vida?
– Se nada importa, não há nada a salvar.

A vantagem de ser vegetariano é que você pode se tornar totalmente um super vilão.