Estou lendo

um livro chamado “Apocalipse motorizado”, que caiu na minha mesa vindo não sei de onde. É uma coletânea de ensaios de vários autores e está recheado de textos politizados de esquerda, aquele papo de burguesia, capitalismo, classe social, essas coisas, mas sendo que o tema gira em torno de motivos para se destruir todos os malditos carros e transformar a bicicleta na salvação da humanidade, o conteúdo é bem interessante.

 

Abaixo, transcrevo um trecho significativo. Leia e concorde conosco.

 

Suspender os transportes abriria um caminho para sua alforria. Não mais limitado pela racionalidade do tráfego, da repetição diária, do tempo, da economia e, sobretudo, da segurança. Não mais através da devastação sem vida, do horroroso vazio, todas as viagens poderiam tornar-se prazerosas, mesmo que triviais. Toda locomoção poderia ser um passeio.

Enquanto escrevia este texto, as macieiras silvestres do lado de fora de minha janela foram cortadas pela administração pública porque os motoristas achavam um incômodo encontrar frutas derrubadas pelo vento em seus capôs. É surpreendente que você gaste tanto tempo limpando e polindo máquinas que tornam todo o resto ao alcance de sua vista uma imundice fedida. Macieiras silvestres não são um incômodo. Os carros são um incômodo. Sem carros poderíamos ter árvores em toda parte: limeiras, cajueiros, amieiros, uma fila de álamos-pretos em vez da Radial Leste, grandes carvalhos em vez do Minhocão. De onde você acha que vem o oxigênio afinal? Da merda do escapamento do seu carro?

 

Mude a direção efetivamente

Por isso que quase nem vejo mais TV. Assistindo TV você não tem controle sobre o que jogam na sua cara e cospem no seus ouvidos.

Era sobre esse vídeo que estive bradando no deserto do Twitter outro dia:

Como bem disse o meu chará do blog Discernimento Cristão: “a motivação maior por tras da compra de um veículo não é a de facilitar o transporte, mas nos sentirmos grandes”.

Eu tinha acabado de acordar quando liguei a TV e vi esse comercial. Ao invés de chorar sozinho, fui xingar no Twitter.

Desde que me entendo por gente, costumo ter ânsia de vomito ao ver propagandas de banco e de automóvel usando como trilha sonora músicas cultuadas do pop e do rock. Sempre achei isso uma apelação desnecessária. Hoje não há mais limites, é possível usar Revolution dos Beatles num comercial de banco sem quebrar o continuum do tempo.

Você assistiu? É um comercial que apela tanto e tão carregado de emoção que dá vontade de chorar! Se eu não comprar esse carro, vai parecer que eu não tenho coração! Sem falar que, como bônus, com ele meu pênis será magicamente alongado com mais uns quinze centímetros.

Enquanto o automóvel, novo ou não, for um símbolo tão forte de posição social no Brasil, o trânsito será esse caos e essa terra sem lei que você conhece bem mas nunca vê no comercial, onde o carrão reluzente sempre desliza num tapete de asfalto totalmente livre e infinito.

O carro funciona como um cartão de visita que diz: é até aqui que consegui chegar por enquanto.

carrao
Imagino sim, imagino que só de abrir uma porta ele já é capaz de abrir algumas pernas.

A questão é que não precisamos de mais bicicletas e ciclovias, mas sim de menos carros nas ruas. Propagandas como essa alimentam a ilusão de que com determinado carro você será mais feliz. Claro que em toda propaganda, todo produto leva isso embutido, mas nesse caso é muito nocivo. Carro não é um brinquedo. Ter um carro é ter responsabilidades e assumir consequências.

É fácil ver o tamanho do problema. Pegue uma cidade minúscula como Pirassununga. Num sábado de manhã as ruas ficam tomadas de carros.

Antes a gente via pessoas indo da padaria para casa carregando um pão bengala. Hoje não se anda 500 metros a pé. Curioso imaginar pessoas diariamente percorrendo de carro pequenas distâncias e religiosamente fazendo caminhadas ou frequentando academias no fim de semana. Antigamente ter um carro era necessário apenas para quem precisava cobrir grande distância ou viajava habitualmente, hoje há modelos projetados apenas para rodar na cidade, voltados para motoristas que jamais viajam dirigindo.

O carro tem papel protetor no trânsito pesado das grandes cidades, por isso fazem sucesso atualmente os modelos tipo SUV. Quanto maior, mais protegido você se sente. Junte isso aos casos extremos onde um motorista esquentado usa a máquina como arma e temos uma guerra civil muito peculiar.

É claro que vivendo numa cidade grande a coisa toda muda de figura. É relativamente fácil viver num vilarejo como Pirassununga sem ter um carro ou uma moto. Numa cidade grande, morando muito longe do trabalho, se você não tiver um dos dois ficará a mercê do ótimo sistema de transporte público brasileiro.

Mas não se engane, essa equação não entra nos cálculos de quem baba por um carrão zero desses de comercial, independente de onde ele viva. Pelo menos não aqui no Brasil. Sabe por quê?

tweet

Direito de ir e vir

por Carlos Drummond de Andrade

Outro dia fui ao médico e ele me perguntou se eu ando bastante a pé. – Muito – respondi. – Pois então ande mais ainda.

O conselho é saudável, mas não sei como se possa andar com as calçadas e o leito das ruas cheios de veículos, sem uma beiradinha para o infortunado pedestre. Fomos definitivamente proscritos da cidade. E não temos para onde ir, pois o progresso chega ao interior, com seu cortejo de máquinas, desde o automóvel até a carreta, passando pela moto, a escavadeira, a britadeira e demais bichos mecânicos incumbidos de obstar o alegre movimento das pernas. Estava pensando na impraticabilidade da prescrição médica, e me pedir de volta o dinheiro da consulta, quando meus olhos se abriram à notícia de que vai ser criada a Associação de Pedestres do Rio de Janeiro, a exemplo da existente em São Paulo.

Aleluia! Se me dessem licença, gostaria de ser o primeiro associado inscrito, mas receio que, ao se instalar a entidade, não tenha condições de chegar à sede, pelas dificuldades do trânsito. Serei talvez associado telefônico ou postal, caso não me seja negado o direito de ir da minha residência até a agência de correio mais próxima.

A associação, dizem-me, editará uma cartilha do pedestre, que me habilite a desfrutar os direitos da minha condição. Talvez fosse judicioso editar simultaneamente a cartilha do motorizado, para que esta faça a revisão de conceitos até agora norteadores de seu comportamento. Assim, pelo menos reivindicaremos nossos direitos específicos brandindo cartilhas em lugar de palavrões ou argumentos baculinos. Vencerá quem melhor usar sua cartilha.

Apenas, temo que nós, pedestres, não tenhamos chance de tirar do bolso o folheto que será a nossa Bíblia, também pedestre, pois a experiência comprova que o motorizado não dá tempo para o confronto de princípios. Os princípios em geral são nossos, e a rua é deles, senão a cidade inteira.

Sou ainda forçado a meditar na precariedade de uma associação que, como todas as outras, reúne indivíduos e não santos de altar. A maioria esmagadora dos indivíduos, como se sabe, aspira a ser qualquer coisa além do que é. Falamos mal do carro ou do ônibus se ele ameaça atropelar-nos, mas bem que gostaríamos de ser donos de uma traquitana ou de uma empresa de transportes. Evidentemente, é diverso o ponto-de-vista de quem está dentro do veículo, com relação ao ponto de vista de quem está fora – e a propriedade cultiva seus valores éticos distintos.

Imagina se eu, segundo secretário da Associação, me cansar da posição inconfortável de pedestre e disputar o sorteio de um Chevette. E ganhar. Serei um traidor da classe ou apenas um fraco mental exausto de pleitear uma vaga de transeunte, sempre recusada?

O pedestre é, afinal, uma espécie que tende a desaparecer, se é que já não desapareceu de todo, e eu estou aqui briquitando nestas teclas sem me dar conta de que também sumi do mapa e sou apenas um fantasma do Segundo Reinado, que açambarcava o espaço infinito de um Brasil sem desenvolvimento, quando o único veículo era o cavalinho maneiro.

Já estava conformado com a etiqueta social de fantasma, quando leio que a Associação de Pedestres de São Paulo é constituída de arquitetos, engenheiros, economistas, pessoas indubitavelmente vivas e atuantes na vida brasileira de hoje, e que a futura entidade carioca vem sendo organizada por um sociólogo. Então, nem tudo está perdido, não sou o “revenant” que supunha ser, e devo admitir que ainda existem pedestres, por sinal qualificados, e dispostos a defender seus direitos, de maneira organizada e eficiente.

Fora de brincadeira: é criar e tocar pra frente, com ânimo e perseverança. Assim como as associações de moradores de bairro vão conseguindo formar uma consciência comunitária, sensibilizando as autoridades, pois se trata de uma força ascendente, capaz de exercer pressão e comprovar a eficácia do apelo coletivo, uma associação de pedestres, formando em comunhão de vistas com aquelas, cuidará daquilo que interessa a todo o complexo urbano e pede tratamento especial.

Vamos trabalhar pela afirmação (ou reafirmação) da existência do pedestre, a mais antiga qualificação humana do mundo. Da existência e dos direitos que lhe são próprios, tão simples, tão naturais, e que se condensam num só: o direito de andar, de ir e vir, previsto em todas as constituições… o mais humilde e o mais desprezado de todos os direitos do homem. Com licença: queremos passar.

(Jornal do Brasil, 9 de maio de 1982)

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