Cinco poetas completos na Internet

Meu amigo, a Internet não é só pra procurar putaria e coisas bizarras! Seja um bom aluno e faça a lição de casa da escola da vida.

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Eu queria a estrela da manhã

Estrela da Manhã  (Manuel Bandeira)

Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
      [comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

Minha língua morta

Minha língua está morrendo
Eu a sinto dentro de minha boca dormente
Pulsando e se contorcendo
Deixando minha voz a escorrer pelos lábios frouxamente

Embargando sutilmente minhas palavras
Diminuindo-me gradativamente o prazer do vinho
Ela agoniza enquanto, num ato burro de vingança
Prendo-a entre os dentes do siso

Por que minha língua morre tão jovem
Permitindo escaparem sem cerimônia
De uma vez todas as palavras
Que eu pretendia deitar ao mundo com tanta parcimônia?

Meu Deus, eu perco tanto com isso!
As canções, os hinos
As mulheres, e o vinho!

Minha língua põe em risco a minha certeza de uma velhice feliz

Na varanda

As estrelas dizem que pode acontecer!
Não, eu não sou astrólogo
Não tentei o futuro prever

Mas as estrelas me contaram
Apesar de astrônomo eu também não ser
Chamaram-me pra perto e sussurraram

Ficaram comovidas com meu olhar fixo
Perdoaram-me as ignorâncias de leigo
As estrelas, veja só, ficaram enternecidas comigo!

Numa noite clara como dia
Na varanda da casa de uma tia
A mais brilhante das estrelas
Nas minhas retinas sussurra

Ela há de ser sua… Ela há de ser sua…

Sólida solidão

Sólida solidão
Solidão sólida
No silêncio encontra seu par perfeito
No vazio constrói seu mundo imenso

Sólida solidão
Solidão sórdida
Castigo dos não-adaptados
Dos distantes, dos exilados
Dos deixados

Sólida solidão
Sólida gigantesca
A anti-matéria da matéria
De que é feito meu coração.

Sereníssima

Sou um animal sentimental, me apego facilmente ao que desperta o meu desejo. Tente me obrigar a fazer o que não quero e você vai logo ver o que acontece. Acho que entendo o que você quiz me dizer, mas existem outras coisas.

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade. Tudo está perdido, mas existem possibilidades.

Tínhamos a idéia mas você mudou os planos. Tínhamos um plano, você mudou de idéia. Já passou, já passou – quem sabe outro dia.

Antes eu sonhava, agora já não durmo! Quando foi que competimos pela primeira vez? O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe. Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.

Não estou mais interessado no que sinto, não acredito em nada além do que duvido. Você espera respostas que eu não tenho mas não vou brigar por causa disso. Até penso duas vezes, se você quiser ficar…

Minha laranjeira verde,
porque está tão prateada?
Foi a lua dessa noite,
do sereno da madrugada

Tenho um sorriso bobo,
parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
com toda a calma do mundo