Mixando com fones de ouvido — O que usar e como fazer

Às vezes no homestudio é preciso trabalhar usando fones de ouvido (headphones), mesmo durante a mixagem. Então, qual fone deve ser usado e como obter melhores resultados?

Em algum momento, todos recorremos aos fones quando tentamos avaliar uma mix. Existem inúmeras ocasiões em que tal prática é necessária: trabalhando tarde da noite, quando usar monitores causa incomodo, ou mesmo gravando com equipamentos portáteis, o que torna impraticável o uso de amplificação. Pode ser que a sala de mixagem tenha acústica deficiente ou que não estejamos familiarizados com o equipamento de monitoração disponível, e não confiemos ou não podemos confiar no que ouvimos através dele. Também podemos estar gravando na mesma sala em que estamos monitorando e, novamente, alto-falantes devem ser evitados. Seja qual for a razão, trabalhar com fones de ouvido é uma prática comum. Neste artigo, vou versar um pouco sobre as técnicas que podem fazer o uso de fones mais confiável e produtivo.

Os prós e contras de mixar usando fones de ouvido

A primeira coisa a se dizer é que, de modo geral, monitorar com fones de ouvido é quase sempre apenas a “segunda melhor” opção. A grande maioria das gravações sonoras é destinada a ser ouvida via alto-falantes e isso é importante para entender esse fato. As diferenças simples de amplitude que codificamos no nosso sinal estéreo para fornecer informação de posição (usando o famoso botão de pan — panorama) criam uma impressão verossímil de posicionamento espacial apenas quando se faz uma audição através de um par de alto-falantes corretamente posicionados.

monitores
Ouvir com alto-falantes é diferente de ouvir com fones, não só porque cada canal não chega ao ouvido oposto, mas também porque há uma importante contribuição dada pelo som refletido que chega de diferentes ângulos.

O modo como nossos ouvidos interpretam os sons vindos dos alto-falantes é intrinsecamente muito diferente do que é interpretado dos sons de um par de fones de ouvido simples. Estereofonia é uma ilusão auditiva — assim como assistir 25 imagens estáticas por segundo em rápida sucessão cria a ilusão de movimento natural. Ao escutar um alto-falante, seu som direto chega em ambas as orelhas, e se ele estiver posicionado mais perto de um determinado lado (o alto-falante esquerdo, por exemplo) seu som chegará primeiro ao ouvido mais próximo. As diferenças fixas de tempo de chegada para cada orelha se combinam com as diferenças na variação de amplitude codificada entre os canais do áudio estéreo, e enganam nosso senso de audição levando-nos a perceber diferentes tempos de chegada para cada som reproduzido como vindos de direções distintas.

Ouvir com fones de ouvido funciona de um modo totalmente diferente. Nos fones, cada orelha ouve apenas o som de seu próprio fone — não há caminho natural em que o som do fone esquerdo chegue a orelha direita, por exemplo. Como resultado, as diferenças de amplitude definidas entre os canais esquerdo e direito não criam as diferenças de tempo de chegada necessários. A consequência é que a maioria de nós percebe os sons como vindos de dentro de nossas cabeças, espaçadas numa linha que vai de orelha a orelha.

Existem alguns sistemas que tentam contornar essa deficiência ao introduzir os efeitos de diafonia inerentes aos alto-falantes. No entanto, emular um ambiente de audição com alto-falantes é mais complexo do que simplesmente vazar um pouco de cada canal para o fone oposto. A diafonia precisa ter um atraso (delay) numa quantidade de tempo adequada e modelada espectralmente para refletir os artefatos acústicos naturais introduzidos quando o som passa pela cabeça humana. Essa combinação de processamento é muitas vezes referida como “funções de transferência relativas à cabeça” (head-related transfer functions ou HRTF), mas eu não tenho conhecimento de quaisquer exemplos comerciais que funcionem bem o suficiente para serem usados em mixagens precisas. Dito isto, o sofisticado processamento digital de sinais de convolução tem muito a oferecer nesse contexto, e ao menos um sistema experimental extremamente promissor vem sendo desenvolvido, como descrito no box “simulador de sala binaural”.

O resultado é que, se quisermos usar fones de ouvido para monitoração crítica, temos que aprender a interpretar o que se ouve através deles e relacionar isso aos efeitos obtidos por alto-falantes convencionais.

Mixagem surround em fones de ouvido: Desenvolvendo um simulador de sala binaural

Se mixar estéreo em fones de ouvido é suficientemente difícil, como poderemos então desejar uma mixagem surround? Bem, há uma solução mas atualmente é impraticavelmente cara e continua sendo um projeto em desenvolvimento. O German Research Institute, o IRT e a Studer codesenvolveram um simulador de sala binaural (BRS). Essencialmente, um par de fones de ouvido estéreo muito precisos equipado com um sensor de posicionamento que informa ao equipamento o que o operador está “vendo”. Este é um dos elementos mais caros do sistema atualmente, mas é crucial para sua eficácia.

O sistema envolve dois estágios separados — fase de programação e fase de reprodução. Na fase de programação, um sistema de microfones binaural em formato de cabeça (como o Neumann KU100) é colocado na posição ideal de audição de uma sala de monitoramento real. Sinais de impulsos de teste especiais são reproduzidos nos alto-falantes um de cada vez e os sinais captados pelos dois microfones das orelhas da cabeça são armazenados para análise posterior. Esse processo é repetido com a cabeça sendo rotacionada cerca de cinco graus por vez, num total de mais ou menos 45 graus. Os dados armazenados são então traduzidos para diagramas de convolução altamente detalhados, mostrando como a sala de monitoramento específica reage para cada canal de som surround.

A fase de reprodução utiliza esses dados de convolução para processar cada um dos sinais de entrada do canal surround para gerar o campo de som estéreo binaural correspondente, e todos os campos de som binaural de cada canal são combinados antes de serem reproduzidos nos fones estéreo. O sensor de posição nos fones de ouvido diz aos processadores de convolução qual determinado conjunto de dados utilizar, de modo que, conforme o usuário move sua cabeça, os dados de convolução correspondentes são aplicados, e o som percebido permanece estacionário para o ouvinte, assim como seria na vida real. Embora isso tudo adicione uma quantidade enorme de complexidade extra ao sistema, é um requisito essencial para que a ilusão de ouvir um sistema de monitoração surround verdadeiro funcione de forma confiável.

A enorme quantidade de poder de processamento necessário para convoluir seis canais de áudio com precisão e definição suficientes para o monitoramento de alta qualidade, faz esse modelo demasiado caro para uma aplicação comercial viável atualmente, mas algumas unidades de teste foram construídas e eu fui sortudo em ter acesso a uma delas. Embora tenha sido possível identificar pequenos defeitos na qualidade de áudio do protótipo em que fiz o teste, sua capacidade de retratar um exemplo totalmente crível e estável de som surround foi incrível e claramente esta técnica tem muito a oferecer nos próximos anos.

Parece que seu mais recente teste prático foi a transmissão do concerto do Dia de Ano Novo de Viena no início deste ano. A emissora estatal ORF, decidiu lançar um novo serviço de transmissão de som surround com este evento. Como a sala de controle de som do seu caminhão Outside Broadcast era pequena demais para criar um monitoramento de som surround adequado, o engenheiro de mixagem obteve sucesso ao utilizar o sistema Studer BRS experimental durante os ensaios para estabelecer a mixagem em surround.

Esta é certamente uma tecnologia a ser acompanhada. Como o custo do processamento digital de sinais continua a cair, ela vai tornar-se brevemente uma tendência comercial mais viável, seja para aplicações de som estéreo ou surround. Quando isso acontecer, o monitoramento com fones repentinamente se tornará muito mais preciso e confiável do que através de alto-falantes convencionais, para aqueles de nós que dependem de salas de monitoramento com acústica imperfeita. Afinal de contas, o sistema pode ser programado com dados convolucionais recolhidos a partir de uma ou mais das melhores salas de monitoramento de estúdio do planeta, que todos poderíamos compartilhar então no conforto de nossos estúdios caseiros!

Diferenças entre fones de ouvido e monitores

A diferença mais óbvia entre monitoramento via fones de ouvido e alto-falantes é a impressão de posicionamento estéreo, assumindo o uso convencional de técnicas de diferença de amplitude via pan. Se usarmos um dos sistemas mais complexos que envolvem diferenças de tempo de chegada e até mesmo HRTF (algo que só é praticável em alguns consoles digitais high-end), então a imagem sonora será traduzida mais facilmente. No geral, porém, quando se ouve via fones, a imagem espacial percebida fica espalhada ao longo de uma linha entre as orelhas, dentro da cabeça. Nós todos nos acostumamos facilmente com isso, mas o verdadeiro problema é que a linearidade das proporções de panorama sonoro é bastante diferente daquela experimentada em alto-falantes. Não há jeito simples de se adaptar a esta outra que não através de experiência construída.

Regulagens de pan são particularmente muito difíceis de se julgar usando fones de ouvido, por isso é importante comparar as suas percepções nos fones com o resultado nos alto-falantes, a fim de ganhar experiência.
Regulagens de pan são particularmente muito difíceis de se julgar usando fones de ouvido, por isso é importante comparar as suas percepções nos fones com o resultado nos alto-falantes, a fim de ganhar experiência.

É preciso um tempo considerável para ser capaz de se julgar valores de pan usando fones de ouvido. Não é impossível de se fazer, mas é muito difícil. Para ser honesto, eu acho que a maioria de nós provavelmente confia mais em nossos olhos quando a mixagem é feita usando fones, observando as posições dos botões de pan visualmente em vez de analisar com os ouvidos, como seria quando monitoramos em alto-falantes. Claro, pans extremos não são o problema — o “miolo” é que é vago e difícil de mesclar com precisão. Mesmo decidir sobre uma posição precisa no centro pode se mostrar difícil para algumas pessoas!

O truque é praticar primeiro com uma única pista (melhor usar um sinal mono com um amplo espectro de frequência) e comparar a posição que você percebe quando monitorando com fones de ouvido com a posição percebida em alto-falantes. Uma vez que você se acostume a forma como essas duas coisas se relacionam, então você pode relacioná-las com a característica de pan específica do mixer que você está usando — essas características variarão em diferentes equipamentos.

Outra grande diferença entre monitorar com fones de ouvido e alto-falantes é a forma como o cérebro processa a informação que recebe através das orelhas. Com o monitoramento dos alto-falantes, por ambas as orelhas ouvirem ambas as fontes, o cérebro processa a informação que recebe em conjunto e aplica uma espécie de máscara estéreo. Por sua vez, quando ouvindo com fones, o cérebro processa os dados de uma maneira completamente diferente, tratando as informações de cada orelha independentemente, desconstruindo a imagem estéreo. O resultado é que certos elementos e mudanças abruptas na mix, que podem ser inaudíveis quando ouvidas em alto-falantes, se tornam claramente nítidas em fones de ouvido. E às vezes o inverso também acontece.

Por fim, a ausência evidente de qualquer impacto físico (ou “vibração” para os mais refinados) dos sinais de baixa frequência pode criar a impressão de que falta alguma coisa no resultado da mix — e isso pode ser agravado pelas características bastantes estranhas das frequências graves em alguns fones de ouvido.

Usando fones de ouvido com segurança

Obviamente, ouvir sons altos durante longos períodos não é uma boa ideia porque dano auditivo é cumulativo e pode ser permanente. Para piorar a situação, quanto melhor o equipamento de monitoramento (em outras palavras, quanto menores os níveis de distorção), mais silencioso ele parece ser, e por isso é mais fácil terminar ouvindo em níveis perigosamente elevados. Com alto-falantes, mesmo os realmente bons, você tende a saber quando está ficando muito alto porque seus órgãos internos começam a vibrar a cada batida do bumbo, coisas começam a cair da mesa e os vizinhos chamam a polícia! Nenhum desses efeitos colaterais acontece quando se usa fones de ouvido, e até mesmo o sangue jorrando dos tímpanos rompidos fica escondido pelas almofadas dos fones! (Estou brincando. O sangue vai pingar, não jorrar…)

A Canford Audio não apenas vende uma variedade de diferentes modelos de limitadores para fones de ouvido, mas também oferece serviço de montagem de limitadores passivos tipo BBC para pares de fones individuais.
A Canford Audio não apenas vende uma variedade de diferentes modelos de limitadores para fones de ouvido, mas também oferece serviço de montagem de limitadores passivos tipo BBC para pares de fones individuais.

O ponto é que você precisa ter cuidado extra ao usar fones de ouvido. A fonte de som está muito próxima, você pode ficar tentado a ouvir em volume alto para minimizar o ruído ambiente e não vai sentir os efeitos físicos causados por níveis elevados de som, o que pode, por sua vez, inconscientemente incentivá-lo a elevar o nível ainda mais. Com o tipo de amplificação de saída de fones da maioria dos equipamentos atuais, combinado com o uso de fones de baixa impedância, é muito fácil gerar níveis perigosamente elevados.

Naturalmente um grau mínimo de bom senso é necessário, mas como a percepção humana é facilmente enganada, eu recomendo pausas de cinco ou dez minutos a cada meia hora ou menos para descansar as orelhas e reestabelecer um nível de referência sensata. Vá preparar uma xícara de chá ou tomar um ar fresco — o que for preciso para sair do estúdio por um tempo e deixar as orelhas se recuperarem. Se, quando você voltar, o volume dos fones parecer alto demais, tome isso como um sinal: você está exagerando e corre o risco de sofrer danos auditivos! Obviamente haverá momentos, especialmente se você estiver editando faixas de áudio, em que você precisará elevar o nível para perceber detalhes sutis. Apenas lembre-se de baixar o nível depois, tanto para obter uma apreciação realista da edição quanto para preservar sua audição.

Atualmente é cada vez mais comum nos círculos profissionais usar limitadores passivos em fones de ouvido para garantir que os níveis não excedam um volume pré-determinado (normalmente entre 85 dBA e 110 dBA, valores determinados pela quantidade de tempo que usuários podem ser expostos a altos níveis sonoros). A Canford Audio manufatura e instala esses dispositivos originalmente concebidos e implementados pela BBC. Você pode comprar alguns modelos de fones de ouvido com limitadores já instalados, incluindo o Beyerdynamic DT100s e o Sennheiser HD480s, ou pode fornecer seus próprios fones de ouvido para a Canford, que irá testá-los e selecionar, instalar e calibrar um dispositivo limitador adequado para eles. Recomendo totalmente estes dispositivos, embora a montagem do limitador pode ser tão cara quanto comprar fones de ouvido já equipados, e isso só é viável em uso comercial, onde se seguem regulamentos de saúde e segurança.

Escolhendo os fones de ouvido certos

Há diversos tipos de fones de ouvido, mas os dois principais usados em estúdios e salas de monitoramento são os do tipo circumaural fechado ou semiaberto. Estes termos referem-se ao tipo de montagem dos transdutores (nesse caso, é como são chamados os pequenos alto-falantes dos fones). Os fechados são os fones em que praticamente nenhum som escapa para o ambiente, da mesma forma que pouco do som externo penetra. Esse tipo de fone é a melhor escolha para salas de gravação, permitindo que os músicos ouçam o que está sendo tocando sem que vazamentos dos fones sejam captados pelos microfones.

Estes Sennheiser HD600s fornecem som de extrema qualidade em mixagens, mas o seu design semiaberto os torna inadequados em muitas tarefas de gravação em estúdio, e com seu cabo em forma de Y requer cuidado ao ser retirado da cabeça.
Estes Sennheiser HD600s fornecem som de extrema qualidade em mixagens, mas o seu design semiaberto os torna inadequados em muitas tarefas de gravação em estúdio, e com seu cabo em forma de Y requer cuidado ao ser retirado da cabeça.

Porém, até pouco tempo a maioria dos fones fechados soava muito triste — quadradões, maçantes ou embotados, e com falta de ar e ambiência. Isso não é realmente um problema em gravações ou sessões com outros músicos pois nesses casos só é necessário um retorno isolado, mas a tomada de decisões críticas de mixagem é quase impossível se a qualidade do som for pobre. No entanto, alguns dos designs mais modernos podem produzir um som bastante respeitável, e modelos dignos de consideração e de audição incluem AKG K271, Beyerdynamic DT150, Sennheiser HD250, e Sony MDR7506 e MDR7509. Os dois últimos modelos são particularmente impressionantes, muitas vezes eu uso os MDR7509s em mixagens.

Alternativamente, o design semiaberto tem tradição em oferecer a melhor qualidade sonora no monitoramento com fones de ouvido. A desvantagem é que esse tipo de fone vaza bastante som e também atenua pouco o som ambiente. Essas características podem ser um problema dependendo da circunstância. Para mixagem à noite, fones semiabertos podem ser perfeitamente aceitáveis, enquanto que para gravações provavelmente não serão. As melhores opções encontradas incluem AKG K240, Beyerdynamic DT990, Sennheiser HD600, e Ultrasone HFI2000. Eu confiei no onipresente K240s por muitos anos até substituí-lo pelo HD600, mas o modelo austríaco ainda tem muito a oferecer!

Sem nenhuma surpresa: quanto melhores os fones de ouvido, maior o preço. Para mixagens precisas eu sugeriria pares que custam cerca de £100 no Reino Unido, para o mínimo necessário em termos de qualidade, com os melhores modelos custando em torno de duas vezes esse valor. Enquanto alguns podem inicialmente hesitar com tal custo, na realidade, até mesmo £200 é trivial em comparação com um par de alto-falantes de estúdio decentes e um amplificador de definição equivalente.

Apesar de fones de ouvido fechados geralmente terem um som sofrível, o Sony MDR7509s apresenta uma reversão nessa tendência e pode ser uma boa escolha para mixagem. O cabo único saindo do fone esquerdo faz com que este modelo seja fácil de colocar e retirar, mas alguns usuários podem ter dificuldade e desconforto por causa de seu cabo espiral.
Apesar de fones de ouvido fechados geralmente terem um som sofrível, o Sony MDR7509s apresenta uma reversão nessa tendência e pode ser uma boa escolha para mixagem. O cabo único saindo do fone esquerdo faz com que este modelo seja fácil de colocar e retirar, mas alguns usuários podem ter dificuldade e desconforto por causa de seu cabo espiral.

Ao comprar fones de ouvido é fundamental ter em mente como eles devem ser confortáveis de usar. Quando estiver mixando, você irá usá-los por períodos de tempo consideráveis, por isso vale a pena se dar ao trabalho de experimentar os diversos modelos selecionados, por um período razoável de tempo, para obter uma verdadeira impressão de como será trabalhar com eles. Além disso, certifique-se de que eles se ajustam corretamente a sua cabeça. Que fiquem onde você colocá-los e não escorreguem quando você olhar para baixo. Também pode ser um problema caso sejam muito pesados ou apertem excessivamente as orelhas ou os lados da cabeça. Vale a pena procurar modelos que não esquentem e façam os ouvidos suarem, com almofadas substituíveis, uma grande vantagem para fins de limpeza.

Se você está investindo em fones de ouvido caros, verifique se peças de reposição podem ser obtidas facilmente, de modo a manter seu equipamento funcionando caso seja necessário. Fones são puxados pra lá e pra cá e caem da mesa com bastante frequência, alguma manutenção é de se esperar!

A confiabilidade do cabo e conectores é, obviamente, muito importante, embora as pessoas discordem sobre qual o tipo de cabo preferido. Alguns não gostam de cabos espiralados principalmente porque eles exercem uma tensão considerável sobre o fone de ouvido quando esticados, sendo também mais pesados do que os cabos lisos. No entanto, eu realmente prefiro este tipo, desde que seja longo o suficiente para permanecer encolhido durante o uso normal. Eu acho o trecho extra muito útil quando preciso me mover, para mim os cabos lisos sempre parecem perigosos de serem esticados!

Há também a escolha entre um com cabo que sai de apenas um dos fones ou um em formato Y. Eu prefiro fones de ouvido onde a conexão do cabo sai apenas de um lado puramente por conveniência prática. No entanto, há um argumento que diz que este pode ser tecnicamente inferior por causa da necessidade de um trecho de fio a mais passando sobre a cabeça até o fone do lado oposto. Em contraste, os modelos com cabo Y são mais suscetíveis a danos quando deslizam para trás da cabeça e sofrem tensão pelo peso do conjunto!

Táticas práticas de mixagem

Se você está investindo sério num par de fones para uso em mixagem, faz sentido optar por algo com um conjunto completo de peças de reposição. Afinal, fones de ouvido muitas vezes sofrem uma quantidade razoável de abusos no homestudio e você não vai querer ter que substituir todo o conjunto se apenas um único componente precisa de conserto.
Se você está investindo sério num par de fones para uso em mixagem, faz sentido optar por algo com um conjunto completo de peças de reposição. Afinal, fones de ouvido muitas vezes sofrem uma quantidade razoável de abusos no homestudio e você não vai querer ter que substituir todo o conjunto se apenas um único componente precisa de conserto.

Em termos práticos, o requisito mais óbvio para a mixagem em fones de ouvido é passar algum tempo se acostumando com os fones escolhidos, antes de mixar qualquer coisa pra valer. Ouça criticamente uma grande quantidade de material comercial. Acostume-se com o equilíbrio espectral dos diferentes fones de ouvido — muitos tendem a parecer um pouco mais brilhantes e agudos que alto-falantes convencionais — e aprenda a relacionar isso com o que você ouve nos alto-falantes. Descubra como os instrumentos de baixas frequências soam nos fones. Em particular, a forma como a frequência fundamental e os harmônicos se erguem e se equilibram com as frequências dos outros instrumentos. Tenha em mente que parte do impacto visceral e peso das baixas frequências experimentado com alto-falantes estará ausente, por isso é importante aprender a perceber a diferença.

Já que bons fones de ouvido muitas vezes têm níveis de distorção menores que de alto-falantes, você pode perceber detalhes em médio baixo com bem mais clareza do que com caixas de som modestas. Isso pode levá-lo erroneamente a mixar instrumentos de frequência média com menos presença do que eles precisam ter ou aplicar menos equalização do que faria de outra forma.

Mixar com fones de ouvido é um desafio. Eles são, de muitas formas, inerentemente inferiores aos monitores. No entanto, essas deficiências são muitas vezes deixadas de lado pela praticidade. Com treino é possível criar mixagens perfeitamente aceitáveis a partir de fones de ouvido, mas, assim como familiarizar-se com a sonoridade de um par de monitores desconhecido leva tempo e esforço, o monitoramento com fones é uma habilidade que, para ser adquirida, requer uma percepção diferente do que se ouve.

Hugh Robjohns, publicado em dezembro de 2003 no SOS.

A redescoberta de Atlântida

Ando ouvindo muito o disco novo do Daft Punk. De repente gosto de música eletrônica, ué!

Acabou que me deu ganas de experimentar. Usei de cobaia uma música clássica do Donovan, Atlantis, conhece? Pois fiz um remix dela acrescentando alguns elementos eletrônicos. E de quebra juntei tudo num vídeo-slide com as fotos de um artigo do Listverse sobre 10 mistérios subaquáticos.

Deu um trabalho do cão filtrar os vocais e recriar alguns instrumentos seguindo o compasso vacilante da faixa original. Não ficou uma maravilha mas até que melhorou o som original 😉 e aprendi algumas coisas no processo.

Aqui o remix no SoundCloud:

Aqui o vídeo:

E aqui o original:

She may be, Manolo, she may be…

Esses DJs bobos e seu novo disco fantastique

Ando ouvindo o novo disco do Daft Punk, aquela dupla de DJs francesa que ninguém sabe direito como é por debaixo dos capacetes.

Estou gostando bastante. É música eletrônica bem feita. Dançante mas daquelas que você não se sente estranho se escutar parado.

daftpunkrandom

Foi um lançamento bastante aguardado pelos fãs, depois de oito anos sem novidades. Todas as faixas têm uma influência forte do som dos anos 70 e 80. O resultado não é exatamente revolucionário porém é bem sólido e refinado, com uma pegada rock marcante.

Muito agradáveis, as faixas soam macias aos ouvidos, com bastante feeling e um astral longe de ser considerado artificial, coisa que não é fácil de se ver no meio eletrônico. Acho que vai agradar bastante gente.

É um engano pensar que são apenas dois DJs bobos com roupas excêntricas. Pelo que li, essa dupla tem bagagem, não são reles apertadores de botão, daí conseguirem essa mistura sofisticada de texturas sonoras que soa tão coesa. Não é a toa que a música One more time foi considerada a melhor música eletrônica de todos os tempos.

Ouvir esse disco me dá vontade de brincar mais com sintetizadores e fugir do lugar comum do rock tradicional. Fiz um experimento eletrônico que acabou numa música eletrônica bem louca e sombria. Queria fazer um som alto astral assim. Que inveja!

Você pode ouvir todas as faixas do disco novo da dupla de robôs misteriosa no iTunes gratuitamente por tempo limitado. Entretanto mas porém todavia, é claro que já está tudo no Grooveshark e é claro que montei uma playlist.

http://grooveshark.com/album/Random+Access+Memories/8814557

Interface de áudio Roland Tri-capture UA 33 – um review

Todo o disco do supercaras foi gravado usando uma placa de som Creative Sound Blaster Audigy, uma placa básica e barata que obviamente possui limitações, mas boa o suficiente para servir ao propósito na época. Infelizmente essa placa não possui compatibilidade total com o Windows 8, que é o sistema operacional que uso atualmente, então me vi obrigado a procurar uma solução mais atual.

Depois de muito pesquisar e contar minhas moedas, cheguei ao modelo cujo review apresento abaixo.

roland-tri-capture-01

Uma interface de áudio externa ao invés de uma placa PCI

Existem excelentes sistemas profissionais de captura de som que usam placas PCI mas, se pensarmos em uso amador e doméstico, um modulo externo que se conecta via USB oferece a vantagem de uma vida útil maior, mais versátil e portátil, podendo ser usada em mais de um PC ou laptop.

Dentre as várias opções de interfaces Roland, a UA-33 fica num meio termo entre as básicas e os modelos top. Ela possui três tipos de entrada de sinal:

  • 1 entrada XLR de microfone (comum ou dos que usam alimentação de 48 volts);
  • 1 entrada P10 para guitarras e similares (com opção de impedância baixa ou alta);
  • 1 par RCA para entrada estéreo auxiliar (para linha de outros equipamentos como, por exemplo, um mixer).

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Também é interessante notar as opções de monitoração: uma saída par P10 balanceada e outra para fones de ouvido.

O diferencial desse modelo é o formato mesa e a presença de controles independentes de sinal, ou seja, botões de volume para cada entrada, o que torna seu uso muito indicado para streamings e podcasts. Se você quer montar uma webrádio, esse brinquedo é uma mão na roda.

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No painel estão quatro knobs: três para as entradas de sinal e um para o volume dos fones. Acima do knob de microfone fica o botão que liga o Phantom Power, fornecendo 48 volts para microfones condensadores. É importante cuidar para não ligar essa função quando se está usando um microfone dinâmico comum.

Há um botão para escolher entre três modos de uso (que descrevo logo abaixo), um para desligar a saída de monitor e outro para mutar as três entradas.

Acima do knob de instrumentos (guitarras, violões etc) fica o botão que muda a impedância dessa entrada. O manual não conta isso, mas no caso de guitarras, baixos ou violões elétricos com captação ativa, o botão Hi-Z deve ficar desligado.

Sonar, um soft profissional pra chamar de seu

O disco do supercaras foi gravado e mixado usando o software Cakewalk Sonar. E olha só que bacana: assim como todas as outras interfaces da Roland, a UA-33 vem com o excelente Sonar X1 LE para Windows. O custo benefício é considerável posto que o software sozinho custa cerca de 50 dólares. Acrescentando alguns bons plugins freewares é possível obter resultados profissionais sem gastar mais nada.

Modos de uso

A interface oferece três sets de modo de gravação próprios para determinados usos:

  • Mic/Guitar – grava usando o canal esquerdo para a entrada 1 e o canal direito para a entrada 2. O sinal da entrada 3 não é monitorado ou gravado e o do computador é monitorado mas não gravado. É o set básico para começar um projeto qualquer no Sonar.
  • All Input – mixa as entradas 1, 2 e 3 no centro do panorama estéreo. Nada deve ser ligado as entradas 1 e 2 se for o caso de gravar apenas o que vem pela entrada 3. Nessa configuração o áudio executado pelo computador não é gravado. Esse é o set correto para capturar o som estéreo de uma pickup, mixer, teclado, fazer karaokê, treinar solos etc. Lembrando que a faixa gravada pelo Sonar não será separada em dois canais mas sim uma única em estéreo.
  • Loop Back – a mesma coisa que a opção All Input porém incluindo o som executado no computador. Esse set não funciona caso o modulo esteja regulado para trabalhar com sample rate em 96kHz. É o set ideal para webradios, streaming ou captura de áudio da Internet.

Full duplex, sample rate e qualidade de áudio

Em se tratando de placas de áudio, full duplex é a capacidade que elas tem de processar a entrada e a saída simultaneamente num determinado sample rate (taxa de amostragem), que por sua vez é a amplitude de frequência padrão do áudio digital. A maior parte das placas é capaz de reproduzir o som com um sample rate suficientemente alto, porém quando se exige isso simultaneamente a uma gravação, as coisas se complicam e não são todas que oferecem um bom resultado.

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No processamento de áudio profissional, um sample rate alto na gravação e na reprodução é algo importante. Essa interface da Roland oferece até 96kHz mas não em fullduplex, ou seja, é possível reproduzir ou gravar com esse sample rate mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Em termos simples: usando 96kHz você grava sem retorno ou reproduz apenas o que já está gravado. A melhor opção acaba sendo mesmo regular para 48kHz.

O ponto negativo fica justamente no modo como essa regulagem é escolhida. Ao invés de ser via software, ela é feita via clipware ou pontadecanetaware, por dois seletores de difícil acesso na parte de baixo do aparelho. Num deles você escolhe entre 44.1, 48 ou 96 kHz, sendo que neste último surge a necessidade de escolher entre Rec ou Play no seletor ao lado.

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Tirando esses pequenos detalhes, a interface tem seu charme e uma boa relação custo/benefício, sendo eficiente para uso não muito exigente e oferecendo resultado satisfatório.

Concluindo, deixo um teste prático.

Fiz um vídeo usando essa interface e gostei bastante do produto final. Captei o som com um microfone Leson SM58 velho de guerra, violão eletrificado ligado na entrada 2. Tudo gravado e mixado no Sonar X1. Áudio sincronizado com o vídeo usando o indefectível Windows Movie Maker. Veja aí e dê um joinha se gostar!

Fiz essa canção só pra você

Se você leu o livro 1984, talvez se lembre da parte em que ele fala sobre como era produzida toda a arte naquele mundo distópico. Se não, veja:

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Well, hoje eu recebi um email dos meus amigos da Cakewalk com uma oferta tentadora. Um descontão num software que faz de qualquer um um letrista de mão cheia.

MasterWriter-Exclusive-Offer

Sou a favor da tecnologia aplicada na arte e tal, mas poxa vida, isso é meio pesado. O programa transforma o ato de compor uma letra de música numa tarefa lógica, precisa e metódica de uma maneira absurdamente robótica. Se você estiver com tempo, assista lá o vídeo de demonstração.

Não chega a ser um versificador mas passa perto. Excelente ferramenta para quando falta inspiração e o prazo tá vencendo.

Os tempos de hoje: não precisa ser músico para fazer música, existem milhares de softwares esperando apenas mãos habilidosas nos botões. Batida, melodias, tudo na ponta dos dedos. E basta cantar não muito fora do tom e com algum ritmo, pois conserta-se depois com os autotunes da vida. Agora a letra, que não precisa mais de impulso criativo pra ganhar forma e sentido.

Não sei se os músicos entraram em extinção ou é apenas uma metamorfose. O que você acha?

— It’s business, stupid!

Que saudade das quatro pistas que eu nunca mixei ou evitava mixar, Paul my friend.

A propósito, se você curte o processo de criação musical, assista Chaos & Creation.

Top 50 melhores músicas eletrônicas de todos os tempos

Psicodelia.org publicou a lista das cinquenta melhores músicas eletrônicas de todos os tempos escolhidas por votação pelo pessoal da Mixmag e um link para um playlist feito pelo Ivo Neuman no 4Me.fm, algumas com os respectivos clipes.

Como sou analfabeto em música eletrônica, fiquei curioso em ouvir essas faixas. Porém eu prefiro usar o Grooveshark, então fui à procura de um playlist lá. Não encontrei e resolvi montar um. Vamos ouvir?

http://grooveshark.com/widget.swf

Música e eu

Não acredito que as pessoas nasçam com um dom ou talento, acredito mais em afinidade, facilidade. Porém, como isso funciona, eu não sei bem.

Creio que o meio influencia o desenvolvimento artistico. Veja, filhos de músicos, mesmo não seguindo a carreira dos pais, acabam envolvidos com arte. Um bom exemplo é a cantora Fiona Apple, que vem de uma família de artistas e começou a ter aulas de piano aos 4 anos de idade, além de cantar desde que se entende por gente. Aos 12 anos, Fiona foi vítima de um estupro. Aos 17 lançou-se profissionalmente e já tem um Grammy. Seu sucesso continua, enquanto canta suas feridas incicatrizáveis.

Por outro lado, num outro exemplo, temos Ray Charles, considerado o primeiro entre os melhores artistas de todos os tempos. Charles teve uma infância pobre e traumática, e encontrou na música uma oportunidade e um alento para sua cegueira. Poderiamos também falar de Michael Jackson e seu inacreditável pai, que deveria estar preso e não por aí, mas… enfim. Tudo isso soa parecido com a alegoria da pérola e da ostra, não é?

Eu, por mais parecido que seja com uma ostra, nunca tive histórias tristes para contar ou demônios para espantar. Minha vida sempre foi medíocre, para o bem e para o mal, de maneira que nada me impulsionou a ponto de criar alguma jóia.

Minha relação com a música sempre foi um desencontro intermitente.

Começou quando eu tinha uns 12 anos e, não sei bem porquê, me inscrevi no conservatório municipal. Não lembro direito, me recordo apenas da primeira reunião, que consistia numa palestra de um maestro. Tudo começaria a partir do próximo encontro. Encontro esse em que não fui.

Lembro claramente: eu estava deitado no sofá, com a cabeça no colo da minha mãe, vendo TV. De repente me deu um estalo e vi que eram sete horas da noite. Me ergui e falei algo do tipo “Nossa, esqueci de ir lá naquela reunião!”. Minha mãe disse pra eu correr, que eu não chegaria tão atrasado, pois o conservatório não era longe. A preguiça ou a vergonha foi maior que a vontade e eu simplesmente deixei pra lá.

Andei deixando pra lá desde então, apesar de a música sempre ter estado presente na minha vida. Meu irmão, como técnico de eletrônica, sempre esteve cercado de amplificadores, caixas e aparelhos de som. E eu sempre por ali, curioso.

Fui me envolver mais profundamente com música quando conheci meu amigo Chico, que tinha uma guitarra verde muito feia, mas que na época eu achava impressionante. Eu comprei um violão e daí aprendemos juntos, meio que um ensinando o outro. Fundamos uma autêntica banda de rock de garagem em 1992 e daí pra frente perdemos muito tempo brincando de cantar e tocar.

Em síntese, nunca conseguimos chegar a lugar nenhum. Também nunca conseguimos manter um baterista fixo por muito tempo, coisa que nos atrasou bastante, talvez mais do que o fato de termos demorado pra botar fé nas letras que nós mesmos escrevíamos. Enquanto sonhávamos mais do que agíamos, veio o tempo e trouxe outros interesses e ocupações, e coisas mais importantes como “o que farei pelo resto da minha vida?”.

Em 2008 resolvemos tentar pela última vez, seja  lá o que isso queira dizer, e gravamos algumas músicas. Foi aí que inventamos o supercaras. E foi mais uma banda que acabou mal tendo começado. Mas conseguimos algo concreto, mesmo que cronicamente inacabado, que são essas 14 músicas disponíveis na rede. Todo o processo de gravação foi ao mesmo tempo um grande barato e uma catarse, e fechou um ciclo de nossas vidas.

As vezes eu me ponho a tentar entender por quê não me tornei um músico profissional. Não tenho resposta que não envolva me acusar de vários crimes. A única resposta que posso oferecer socialmente é esse verso pseudo poético: a música e eu nos desencontramos, eu cheguei atrasado e ela adiantada, perdemos o compasso.

Ser competente e, consequentemente, bem sucedido em algo geralmente sinaliza uma busca instintiva e incansável para preencher certos espaços vazios na alma. Nesse sentido, não tenho mesmo nenhum talento musical. No fim, talvez eu seja alguém que preenche seus espaços vazios usando um pouquinho de tudo. Naquilo tudo que faço como simples amador e curioso, naquilo que me distrái por algum tempo e logo fica em segundo plano quando surge uma novidade. Mas a música sempre esteve por aqui, fora de sincronia, mas perto.