Libertação animal for dummies

Vamos imaginar que em outra galáxia (muito, muito distante) há um pequeno planeta com vida. Nesse mundo hipotético, vamos imaginar que existam apenas duas espécies de animais, os UPs e os Dows.

Imagine que essas duas espécies são bem diferentes. Os UPs são todos fisicamente parecidos, extremamente inteligentes e racionais. Os Dows variam em tamanho, de minúsculos a gigantes, todos com características bastante distintas e mais guiados por instintos primitivos que por inteligência racional. Os Dows são, obviamente, inferiores e incapazes comparados aos UPs.

Os UPs, durante toda a história daquele mundo imaginário, dominaram e subjugaram a natureza a sua volta, incluindo os Dows, e construíram toda a sua civilização baseada em seu uso como alimento, matéria prima para utensílios, combustível etc. Os UPs não teriam chegado no seu atual nível de desenvolvimento não fosse por esse recurso tão abundante na natureza.

Como seres altamente desenvolvidos, os UPs eram capazes de feitos incríveis e evoluíram rapidamente, criando uma tecnologia avançada e uma riqueza cultural única. Apesar de também fazerem parte da natureza daquele planeta imaginário, os UPs sempre se consideraram diferentes e escolhidos por uma consciência superior, destinados a um lugar especial no cosmos.

Numa dado momento da história da civilização UP, alguns indivíduos começaram a criar Dows dentro de suas casas sem outra razão além de ter uma companhia. No começo apenas os Dows com melhor aparência tiveram esse privilégio mas, conforme o hábito se espalhou por entre os UPs, até mesmo os mais feios e estranhos Dows conquistaram alguma simpatia.

Numa época em que toda a natureza do planeta começou a apresentar os resultados de milênios de exploração incessante, com ar, rios e plantas tornando-se inutilizáveis, incluindo a extinção de muitos tipos de Dows, os estudiosos e cientistas UPs fizeram pesquisas e apresentaram resultados que surpreenderam a todos.

Eles concluíram que alguns hábitos antigos estavam afetando o planeta de forma perigosamente negativa. Entre esses hábitos estava o de usar os Dows para os mais diversos tipos de fins. Alertaram que, se determinadas atitudes não fossem tomadas, a continuidade da espécie UP poderia ser prejudicada. Além disso, também concluíram que os Dows não eram tão inferiores como se acreditava e mais parecidos com os UPs do que se imaginava.

Nesse planetinha impossível, os relatórios dos cientistas não tiveram um grande impacto social imediato. No entanto, algumas mudanças começaram a ocorrer.

O número de UPs que se abstinha de alimentar-se de Dows, que sempre fora muito baixo, começou a aumentar, assim como o número daqueles que preferiam não usar nada que tivesse sido feito a partir de um Dow.

Alguns começaram a questionar a necessidade de matar Dows e a criticar os UPs que amavam alguns deles ao mesmo tempo em que usavam e comiam outros.

Eles alegavam que o atual estado tecnológico da civilização UP dispensava a necessidade de usar Dows. Esses UPs radicais acreditavam que todos, tanto UPs como Dows, tinham o direito de viver suas vidas sem serem explorados, usados como alimento ou brinquedo e que nenhum ser vivo com sistema nervoso, consciente ou sensciente, deveria ser escravizado por outro.

Afirmavam que os UPs, apesar de terem o poder de subjugarem os Dows, nunca tiveram esse direito e, agora que esse fato havia sido reconhecido, era chegado o momento de libertar os Dows da escravidão.

Esses UPs diferentes começaram a interferir no status quo, quebrando as leis ou lutando por mudá-las, interferindo e prejudicando o negócio de empresas que usavam Dows e tentando mostrar para outros UPs como os Dows vinham sendo maltratados desnecessariamente. Alguns invadiam instalações para libertar Dows aprisionados.

Tudo isso acabava por causar grande comoção pública e deixava confusos os UPs acostumados a levar a vida sob velhas tradições.

E foi assim que grandes mudanças começaram a acontecer naquele mundo imaginário e absurdamente distante, onde os peculiares UPs tentavam se entender entre si e manter o controle do destino de sua espécie. Mesmo com tantas discórdias, todos eles acreditavam que era importante prosseguir no caminho rumo as infinitas possibilidades da evolução.

A liberdade é verde e o céu é azul

beagle puppy

“Liberdade é liberdade, não é igualdade, ou equidade, ou justiça, ou cultura, ou felicidade humana, ou uma consciência tranquila.” — Isaiah Berlin

Difícil encontrar quem não goste de cães. O comum é ter medo de algumas raças, como Pitbull e Rottweiler, mas não gostar é coisa bem rara. Cães são animais sociais e tem suas vidas pautadas pelo relacionamento com os humanos. São o símbolo máximo de fidelidade e companheirismo. É talvez a parceria de maior sucesso entre homem e animal.

Hoje temos um fenômeno social muito comum que é tratar de cães como se fossem filhos. Inclusive os produtos e serviços para animais de companhia estão no auge. Eu fiquei perplexo recentemente ao descobrir que existe até refrigerante pra cachorro.

Por outro lado…

Essa semana, recebi o link de um vídeo mostrando a primeira vez que alguns cães da raça beagle sairam das gaiolas ondem viviam e tomaram contato com o nosso maravilhoso mundo. Eles foram libertados após a falência do laboratório de pesquisas onde eram cobaias.

Nunca viram a luz do sol e nunca pisaram a grama desde que nasceram.

Segundo a Wikipedia, Beagles são cães inteligentes, de boa compleição, têm bom temperamento e todas as demais características que o fazem uma ótima opção como mascote e também a raça canina perfeita para testes laboratoriais.

Eis o fato: Beagles são populares entre laboratórios de pesquisa por serem dóceis, amigáveis, baratos de se manter, adaptarem-se bem a vida em gaiolas e perdoarem com facilidade.

O vídeo é bonito e viralizou. Toda a ação foi gravada e realizada pelos membros da Beagle Freedom Project, uma ONG estadunidense dedicada especificamente a dar apoio a cães dessa raça que, por algum motivo, recebem carta de au-au-forria (não pude evitar, perdoe) de laboratórios onde estão confinados.

Essa não é uma daquelas ONGs de desocupados que, na falta de louça pra lavar, resolvem sair por aí barbarizando pobres empresas e laboratórios inocentes. Ela faz sua parte ajudando esses cães a terem uma vida melhor daí pra frente, tudo de maneira legal e ordeira, como todos gostamos.

São cães que não aprenderam a ser cães. Mal sabem andar, desconfiam da grama que nunca pisaram. Talvez nunca superem as sequelas da vida que levavam.

Veja o vídeo aqui:

Difícil não ficar tocado ao assistir isso. Ver um ser vivo feito para correr tendo contado com o mundo pela primeira vez depois de anos é impressionante.

Mais impressionante ainda é saber que esses animais tão meigos eram (e tantos ainda são) usados como cobaias para testes de produtos alimentícios, cosméticos, de higiene, limpeza etc.

Mesmo deixando de lado o fato de serem prisioneiros sem culpa, de viverem vidas podadas e miseráveis, os testes realizados podem ser bem cruéis. A ciência avança, mas a que preço?

Tanto pessoas fora do meio acadêmico quanto cientistas, principalmente em se tratando da vivisecção mas não só, estão divididos em três grupos, dois grandes e um bem pequeno: os que validam o uso, os que defendem uma racionalização do uso (redução, refinamento e eventual substituição) e os que lutam pela abolição imediata e irrestrita.

Em que grupo você está?

A grande maioria das pessoas não pára pra pensar nisso. Essa falta de esclarecimento e ignorância principalmente sobre o que é consumo consciente acabam financiando essa merda todo esse sistema.

Um sistema bizarro em que você compra para seu cão produtos que foram testados cruelmente em outros cães. Parece que caímos naquela: todos os beagles são iguais mas alguns são mais iguais que outros.

Se você nunca pensou nisso e quiser ver o outro lado, assista o vídeo abaixo. Ou não assista. A escolha é sua, sabendo ou não o que está em jogo. Não querer saber é também um direito, afinal somos livres, não é?

http://www.youtube.com/watch?v=88kMJXphN0k

Para algo mais completo, assista o documentário: “Não matarás – Os animais e os homens nos bastidores da ciência”.

Free

easyrider

— Todos viraram covardes. É isso. Eles tem medo.

— Eles não tem medo de vocês, mas sim do que vocês representam.

— Cara, para eles, só representamos alguém que devia cortar o cabelo!

– Não. Para eles, vocês representam a liberdade.

— E o que há de errado com a liberdade? É legal falar sobre ela.

— É verdade, é legal mesmo, mas falar sobre ela e vive-la, são duas coisas bem diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado, mas nunca diga a uma pessoa que ela não é livre, porque ela vai tratar de matar e aleijar para provar para você que ela é. Todos falam sem parar em liberdade individual, mas quando veem um indivíduo livre, ficam com medo.

— Eu não ponho ninguém para correr de medo.

— Não. Você é que corre perigo.

(diálogo do filme Easy Rider. Chupei daqui: http://herfilho.blogspot.com/2010/06/easy-rider.html)

Uma nota sobre o cretinismo “internético”

Tornou-se lugar comum crer que a Internet é o âmbito por excelência da liberdade em nosso tempo. Muitíssima gente, e não poucos teóricos, sustentam que se trata de um espaço libérrimo, no qual as antigas restrições que o papel impresso impunha à produção e circulação das ideias ficaram definitivamente superadas. Basta ler algumas passagens do livro de Hardt e Negri, Império; ou os três tomos de Manuel Castells, A Idade da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, para apreciar a profundidade e as ramificações desta crença. Dizem os primeiros, numa passagem memorável – e não precisamente pelo acerto – de sua obra, que “a rede democrática é um modelo completamente horizontal e desterritorializado. A Internet (…) é o principal exemplo desta estrutura democrática em rede. (…) Um número indeterminado e potencialmente ilimitado de nós interconectados que se comunicam entre si sem que haja um ponto central de controle. (…) Este modelo democrático é o que Deleuze e Guattari chamaram um rizoma, uma estrutura em rede não hierárquica e sem um centro.” (pp. 277-278)