Muito além do hábito

Não comas alhos nem cebolas, para que o hálito não denuncie a vilania dos teus hábitos; (…) Janta pouco e ceia menos, que a saúde de todo o corpo se forja na oficina do estômago. Sê moderado no beber, considerando que o vinho em excesso, nem guarda segredos, nem cumpre promessas. Toma cuidado em não comer a dois carrilhos, e a não eructar diante de ninguém.
— Isso de eructar, é que eu não entendo — interrompeu Sancho.
— Eructar, Sancho, quer dizer arrotar, e este é um dos vocábulos mais torpes que tem a nossa língua, apesar de ser muito significativo, e então a gente delicada apelou para o latim, e ao arrotar chama eructar; e ainda que alguns não entendam estes termos, pouco importa, que o uso os irá introduzindo com o tempo, de forma que facilmente se compreendam; e isto é enriquecer a língua, sobre a qual têm poder o vulgo e o uso.
— Em verdade Senhor — disse Sancho –, um dos conselhos que hei de levar bem de memória é o de não arrotar, por ser uma coisa que faço muito a miúdo.
— Eructar, Sancho, e não arrotar — observou D. Quixote.
— Pois seja eructar, e assim direi daqui por diante.

(Trecho do livro Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes)

É consenso entre os pediatras que a obesidade infantil é uma pandemia. O Brasil também começa a sentir o impacto: 33,5% das crianças entre 5 e 9 anos estão com sobrepeso, segundo dados do IBGE. Os efeitos já são terríveis hoje, e a longo prazo serão devastadores se nada for feito.

Exagero? Uma criança de 9 anos com doenças de adulto de meia idade é que é um exagero!

A responsabilidade dos pais obviamente é enorme, mas absolutamente todos estão envolvidos quando o assunto é construir o futuro, do professor ao presidente. Por mais que os pais sejam bons exemplos e bons mestres, criar um filho é travar uma queda de braço com o mundo.

No excelente documentário Muito Além do Peso temos um panorama atual sobre a saúde das crianças brasileiras. De quebra um vislumbre do futuro que estamos construindo naquilo que escolhemos por em suas bocas no café da manhã, almoço e jantar de hoje.

O filme nos faz repensar não só os hábitos que estamos plantando nos pequenos mas também os nossos.

Sei que nem todos se animam a assistir documentários em geral, então pra tentar abrir seu apetite (hehe) e talvez despertar seu interesse em assistir esse em especial, veja essa entrevista divertida com os produtores do filme no programa Agora é Tarde com Danilo Gentili.

Achou interessante? Então assista o documentário na íntegra logo abaixo.

MUITO ALÉM DO PESO from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

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O futuro é estranho e maravilhoso

Faz mais de dois anos que parei de fumar. Eu estava dando a guerra por vencida quando de uma hora pra outra voltei a sofrer picos de fissura. Meu organismo está livre de qualquer resquício de vício, então qual a razão disso? Estou puto e realmente com um medo, pequeno mas real, de cair em tentação. Caí!

Desde que fumei o último cigarro no final de 2009 nunca havia posto outro na boca, nem de brincadeira. Mas já que uma força maior parece me conduzir, talvez eu possa fazer isso sem culpa, com ajuda da tecnologia. Afinal de contas, estamos ou não no futuro? Calma, eu explico.

Estava eu de bobeira no Deal Extreme, entediado procurando algo legalzinho e barato pra tentar a sorte na alfândega, quando inesperadamente topei com isso:

Levei um belo susto! A primeira vez em que botei os olhos nesses cigarros elétricos eletrônicos, anos atrás, eu gargalhei enquanto soltava uma baforada do bom e velho Marlboro. Essas coisas eram caras e bizarras. Mas agora que o futuro chegou, eles são baratos, dude! Daí eu pensei: por que não?

Senhoras e senhores, o cigarro eletrônico

Fato é que enquanto eu me acabava no alcatrão dos cigarros tradicionais, todo um universo de cigarros eletrônicos e métodos modernos de fumar se desenvolveu. Existem n modelos de n fabricantes, venda permitida em boa parte dos EUA e Europa, fóruns de entusiastas, gente famosa usando. É a nova coqueluche! Até mesmo Charlie Sheen na sua malandragem está ganhando uma graninha com seu NicoSheen!

A Wikipédia tem um verbete bem completo sobre o cigarro eletrônico. Se você quiser saber mais e como funciona, leia isso aqui. Ele foi patenteado em 1965 por Herbert A. Gilbert, mas somente em 2003, ao ser novamente inventado, dessa vez por um chinês de nome Hon Lik é que finalmente a tecnologia tornou o invento viável e a ideia saiu do papel.

Infelizmente (ou felizmente, se você for um grande fabricante ou exportador de tabaco e cigarros), a ANVISA proibiu indefinidamente a comercialização desse tipo de produto no país com a publicação da Resolução número 46, de 28/08/2009, de modo que só dá pra comprar via Internet, quebrando as leis e sendo feio e bobo. Quer dizer, manter autorização para que a venda de drogas que comprovadamente matam está tudo bem, mas vender algo que possa substituir essas e talvez faça mal… nem pensar! É isso mesmo, Arnaldo?

Simulacro e simulação

A verdade é uma só: o que temos aqui é um aparelhinho barato e que bate de frente com o cigarro normal ao simulá-lo perfeitamente, só que sem toda a parte desagradável e prejudicial a saúde, além de ser capaz de criar vapor com nicotina, que é o que interessa para todos que fumam. Como nenhuma indústria de tabaco quer ver seus clientes migrando de mercado, vivemos num período de luta contra a aceitação e legalização desse invento incrível. Claro que nem tudo são flores, existem controvérsias sérias.

Caso você tenha ficado interessado e queira saber mais, aconselho esse fórum.

Só sei que, se tudo der certo e a encomenda não enroscar na fronteira, em breve estarei aqui passando vergonha fumando um cigarro falso. E é claro que farei um review 😉

Os ciclos do conhecimento

As pessoas em geral têm dificuldade de perceber o mundo como um lugar onde quase tudo é cíclico. Nasce-se e morre-se enquanto as coisas meio que se repetem sem que tomemos consciência.

Não há nada de novo debaixo do sol e, ao mesmo tempo, tudo se renova. Pra você ver o quanto isso vai longe, veja:

Nossa juventude adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus.
Sócrates, 470-399 AC

Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje assumir o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.
Hesíodo, 720 AC

Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não deve estar muito longe.
Sacerdote desconhecido, 2000 AC

Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.
Escrita em um vaso de argila de 4000 anos descoberto nas ruínas da Babilônia, atual Bagdá

Essas constatações e lamentos soam extremamente pertinentes e atuais e, no entanto, o mais recente é de 2600 anos atrás. Todos são de outros tempos, de culturas e sociedades diferentes. A desconfiança com o novo e a supervalorização do velho está aí desde que o mundo é mundo.

Podemos aplicar essa tendência a uma discussão muito comum nos dias de hoje: a decadência ou não do livro de papel. De um lado há os que afirmam com toda convicção que o livro de papel nunca desaparecerá e de outro os que preveem seu fim histórico.

A história do livro é bastante conturbada e se confunde com a evolução do homem e do pensamento racional. Mais significativa que a evolução do livro é a da palavra escrita, ou seja, do pensamento registrado.

O livro como o apanhado de textos organizados e delimitados que conhecemos surgiu há bem pouco tempo na história da humanidade e foi somente com o advento da prensa de Gutenberg que ele tomou forma de objeto prático e funcional, além de acessível. Foi um longo caminho para o pensamento humano desde os primeiros rabiscos em paredes de cavernas e tabuletas de barro, passando pelos rolos de papiro e pergaminho.

No filme A máquina do tempo, de 2002, baseado na história homônima de H. G. Wells (mas tão diferente que é odiado por muitos) o protagonista reencontra oitocentos mil anos depois o guia fotônico da biblioteca pública de Nova Iorque, uma espécie de supercomputador inteligente que encerrava em si todo o conhecimento humano e que podia ser acessado através de um holograma na simpática e estranha figura de Orlando Jones. Enquanto os livros viravam pó, naquela única máquina residia tudo o que o homem construiu antes de se autodestruir.

Gosto muito dessa cena. A ideia de um robô ou computador inteligente que sabe tudo me atrai bastante, principalmente nessa aplicação tão bonita de realidade aumentada.

Como será o futuro? Teremos isso algum dia? Não sei, ninguém sabe, mas a ponte que possibilitaria isso está sendo atravessada. Uma nova ponte, muito diferente de outras e ao mesmo tempo bastante similar. Mais um grande salto que torna o registro e o acesso ao conhecimento muito mais flexível e eficiente.

Por mais apegados que sejamos ao livro como objeto do nosso tempo e por mais que desejemos que ele viva para sempre, devemos em primeiro lugar ser pragmáticos e enxergar as coisas de forma ampla. Isso envolve ver o mundo por um angulo otimista, só para variar.

Carta pra mim ontem

Não sei se você sabe, mas o universo está em expansão.

Os cientistas dizem que tudo está se afastando de tudo, que o universo com seus planetas e estrelas e até sua mesa de jantar e seus óculos, cada pequena parte do seu corpo, tu-do-se-se-pa-ra-de-va-gar.

O que está longe vai ficando mais ainda, por outro lado o vazio e a escuridão vão crescendo. Sua cabeça está meio oca hoje e você tem reflexões curtas e raras, não é? Se você não tomar uma atitude agora, pode ficar pior porque a distância entre seus pensamentos vai aumentar e o nada tomará conta da sua mente.

Por isso que tanta gente parece viver de ideias fixas, pensando sempre a mesma coisa pra chegar sempre nas mesmas conclusões, justificando seu modo de ser e agir usando os mesmos argumentos prontos. Passam a vida toda equilibrando na ponta de uma vara suas opiniões sobre tudo. Contando as mesmas piadas, rindo e chorando das mesmas coisas…

Não seja assim. Você não precisa ser assim, se não quiser.

Renove-se, use seus cada vez mais distantes e isolados neurônios para entender o mundo ao seu redor e dentro de você. Eu sei que pode ser desconfortável fazer isso, que isso pode provocar mudanças, e mudanças geralmente são desconfortáveis. Mas eu juro pra você que vai valer a pena, mesmo que no momento tudo pareça em vão e sem sentido.

Reciclar é a chave. Jogue suas conclusões novamente no ciclo das ideias, passe-as no moedor novamente. Refine. Veja e ouça coisas diferentes, mude o caminho pro trabalho, mude o pé que pisa o primeiro degrau. Mude seu penteado. Você fala pouco, fale menos ainda. Você ouve bastante, mas ouça com mais cuidado. Ame mais, julgue menos. Pare de olhar tanto pro seu umbigo como você está fazendo agora e olhe mais para o outro e pelo outro. Pense duas vezes e depois pense mais um pouco. E enquanto isso, guarde a fé.

Boa sorte.

P.S.: E vê se aprende a economizar! E tem mais uma coisa: cuide bem desses dentes!

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A dramaticidade da sabedoria

A temática bíblica do caminho adquire maior dramaticidade na invectiva dos ímpios contra os justos. Eles veem no caminho dos justos perene acusação à sua vida. Fazem tudo diferente do que estes praticam. Os ímpios lamentam a brevidade e a tristeza da vida. Nada ficará deles. Ninguém se lembrará deles. A vida passa como uma sombra. Logo, concluem: desfrutemos dos bens presentes, gozemos das criaturas com ânsia juvenil. Inebriemo-nos com o melhor vinho e com perfumes, não deixemos passar a flor da primavera. Nenhum prado ficará sem provar nossa orgia, deixemos em toda parte sinais de alegria, pois essa é nossa sorte e nossa sina (cf. Sb 2, 1-9).

Esse discurso soa-nos bem pós-moderno. E, na verdade, lá se vão mais de 22 séculos de distância. É impressionante a semelhança de fala entre aqueles que não percebem sentido na vida e se voltam de corpo inteiro para os prazeres presentes.

O sábio dramatiza o diálogo do ímpio contra o justo. Oprimamos o justo pobre, não poupemos a viúva nem respeitemos os cabelos brancos do ancião. Cerquemos, persigamos, liquidemos o justo. Ele nos incomoda com sua vida. O seu caminho desmente e contradiz o nosso. Ponhamo-lo à prova por meio de ultrajes, torturas para examinar sua resignação. Condenemo-lo a morte vergonhosa, pois ele diz que há quem o visite (cf. Sb 2, 10-20).

O leitor sente-se posto entre dois discursos. Então entra o sábio com a palavra de discernimento. Assim raciocinam os ímpios, mas se enganam. Sua maldade cega-os. No fundo, ignoram os segredos de Deus, não esperam o prêmio pela santidade nem creem na recompensa das vidas puras. Conclui para ontem e para hoje: o justo criado por Deus e para Deus sofre a inveja dos maus, que provarão a morte. Dois caminhos: de vida e de morte. Escolhe, jovem!

J. B. Libanio, sj

(Retirado do semanário litúrgico “O domingo” de 22/05/2011, nº 26, ano LXXIX)

Do mundo não se leva nada

Eu não gosto de ver coisas encostadas, inúteis. Quartinhos de bagunça me dão arrepios. Nem sempre fui assim mas estou caminhando para me livrar de tudo que não me serve mais. É algo bem simples mas não deixa de ser um exercício de desapego, ao menos de coisas materiais.

Praticar o desapego é uma luta diária. Muitos nem pensam nisso ou só lembram do conceito na hora de limpar a casa e se livrar das roupas velhas. Acredito que todos temos tendência de ir juntando tralha, não só física como espiritual, uns mais, outros menos.

Um livro que me ajudou muito a perceber isso foi o “Dinheiro: é possível ser feliz sem ele”, de Odir Cunha, onde ele conta sua experiência pessoal e o insight que o fez mudar de vida radicalmente. Embora não seja o foco do livro, uma das mensagens que ele passa é justamente a necessidade de ser desapegado com os objetos.

As vezes você pode não se dar conta mas está carregando coisas inúteis e que não precisa. Como sonhos há muito tempo mortos, ideias há muito tempo obsoletas.

Engraçado que minha formação cristã-católica tem uma de suas bases justamente na idéia do desapego e da vida simples, mas precisei ler um livro escrito por um contemporâneo para ter esse insight.

Vejamos algumas coisas que a bíblia nos fala sobre desapego e riqueza material:

Sem dúvida, grande fonte de lucro é a piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento. Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto.

Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições.

(Primeira carta de Paulo a Timóteo, cap. 6, 6-10)

Jesus Cristo foi bem claro também, além de acrescentar o agravante que é ocupar-se demais com o futuro:

Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.

O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!

Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?

Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?

E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?

Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.

Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.

Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.

(Evangelho segundo Mateus, cap 6, 19-34)

“Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.” Bem forte isso, não?

Trocando em miúdos, Jesus diz que devemos viver sem preocupações com o que não podemos controlar e sem desejar mais do que realmente precisamos. E acima de tudo, confiar que Deus nos dará tudo que precisamos.

É justamente o oposto do que nossa sociedade respira e faz. Nossas ocupações são baseadas em correr atrás de tudo que pensamos precisar e desejamos ter, e sozinhos, dia após dia.

É comum muita gente afirmar que as religiões promovem a prática do desapego nos seus fiéis para apenas tomar seu dízimo e criar uma cultura de comodismo, tendo como seu papel verdadeiro ser cúmplice do sistema de domínio da elite sobre as massas. É uma maneira de ver as coisas, com certeza. Mas quando vemos crianças matando crianças para roubar um par de tênis caro, o que podemos dizer?

Por outro lado, atualmente temos uma proliferação de igrejas pregando a teologia da prosperidade. Deus quer que você seja muito rico e tenha ótima saúde, esteja com Ele e você terá tudo o que quiser. Mas mantenha rigorosamente em dia o seu carnê do dízimo para poder concorrer aos prêmios!

Veja, passamos boa parte do tempo pensando no porvir, e é provável que 90% do nosso pensamento sobre o futuro envolva dinheiro. Não é irônico que tantas pessoas percam a saúde e a felicidade no trabalho duro de hoje justamente para garantir a saúde e a felicidade no amanhã? Pense bem, existe alguma lógica nisso?

Música do futuro da música

Les Paul era um cara foda. Além de criar a emblemática guitarra que leva seu nome, inventou também a técnica de gravação sonora em multi canais. Duas bases sólidas do rock. Não sabe? Eu explico.

Até meados de 40 e 50, todas as gravações musicais eram feitas ao vivo. Todo mundo junto, banda ensaiada, microfones posicionados, um dois três e vai!

Por isso, deve-se ouvir com muito respeito tudo que foi feito nessa época. Executar uma música do começo ao fim sem erros e com feeling não é moleza, principalmente quando são muitos músicos que dependem da boa atuação uns dos outros. O tempo urgia e qualquer erro podia jogar no lixo todo o suor e inspiração de um bom take.

Eu sei o que você está pensando, “que nada, até o Calipso faz um disco inteiro ao vivo numa boa”. Filho, hoje em dia dá pra fazer milagres com efeitos de computador! Não se engane, há toneladas de tecnologia por trás da gravação de um DVD ao vivo.

Em 1940, o que havia era isso:

Bem impressionante, heim? Principalmente se você sabe como são os equipamentos de estúdio atuais e já viu o que um simples PC e um bom software podem fazer.

Mas o maior milagre mesmo era feito na captação do som, onde a posição ideal de microfones e músicos era a arte que fazia toda a diferença. Mesmo hoje em dia, quando um engenheiro busca fazer uma gravação que soe natural de verdade, ele olha para trás e vai ouvir o som daquela época para tentar entender como algo feito com tanta simplicidade podia soar tão bem.

O INÍCIO DA POP MUSIC

Eis então que aparece mister Les Paul, que talvez seja o primeiro músico nerd da história, com uma ideia maluca de querer gravar um solo enquanto ouve uma base de guitarra. Sozinho, como todo bom nerd.

A primeira música gravada usando a técnica recém criada foi cantada por sua esposa, Mary Ford. Veja um pequeno vídeo onde o casal explica como funciona o multrack. Cara, isso é muito velho!

A invenção de Les Paul foi o catalisador que permitiu a proliferação desenfreada da música popular, tornou mais fácil a vida dos músicos e abriu possibilidades sonoras nunca antes vistas.

Além das primeiras gravações em multi-pista, Les Paul foi pioneiro em vários experimentos sonoros, inventando inclusive alguns efeitos famosos como o phase e o delay. Como eu disse, o cara era foda.

AS QUATRO FABULOSAS

Nos anos 60 todo estúdio que se prezasse possuia pelo menos um gravador multitrack. Era possível gravar as mais belas canções usando-se incríveis 4 pistas! Uau!

É, eu sei o que você está pensando agora, “credo, não dá pra fazer nada com só 4 pistas!” Bom, esses caras aí fizeram miséria usando só isso:

Repare os rostos felizes, todos satisfeitos, cada um com sua pistinha.

Na verdade George Martin rebolava muito para fazer caber em 4 pistas tudo que os 4 fabulosos faziam. Usava-se uma técnica conhecida como ping-pong, que é assim: grava-se três pistas e faz-se uma mix jogando tudo na quarta pista. E assim por diante, até caber todos os instrumentos e vozes. A desvantagem é o ruído e perda de qualidade sonora, mas a equipe de Martin tinha lá os seus truques e macetes que eram também um milagre a parte.

Já brinquei bastante de ping-pong usando um desses:

Dava para amontoar umas 7 pistas sem perder muito a qualidade.  Quer dizer, toda a qualidade que uma fita k7 rodando duas vezes mais rápido podia oferecer. Bons tempos.

HOJE TEMOS TUDO

Nos dias de hoje qualquer idiota pode se considerar músico ou DJ (ou jornalista, ou blogueiro). A verdade é que Les Paul trouxe ao mundo algo que cria também pseudos músicos. Lembre-se que até então exigia-se que o artista fosse bom ao vivo. Bom não, perfeito. Dominar seu instrumento com maestria e ter boa capacidade de trabalhar em equipe era o caminho do sucesso.

Claro que o advento do multitrack abriu um leque imenso de possibilidades que foram muito bem exploradas e trouxeram riquezas enormes para a música contemporânea, mas claro é também que abriu portas largas para a mediocridade e preguiça musical.

E hoje temos os microcomputadores. Com o notebook que uso para escrever esse texto, um notebook nem tão parrudo assim, seria possível reproduzir sem dificuldade tudo que os Beatles fizeram (exceto, é claro, as vozes – por enquanto).

Hoje qualquer um tem acesso, por um preço muito baixo, a toda a tecnologia necessária para fazer seu próprio álbum. E isso sem precisar saber uma única nota musical. Vivemos atualmente o auge da arte fake. Todo mundo pode ser músico na frente de um PC, até mesmo você, manolo.

Mas é claro que este é o meu modo de enxergar as coisas. Você pode dizer que o que mudou foi apenas o modo de fazer música, e que os músicos suam a camisa não no ensaio, mas na criação de novos timbres, novas texturas musicais, tudo na frente do PC. Pode ser, pode ser…

PRODUTOS MÁGICOS PARA A MÚSICA

E então fiquei curioso ao ler essa matéria do Gizmodo e baixei o disco que o Gorillaz gravou usando apenas iPads. Isso mesmo. Vá lá ler a matéria e depois volte aqui.

Me propus a ouvir o disco todo prestando alguma atenção, coisa que normalmente só faço quando enxergo uma boa oportunidade de zoar muito depois. Mas procurei ouvir de mente aberta, afinal sou um cara otimista.

O que posso dizer? Nunca tinha prestado atenção antes nessas vertentes musicais mais moderninhas. Os timbres conseguidos com o iPad são interessantes, parecem mesmo muito bons. Gorillaz? É música eletrônica bizarra e slow, meio deprê. Nada muito incrível, aquela velha técnica de soltar um loopizinho aqui, entra outro ali, canto umas palavras aqui com voz de monstro e pronto. Se você gosta desse tipo de som, lambuze-se.

Olha! A faixa sete começa com um lindo zumbido de plug caído no chão. Fantástico. Como nunca pensei nisso antes?

Agora, vem cá. Disco inteiro feito em iPads? Me engana que eu gosto. Tudo bem que os sons tenham saído do brinquedo, mas a brincadeira acabou aí. Olha esse espectro e me diz que não foi muito bem pasteurizado num estúdio fodidão.

Clique para ver maior

Na minha humilde opinião, esse disco do Gorillaz é uma bela droga. Rolou grana pra promover o brinquedinho da Apple? Quem liga, afinal, isso é arte.

As músicas consistem basicamente em pequenas alucinações sonoras, obviamente frutos de mentes perturbadas. Você curte?

Com meu chinelo havaianas que está aqui no meu pé e minha flauta doce consigo fazer algo parecido. Tendo, é claro, um bom equipamento de estúdio ao alcance dos dedos.

Pra não dizer que odiei tudo, simpatizei com a faixa 13. A que soa mais tradicional. Depois fui ler as informações constantes no encarte em pdf que acompanha o disco e descobri por que gostei…

SO YOU WANT A REVOLUTION, HUM?

O jeito é a gente tomar vergonha na cara e tentar repetir o passado, desinventar as facilidades da tecnologia? Não, porque o novo sempre vem. Muito do que será a música desse século está surgindo nesse tipo de som frankenstein que anda sendo feito por aí. É preciso ter fé.

Para concluir, deixo esse pensamento muito oportuno. Uma mensagem para os músicos. Um pouco forte demais e com alguma verdade que faz pensar. Traduzi o melhor que pude (original aqui):

Os Beatles estão mortos. A cultura jovem não liga mais pra eles. Sua influência histórica não deve ser questionada, mas sua influência cultural não está em ascensão. Se você quer uma carreira para lugar nenhum na música, continue a escrever canções, continue a gravar, continue a tocar guitarra, bateria, baixo. Se você quer uma carreira para algum lugar, comece codificando, comece programando, remixando, cantando, visualizando e criando design gráfico como expressão da sua arte, criando redes sociais. O futuro do negócio musical é o futuro da criatividade musical. A inovação no negócio é dependente da inovação musical, em seus formatos comercializáveis. Tudo que se podia fazer com instrumentos acústicos já foi feito. O que e quem irá inovar na revolução cubista da música?