Um por um, continuo soltando meus balões vermelhos

Agora em agosto fez dois anos que me tornei vegano. De lá pra cá, meu mundo mudou um bocado, um tanto que não daria pra descrever e eu acho que nem gostaria de fazer isso.

Foi uma decisão pensada e amadurecida depois de muita reflexão e estudo. Apesar disso, não tinha ideia do impacto na minha vida prática. Com certeza digo que em nenhum momento fiquei tentado a desistir ou me arrependi, mas também sempre fui honesto comigo mesmo, de maneira que se mudasse de ideia não hesitaria em voltar atrás.

moedor

Fazendo um balanço desses meses todos, posso dizer que foi e está sendo bom e ruim, me faz bem e me faz mal.

Fisicamente só me faz bem. Perdi 2o kg da mais pura gordura sem esforço extra e fiquei ligeiro como era quando tinha 18. Praticamente me tornei outra pessoa de tanto que o funcionamento do meu organismo melhorou.

Espiritualmente e socialmente tem sido um pé no saco. Além de veganos, ninguém gosta de veganos. Mesmo amigos e familiares podem ser um teste de paciência no convívio social. Claro que no começo eu era muito chato também, agora sou apenas chatinho, acho. Em geral tenho ficado quieto no meu canto mas volta e meia acabo envolvido num bateu-levou.

É a lei da selva -> não vivemos mais nela.

Temos caninos -> elefantes tem dentes enormes.

Estamos no topo da cadeia alimentar -> Principalmente no supermercado. Mas ótimo: podemos escolher o que comemos ou deixamos de comer.

Nosso cérebro só evoluiu por causa da proteína animal -> vá estudar.

Carne é saudável e tem os nutrientes que precisamos para viver -> de novo, vá estudar. E se você for douto, faça um favor aos seus pacientes e vá se reciclar.

Comer carne sempre fez parte da história da humanidade -> matar recém nascidos defeituosos e estuprar as mulheres dos inimigos, também, e daí?

Deus nos deu os animais como alimento -> vá dar a bunda, depois vá estudar.

Como carne porque é gostoso -> esse é um bom argumento, o único minimamente respeitável. Mas gostar de carne assada, cozida ou frita e temperada é moleza, eu também acho uma delícia. Quero ver você comer uma língua de boi crua e sem tempero, como um bom animal predador, usando seus fortíssimos caninos, honrando seus antepassados das cavernas, no topo da sua cadeia alimentar de supermercados.

Pra ser um vegano zen ainda me falta muito. É bem difícil, sempre tem alguém testando minha capacidade de lidar com piadas e gracejos. E me sinto bastante incomodado cada vez que me deparo com a onipresença do consumo de derivados animais. Nesse caso, as vezes fico até feliz por meu círculo social ser pequeno.

E é óbvio e triste ter a clareza de saber que não há como escapar. Qualquer vegano mais experimentado sabe que nem tudo pode ser evitado. Temos controle do que comemos e de uma pequena parte do que usamos e olhe lá. Mas a gente faz o que pode com as ferramentas que tem. É pouco, mas suficiente pra dar um sentimento permanente de satisfação, mesmo nos momentos mais duros.

Também sempre há aquelas perguntas simples e diretas, às vezes honestas, que me deixam sem ação.

Eu ainda carrego poucas certezas e muitas dúvidas sobre meus hábitos. Frequentemente me pego sem argumento convincente nem para mim mesmo. Cada passo acaba sendo um teste de fogo onde procuro descobrir o real sentido da minha conduta. Tenho medo de me ver de repente fazendo gestos sem sentido e passar pela vergonha de me sentir equivocado, mas mesmo assim busco manter a mente e o coração abertos. Como eu disse, acima de tudo, não tenho medo de mudar de ideia.

Por enquanto não vejo razão para tal. Abrir concessão ou exceção para a escravidão e holocausto em massa de seres inocentes e sencientes não me parece algo fácil de se justificar. É uma coisa que não entra na minha dura cabeça.

Optar pelo veganismo foi a saída mais simples para mim, tirando esse fardo dos meus ombros estreitos e caídos. Para a maioria das pessoas parece ser mais fácil cair no duplipensar e continuar na esquizofrenia social reinante no que tange ao modo como lidamos com os outros animais.

Mas é claro que essa é apenas uma opinião minha, que reconheço ser bastante implacável. Da mesma forma que tento desenvolver empatia pelos outros animais, preciso tê-la com meus irmãos de espécie em primeiro lugar e não exigir deles na mesma medida em que exijo de mim, senão posso acabar virando um mártir ou sendo exilado, o que só é bonito nos filmes ou quando você é o Caetano Veloso.

Enfim, é o que eu tinha a dizer sobre isso. Por hora fique com essa música bacana.

You and I in a little toy shop
buy a bag of balloons with the money we’ve got
Set them free at the break of dawn
‘Til one by one, they were gone

Roberto Slim

Agora que me toquei que eu devia ter escrito aqui no meu blog também. Vá lá, antes tarde que nunca.
Quem se preocupa com peso é mulher e bicha, diz o teutão, mas tá aí o resultado de uma vida mais saudável sem esforço:

haters-gonna-hate

A comida dos campeões… veganos

É engraçado que volta e meia me perguntam o que eu como, imaginando que veganos tem uma dieta especial ou do tipo usada por astronautas. Não há nada demais na minha dieta, apenas não consumo alimentos que tenham origem animal. Ou seja, quase tudo. Ou quase nada, dependendo da perspectiva.

Pensando nisso, resolvi que seria válido descrever minha alimentação e dar uma pequena mas real contribuição para mostrar como o veganismo não é nada complicado ou fora do normal.

A princípio, a única particularidade notável é que existe pouca distribuição e alcance de produtos industrializados cuja composição seja estritamente vegetal, daí a dificuldade de se encontrar essa variedade em cidades pequenas.

Outro problema é limitar o consumo de industrializados a marcas que não trabalhem com produtos de origem animal, prática comum entre veganos mais ferrenhos. Isso torna tudo muito difícil, pra não dizer impossível, já que nem mesmo um simples pacote de macarrão de sêmola escaparia.

Morando numa cidade minúscula e limitada, eu tomei a decisão de evitar determinadas marcas quando possível e apenas isso.

Outro ângulo a ser visto é que o veganismo não se limita a alimentação e vai muito além, abarcando vestuário, produtos de higiene e limpeza etc. Por enquanto apenas controlo o que como.

CAFÉ DA MANHÃ

Sou do tipo de gente que não sente vontade de comer quando acorda, preferiria apenas tomar uma xícara de café e só. Faço um esforço, já que é consenso que essa é a refeição mais importante. É?

De manhã, além de café adoçado com açúcar mascavo, eu tomo leite de soja da Purity/Cocamar. Andei fazendo leite de soja em casa mas definitivamente não fica tão bom quanto esse.

Na maioria das vezes eu como apenas pão integral, e tenho preferência pelos da linha Grão Sabor, da Wickbold.

Quanto a margarina ou creme vegetal, até pouquíssimo tempo eu usava a Mesa, da Vigor, mas fiquei sabendo que ambas as marcas pertencem a JBS Friboi e, apesar de nada constar na embalagem, há suspeitas de que o fabricante usa sebo como origem de alguns ingredientes. Eu adoro o mundo capitalista, e você?

Bem, o pessoal vegano fala que azeite no pão é o que há, preciso experimentar…

Um recheio para pão que é excelente e as vezes me dou o trabalho de fazer é manteiga de amendoim. Minha receita é essa:

  1. Asse meio quilo de amendoins
  2. Retire a pele (não é fácil e demora)
  3. Moa num moedor. Se não for possível, dá pra arriscar ir direto no liquidificador, desde que este seja dos bons
  4. Bata muito bem no liquidificador juntamente com uma xícara de açúcar mascavo e um pouco de água para facilitar
  5. Pegue um pote de margarina, jogue o conteúdo fora, lave-o bem e coloque a manteiga de amendoim dentro 😛

Para terminar a lista do café da manhã: as vezes também arrisco uma banana ou um pedaço pequeno de maçã ou pêra, meio forçado porque não sou fã de frutas.

ALMOÇO

Assim que cortei definitivamente a carne do cardápio, a substitui por PTS, proteína texturizada de soja. Não é um alimento realmente necessário e aos poucos vou abandoná-la, mas ela facilitou no começo, ocupando no prato o lugar da carne.

A proteína de soja é a base para muitas receitas veganas que tentam emular pratos carnívoros. Particularmente não gosto muito da ideia mas… é uma opção pra quem curte junk food, tipo massas, salgados etc.

A proteína de soja, após ser devidamente hidratada, pode ser preparada como se fosse carne. Minha mãe, que é a cozinheira de casa, a faz como se fosse picadinho.

Antes que você logo pense “mimimi mamãe que tem o trabalho de fazer a comidinha do vegano bichinha” quero dizer que o trabalho a mais que minha mãe tem é de preparar uma variedade maior de legumes, o que só faz bem pra todos.

Em termos simples, a grande diferença no meu almoço é a variedade. Antes eu me limitava a comer o que mais gostasse, ou seja, macarrão, arroz, feijão, carne, em porções generosas, e dava pouco espaço para vegetais. Agora, reservo no prato um espaço igual para cada coisa. Sigo a regra do “quanto mais cores, melhor”.

Meu almoço é composto variavelmente de arroz, feijão, macarrão, mandioca, batata, lentilha, abobrinha e proteína de soja como bases, sendo acompanhos de salada de grão de bico, ervilha, milho, beterraba, cenoura, tomate e folhas, com atenção especial a rúcula, brócolis e couve-flor.

Veja, praticamente como de tudo. Antes eu não poderia dizer o mesmo.

JANTAR

Meu jantar é um repeteco do almoço e sempre tento tomar cuidado para não exagerar no arroz ou no feijão.

COMPLEMENTAÇÃO COM VITAMINA B12

A única coisa que não existe no reino vegetal e é fundamental para nosso organismo é a vitamina B12, presente em alimentos de origem animal. Em algum momento na evolução humana paramos de produzi-la.

Para não correr riscos, veganos necessitam tomar um único suplemento, que é esse. Todo o resto que você ouvir por aí é mito, lenda ou pura besteira. E antes que você pergunte, eu respondo: não é cara e é sintetizada em laboratório.

SINTO FALTA?

De carne, não. De ovos, sim. De leite, não, mas de queijo, sim. Do que mais sinto falta são opções doces. Estou aprendendo a fazer bolos sem leite e ovos para diminuir essa carência. 🙂

COMIDA INDUSTRIALIZADA

Ouvi isso não sei onde é a mais pura pérola de sabedoria: “Não coma nada que sua bisavó não identificaria como comida.”

É muito difícil ter controle sobre os ingredientes de comidas industrializadas. Muitos fabricantes não se dão ao trabalho de informar corretamente na embalagem e nos seus respectivos SACs e sites do que se compõe seus produtos. As vezes eles jogam sujo e além de outros truques desonestos, podem mudar a fórmula sem aviso. A saída, na dúvida, é não comer.

Gente radical e que defende o carnivorismo com unhas e dentes (é…) adora dizer que o veganismo é uma ilusão porque tudo tem carne/ovo/leite/sebo etc. Sim, com certeza volta e meia eu me alimento de algo que tem uma infinitésima parte disso, a questão é que quando tomo conhecimento, não como mais. Simples assim, sem drama.

Não sou alérgico ou tenho nojo, é apenas uma opção de vida. E como eu já disse antes, não importam as razões para se adotar uma dieta vegana, todas são excelentes.

Perca 8kg sem esforço, pergunte-me como!

Ao ler o título você já pensou “lá vem o mala de novo com essa conversa”.

Hoje fui ao centro e aproveitei para entrar numa farmácia e usar a balança na faixa. Deu 77,5 kg. Nada mal pra quem estava com 85 kg há alguns meses atrás e não precisou mover nenhum músculo ou suar nenhuma gota para se livrar desses quilos.

Estou quase pesando o mesmo que em 2009, quando fiquei mais sedentário e parei de fumar, ganhando 10 quilos em um ano.

Como na época eu fumava muito mas também andava muito, não sei se estava no peso ideal. Com a caminhada puxada e a alta dose de nicotina correndo nas veias, meu metabolismo tinha outro ritmo. Imagino que agora eu vou parar de emagrecer. Mas ainda tô vendo uma sobrinha de gordura aqui…

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Não pense que estou obcecado em emagrecer ou algo do tipo. A perda (do excesso) de peso foi apenas um brinde (muito bem vindo) da minha mudança de paradigma.

Gosto de bater nessa tecla porque é por onde se captura a atenção das pessoas mais facilmente. Falar sobre ética, empatia e abolicionismo animal soam como loucura aos ouvidos de boa parte das pessoas. Excitar a vaidade ou a busca por saúde é um bom truque para apontar o vegetarianismo como caminho a ser considerado.

Então reflita sobre isso e use meu caso como referência. Não faço academia, não faço exercício regular. Tão somente ando todo dia de bicicleta no caminho casa/trabalho, mais ou menos 2 km por dia.

Antes eu já não era de exagerar com comidas gordurosas e hiper calóricas, mas de vez em quando rolava refrigerante, doce, salgadinho. Hoje só sobrou o refrigerante pois não é fácil encontrar guloseimas que não contenham carne/leite/ovo. Mas faço bolos de vez em quando. 🙂

Enfim, tudo se resume a o quanto somos escravos dos nossos estômagos frente a o quanto queremos manter nossa saúde. Vamos pensar nisso?

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Perca 5kg em dois meses, pergunte-me como!

Nem precisa perguntar, vou responder de graça.

Depois que adotei essa nova dieta, caí de 85 para 80 quilos em menos de dois meses. Sem exercícios, sem sofrimento. Gente fina que sou, vou divulgar o segredo, a receita mágica!

1 – Corte totalmente o consumo de qualquer tipo de carne, laticínios, ovos e todos os derivados.
2 – Troque o pão branco por pão integral.
3 – Para não sentir falta da carne vale incluir receitas a base de proteína de soja texturizada, mas sem exagero.
4 – Diversifique ao máximo os pratos de saladas e legumes. O ideal é um prato colorido, quanto mais cores melhor.
5 – Reduza o consumo de arroz branco ou troque por arroz integral.

Para todos que indagam o meu veganismo recente sempre digo a mesma coisa: só existem bons motivos para se abandonar o consumo de carne.
Apenas o aspecto da saúde já basta. Perder peso não é o que me motiva mas é bom se sentir menos mole 😉

Considere isso: o intestino de animais predadores como tigres e outros é curto, absorvendo os nutrientes presentes na carne e logo pondo pra fora a parte inútil. Já o intestino humano, como o dos animais herbívoros, é longo, próprio para a digestão de vegetais.

Ao menos coma mais vegetais! Tire da carne o posto principal e abra espaço para lentilha, ervilha, milho, grão de bico, soja e outras espécies de cereais e grãos. Lembre-se que não é só de alface que se faz salada.

Cinquenta anos atrás a carne era prato especial, comido apenas em fins de semana. Muitas pessoas cresceram assim, meus pais cresceram assim, talvez os seus também. Hoje comemos carne diariamente e em quantidades absurdas. E o que vemos? A obesidade batendo recorde atrás de recorde.

Você anda nas ruas e o que mais se vê é gente acima do peso. A cinquenta anos atrás a moda era usar chapéu, qual é a moda hoje?