Sobre leis e salsichas

Todo esse caso da carne adulterada produzida pelas famílias Batista (Friboi/JBS) e Diniz (BR Foods) causou um enorme furor. Praticamente toda carne que o brasileiro come vem dessas duas empresas. Sadia, Perdigão, Seara etc. são todas marcas que pertencem a esses grupos.

Começou então uma batalha nas redes sociais entre comedores de carne furiosos e uns poucos vegetarianos e veganos que se arriscaram a dar umas risadas públicas com a situação.

Lembro aos amigos veganos que ser sensível a dor dos animais sem ser sensível a dor de barriga do próximo não condiz com a conduta de vida das Testemunhas de Jeovegan.

Ok, ponto final aqui.

Eu entendo a indignação das pessoas. Imagino que descobrir de repente que a comida que está alimentando meus filhos está sendo maquiada com aditivos químicos perigosos não é nada engraçado. Eu lamento pelos meus amigos e pela minha família.

Mas, a priori, você é responsável pelo que põe na própria boca e na boca dos seus filhos. E não é o ataque a pessoa física que vai resolver o problema. E se você confia na palavra de empresas, atores famosos e agências de inspeção do governo, é melhor parar de fazer isso o quanto antes. A qualidade e saudabilidade (existe essa palavra?) do alimento está diretamente ligada ao modo como ele é produzido. Se você não tem a mínima ideia de como sua comida é feita, tem duas alternativas: 1) continuar sem saber e confiar na auto regulação do mercado e na competência do governo ou 2) tentar descobrir e tomar decisões a partir daí.

Um sujeito chamado Jonathan, preocupado ao ficar sabendo que logo seria pai, resolveu seguir a opção 2 e pesquisar um pouco sobre como é produzida a carne que alimentaria seu filho. O resultado da pesquisa acabou virando um livro. Comer animais, de Jonathan Safran Foer, é um estudo minucioso da produção de carne nos EUA (que define o rumo da indústria no mundo). Um livro escrito em primeira pessoa, de forma leve, eu diria até bem humorada, bastante imparcial e sem um pingo de radicalismo, recheado de dados e fontes mas com linguagem simples e direta.

Recomendo a leitura. Caso tenha se interessado, tem pra vender na Amazon ou você pode encontrar em formato epub “livre” na web.

Abaixo reproduzo um trecho particularmente interessante que mostra bem a sanha da indústria de carne em produzir e lucrar sempre mais gastando menos. E como o governo, qualquer governo, cumpre seu papel de vassalo. Isso não é novo e não está evoluindo para melhor ou para o bem comum, tenha isso em mente. Não é o trecho mais leve do livro mas é o único que resume o processo do começo ao fim.

Leia se quiser ou não leia, a escolha é sua. Só não venha me encher o saco enquanto dou minhas gostosas risadas.

A vida e a morte de uma ave

A segunda propriedade rural que visitei com C estava organi­zada numa série de vinte galpões, cada um deles com 13 metros de largura por 150 de comprimento e abrigando um número aproxi­mado de 33 mil aves. Eu não tinha uma fita métrica comigo e nem condições de fazer qualquer coisa semelhante a uma contagem de cabeças. Mas posso fornecer esses números com confiança porque tais dimensões são típicas na indústria aviária — embora alguns criadores estejam agora construindo galpões maiores: de até de­zoito por 154 metros, abrigando cinquenta mil aves ou mais.

É difícil visualizar a magnitude de 33 mil aves num mesmo am­biente. Não precisa ver por si mesmo, nem sequer fazer as contas, para entender que as coisas por ali ficam bastante amontoadas. Em suas Normas para o Bem-Estar Animal, o National Chicken Council (Associação Nacional do Frango) indica a densidade de criação apropriada de oito décimos de um pé quadrado por ave (equivale aproximadamente a 743 centímetros quadrados. Uma folha A4 mede 623,7 centímetros quadrados). É isso o que uma das principais organizações representantes dos produtores de frango considera bem-estar animal, o que nos mos­tra o quão completamente cooptadas as ideias do que seja bem-estar se tornaram — e por que não podemos confiar nos rótulos que vêm de todos os lugares, exceto de uma terceira fonte confiável.

Vale a pena parar aqui por um instante. Embora muitos ani­mais vivam com bem menos, vamos partir do pressuposto de menos de um pé quadrado. Tente visualizar. (É improvável que algum dia você veja pessoalmente o interior de uma granja, mas há muitas imagens na internet se a sua imaginação precisar de ajuda.) Pegue um pedaço de folha A4 para impressora e imagine uma ave adulta, com formato semelhante ao de uma bola de fu­tebol americano com patas, de pé sobre a folha de papel. Imagine 33 mil desses retângulos numa grade. (Frangos de corte nunca ficam em gaiolas e nunca em vários níveis.) Agora, coloque a grade dentro de paredes sem janelas, com um ventilador no teto. Insira nesse cenário sistemas de alimentação (guarnecida com drogas), água, aquecimento e ventilação. Isso é uma granja.

Agora, vamos à maneira como as coisas são feitas.

Primeiro, encontre uma galinha que cresça rápido com o mí­nimo de comida possível. Os músculos e tecidos de gordura dos frangos de corte projetados recentemente crescem bem mais do que seus ossos, levando a deformidades e doenças. Algo entre 1 e 4% dessas aves morrerão retorcendo-se em convulsões devido à síndrome da morte súbita, uma doença quase desconhecida fora das granjas de criação intensiva. Outra doença induzida por essas granjas industriais, em que o excesso de fluidos enche a cavidade corporal, a ascite, mata ainda mais (5% das aves do mundo). Três a cada quatro aves terão algum grau de defeito ao caminhar, e o senso comum sugere que sentem dor crônica. Uma a cada qua­tro terá tantos problemas ao caminhar que não há dúvidas de que sentirá dor.

Para os frangos de corte, deixe as luzes acesas cerca de 24 horas por dia durante a primeira semana de vida dos pintos, mais ou menos. Isso os encoraja a comer mais. Depois, apague as luzes um pouco, dando-lhes cerca de quatro horas de escuridão por dia — sono suficiente para que sobrevivam. É claro que as galinhas enlouquecem se forem obrigadas a viver em condições tão antinaturais por muito tempo — as luzes, o modo como ficam comprimi­das e o fardo de seus corpos grotescos. Pelo menos, os frangos de corte em geral são abatidos no 42º dia de vida (ou, cada vez mais, no 39º), então ainda não estabeleceram hierarquias sociais pelas quais brigar.

Desnecessário dizer que aves comprimidas, deformadas, dro­gadas e com estresse demais num lugar fechado, imundo e for­rado de excrementos não vivem em situação muito saudável. Além das deformidades, danos aos olhos, cegueira, sangramento interno, infecção bacteriana dos ossos, vértebras deslocadas, pa­tas e pescoços tortos, doenças respiratórias e sistema imunológico enfraquecido são problemas frequentes e duradouros em granjas industriais. Estudos científicos e registros do governo sugerem que praticamente todas as galinhas (mais de 95%) acabam infec­tadas pela E. coli (um indicador de contaminação fecal), e entre 39 e 75% delas ainda continuarão infectadas na comercialização. Cerca de 8% das aves têm infecção por salmonela (menos do que anos atrás, quando pelo menos uma em cada quatro aves era in­fectada, o que ainda ocorre em algumas criações). Entre 70 e 90% são infectadas por outro patógeno potencialmente mortal, o campilobacter. Banhos de cloro são comumente usados para remover o muco, o odor e as bactérias.

Claro, os consumidores talvez percebam que o sabor de suas galinhas não anda muito bom — e como poderia um animal entu­pido de drogas, doente e contaminado por merda ter gosto bom? —, mas “caldos” e soluções salinas serão nelas injetados, coloca­dos de algum modo, no interior de seus corpos, para deixá-los com o que passamos a considerar o aspecto, o cheiro e o gosto da galinha. (Um estudo recente da Costumer Reports descobriu que produtos feitos com carne de galinha e de peru, muitos deles rotulados como naturais, “continham de 10 a 30% de seu peso em caldo, condimentos ou água”.)

Terminada a etapa da criação, é chegada a hora do “processa­mento”.

Em primeiro lugar, você vai ter que encontrar empregados para colocar as aves em engradados e manter o ritmo da produção que irá transformar as aves vivas e íntegras em pedaços embru­lhados com plástico. Precisará estar sempre procurando empre­gados, já que a taxa anual de rotatividade de pessoal excede 100%. (As entrevistas que fiz sugerem que fica em torno de 150%.) Dá-se preferência a imigrantes ilegais, mas imigrantes pobres que não falem inglês também são desejáveis. Pelos padrões da comu­nidade internacional, as condições de trabalho típicas dos abatedouros americanos constituem violação dos direitos humanos; para você, elas constituem uma forma crucial de produzir carne barata e alimentar o mundo. Pague a seus funcionários um salário mínimo, ou perto disso, para juntar as aves — segurando cinco em cada mão, de cabeça para baixo, pelas pernas — e amontoe-as em engradados para o transporte.

Se sua linha de produção funciona na velocidade adequada — 105 frangos postos em engradados por um único trabalhador em 3,5 minutos é a média esperada, segundo vários apanhadores que entrevistei —, as aves serão manipuladas sem cuidados e, como também me contaram, os trabalhadores com frequência sentem os ossos das aves se partindo em suas mãos. (Cerca de 30% de to­das as aves vivas que chegam ao abatedouro têm ossos que acaba­ram de se partir, como resultado de sua genética de Frankenstein e do tratamento descuidado.) Nenhuma lei as protege, mas é claro que há leis sobre como você pode tratar os empregados, e esse tipo de trabalho tende a deixá-los com dores durante vários dias seguidos, então, mais uma vez, certifique-se de que as pes­soas que contrata não terão condições de reclamar. Pessoas como “Maria”, empregada de uma das maiores processadoras de fran­gos na Califórnia, com quem passei uma tarde. Depois de mais de quarenta anos de trabalho e cinco cirurgias devido a problemas físicos relacionados ao trabalho, Maria já não consegue usar as mãos nem para lavar pratos. Sente tanta dor o tempo inteiro que passa as noites com os braços mergulhados em água com gelo e, com frequência, não consegue dormir sem remédios. Recebe oito dólares por hora, e pediu que eu não usasse seu nome verdadeiro, com medo de represálias.

Coloque os caixotes em caminhões. Ignore extremos climáticos e não dê comida nem água às aves, mesmo que o abatedouro este­ja a centenas de quilômetros dali. Ao chegar ao abatedouro, faça mais funcionários pegarem as aves, pendurá-las de cabeça para baixo pelas patas em grilhões de metal, colocando-as numa es­teira transportadora. Mais ossos serão quebrados. Com frequên­cia, os gritos das aves e o barulho de suas asas batendo serão tão fortes, que os trabalhadores não conseguirão escutar a pessoa que estiver a seu lado na linha de abate. Com frequência, as aves vão defecar de dor e pavor.

A esteira transportadora arrasta as aves por uma banheira de água eletrificada. Isso provavelmente as paralisa, mas não as tor­na insensíveis. Outros países, incluindo vários países europeus, requerem (legalmente, pelo menos) que as galinhas fiquem in­conscientes ou sejam mortas antes da sangria e do escaldamento. Nos Estados Unidos, onde a interpretação do USDA da Lei dos Métodos Humanitários de Abate exclui o abate de aves, a voltagem é mantida baixa — cerca de um décimo do nível necessário para deixar os animais inconscientes. Depois de passar pelo ba­nho, os olhos de uma ave paralisada talvez ainda se movam. As vezes, elas terão suficiente controle do corpo para abrir devagar o bico, como se tentassem gritar.

O passo seguinte na linha de abate para a ave imobilizada-porém-consciente será um cortador automático de pescoço. A me­nos que as artérias principais não sejam atingidas, o sangue vai se esvair devagar. De acordo com outro trabalhador com o qual fa­lei, isso acontece “o tempo todo”. Então, mais alguns trabalhado­res são necessários para atuar como reservas no abate — “matado­res” — que cortam o pescoço das aves que a máquina não cortou. A menos que eles também não consigam cortá-los, o que, pelo que me falaram, acontece igualmente “o tempo todo”. Segundo o National Chicken Council — representantes da indústria —, cer­ca de 180 milhões de galinhas são abatidas de modo inadequado a cada ano. Quando lhe perguntaram se esses números o inco­modavam, Richard L. Lobb, o porta-voz do conselho, suspirou: “O processo termina em questão de minutos.”

Falei com numerosos funcionários responsáveis por apanhar os frangos, pendurá-los e matá-los que descreveram aves vivas e conscientes indo para o tanque de escaldamento. (Estimativas do governo obtidas através da Lei da Liberdade de Informação su­gerem que isso acontece com quatro milhões de aves a cada ano.) Já que fezes na pele e nas penas terminam nos tanques, as aves saem cheias de patógenos que podem ter inalado ou absorvido através da pele (a água quente dos tanques ajuda a abrir os poros).

Depois que as cabeças das aves são arrancadas e seus pés, re­movidos, máquinas as abrem com uma incisão vertical e removem suas entranhas. A contaminação com frequência acontece nessa etapa, já que as máquinas de alta velocidade comumente rasgam os intestinos das aves, liberando fezes para o interior da cavidade corporal. No passado, inspetores do USDA tinham que conde­nar qualquer ave com qualquer tipo de contaminação fecal. Mas, há cerca de trinta anos, a indústria aviária convenceu o USDA a reclassificar fezes para poder continuar usando esses evisceradores mecânicos. Outrora um agente perigoso de contaminação, as fezes agora são classificadas como “defeitos cosméticos”. Como resultado, os inspetores condenam metade dos animais que con­denariam. Talvez Lobb e o National Chicken Council apenas suspirem e digam: “As pessoas acabam por eliminar as fezes em questão de minutos.”

Em seguida, as aves são inspecionadas por um oficial do USDA, cuja função aparentemente é manter o consumidor a salvo. O ins­petor tem mais ou menos dois segundos para examinar cada ave por dentro e por fora, tanto a carcaça quanto os órgãos, em bus­ca de mais de uma dúzia de diferentes doenças e anormalidades suspeitas. Ele, ou ela, inspeciona 25 mil aves por dia. O jornalista Scott Bronstein escreveu para o Atlanta Journal-Constitution uma série notável sobre a inspeção de aves, que devia ser leitura obri­gatória para todo mundo que considera a hipótese de comer gali­nha. Ele entrevistou quase cem inspetores do USDA em 37 abatedouros. “A cada semana”, relata, “milhões de galinhas com pus amarelo escorrendo, manchadas por fezes verdes, contaminadas por bactérias nocivas ou prejudicadas por infecções pulmonares e cardíacas, tumores cancerígenos ou problemas de pele são envia­das aos consumidores.”

Em seguida, as galinhas vão para um imenso tanque refrige­rado, onde milhares de aves são resfriadas, em conjunto, na água. Tom Devine, do Government Accountability Project (Projeto de Responsabilidade Governamental), disse que “a água nesses tan­ques foi apropriadamente chamada de ‘sopa fecal’, devido a toda a imundície e bactérias que flutuam ali. Ao imergir aves limpas e saudáveis no mesmo tanque com as sujas, você está praticamente assegurando a contaminação”.

Enquanto um número significativo de processadores de aves europeus e canadenses empregam sistemas de resfriamento a ar, 99% dos produtores de aves nos Estados Unidos permanecem com seus sistemas de imersão e enfrentam processos tanto dos consumidores quanto da indústria da carne bovina para conti­nuar com o uso antiquado do resfriamento pela água. Não é difícil descobrir por quê. O resfriamento a ar reduz o peso da carcaça, enquanto o resfriamento pela água a deixa encharcada (da mesma água conhecida como “sopa fecal”). Um estudo revelou que o mero ato de embalar as carcaças das galinhas em sacos plásticos durante o processo de resfriamento eliminaria a contaminação. Mas isso também eliminaria uma oportunidade para a indústria transformar água suja em peso adicional na comercialização das aves, num valor de dezenas de milhões de dólares.

Não faz muito tempo, havia um limite de 8%, estabelecido pelo USDA, de quanto líquido absorvido podia ser incluído no preço de carne ao consumidor antes que o governo tomasse uma atitude. Quando isso se tornou de conhecimento público, na dé­cada de 1990, houve um compreensível clamor. Os consumidores processaram a prática, que lhes parecia não apenas repulsiva mas uma adulteração. Os tribunais concluíram que a regra dos 8% era “arbitrária e extravagante”.

Ironicamente, porém, a interpretação do USDA das determi­nações legais permitiu que a indústria de frangos fizesse suas pró­prias pesquisas para avaliar qual o percentual de carne que devia ser composto de água suja e clorada. (Esse é um resultado bastan­te comum quando se desafia a indústria do agronegócio.) Após consulta à indústria, a nova lei permite um pouco mais de 11% de absorção de líquido (o percentual exato é indicado em letras miúdas na embalagem — dê uma olhada da próxima vez). Assim que a atenção do público se deslocou para outra direção, a indús­tria de aves distorceu em seu próprio benefício regulamentos que deveriam proteger os consumidores.

Os consumidores dos Estados Unidos doam agora milhões de dólares adicionais aos grandes produtores de aves, a cada ano, como resultado desse líquido adicionado. O USDA sabe e defende a prática. Afinal, os processadores de aves estão, como tantos criadores de granjas industriais gostam de dizer, apenas fazendo o melhor possível para “alimentar o mundo”. (Ou, nesse caso, ga­rantir sua hidratação.)

O que descrevi não é excepcional. Não é o resultado de trabalha­dores masoquistas, de maquinário defeituoso ou de “maçãs po­dres”. É a regra. Mais de 99% de todas as galinhas vendidas por sua carne nos Estados Unidos vivem e morrem desse jeito.

Em muitos aspectos, os sistemas de granjas industriais podem variar consideravelmente, por exemplo, no percentual de aves es­caldadas vivas por acidente durante o processo, ou na quantidade de sopa fecal que seus corpos absorvem. Trata-se de diferenças significativas. Em outros aspectos, porém, granjas industriais — bem ou mal administradas, com animais criados soltos ou não — são basicamente as mesmas: todas as aves vêm de bandos gené­ticos frankensteinianos; todas são confinadas; nenhuma desfruta da brisa ou do calor do sol; nenhuma tem condições de dar vazão a todos os traços de comportamento característicos de sua espécie (em geral, não tem condições de dar vazão a nenhum deles), como fazer ninho, empoleirar-se, explorar seu ambiente e for­mar unidades sociais estáveis; as doenças são sempre em enorme quantidade; o sofrimento é sempre a regra; os animais são sempre apenas uma unidade, um peso; a morte é invariavelmente cruel. Essas similaridades importam mais do que as diferenças.

A vastidão da indústria aviária significa que, se há alguma coisa errada com o sistema, há alguma coisa terrivelmente errada com nosso mundo. Hoje, anualmente, seis bilhões de galinhas são criadas mais ou menos nessas condições na União Européia, mais de nove bilhões, na América, e mais de sete bilhões, na China. A população da Índia, superior a um bilhão, consome muito pou­ca carne de frango per capita, mas o total ainda soma um bilhão de aves criadas em granjas industriais por ano, e esse número está aumentando, assim como na China, a taxas agressivas e global­mente significativas (com frequência o dobro do crescimento da indústria aviária nos Estados Unidos, que aumenta rapidamen­te). No total, são cinquenta bilhões de aves em granjas industriais no mundo, e o número está aumentando. Se a Índia e a China em algum momento começarem a consumir frangos nos níveis em que os Estados Unidos os consomem, isso elevaria a mais do que o dobro esse número já estarrecedor.

Cinquenta bilhões. A cada ano, cinquenta bilhões de aves são obrigadas a viver e morrer desse jeito. Não se pode subestimar o quão revolucionária e relativamente nova é essa realidade — o número de aves criadas em granjas industriais era zero antes da experiência de Celia Steele em 1929. E não estamos apenas crian­do galinhas de um jeito diferente; estamos comendo mais gali­nhas: os americanos comem 150 vezes mais aves do que comiam há apenas oitenta anos.

Outra coisa que poderíamos dizer sobre esses cinquenta bi­lhões é que são calculados com a maior meticulosidade. Os esta­tísticos que geram a cifra de nove bilhões nos Estados Unidos a decompõem por mês, por estado e pelo peso da ave, e a comparam — todos os meses, sem exceção — ao número de aves abatidas um ano antes. Esses números são estudados, debatidos, projetados e praticamente reverenciados como objeto de culto pela indústria. Não são meros dados, mas o anúncio de uma vitória.

(Comer animais, Jonathan Safran Foer, Editora Rocco, 2009, páginas 133-141)

 

Revolução na minha mesa

vegetariana

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS, MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OUTROS

Ignorar e não se importar são coisas diferentes. Ignorar é não conhecer, não saber. Não se importar é ser indiferente e é uma ação que pressupõe conhecimento prévio, por menor que seja.

Isso explica porque tanta gente se recusa a assistir documentários e conhecer mais profundamente sobre a criação industrial de animais.

O que se vê nesses filmes já é mais ou menos conhecido, mas não em cores bem definidas. A partir do momento em que você se torna conhecedor dos detalhes e vê em cores nítidas como as coisas acontecem e como funciona o mundo da produção industrial de carne e o uso industrial de animais, acaba sendo forçado a tomar uma posição consciente e deixar de lado qualquer manto de hipocrisia e ignorância, escolhendo um dos lados. Como em vários outros aspectos da vida, enquanto você não faz isso, vive semi imerso na realidade. Veja só uma coisa: você provavelmente imagina isso quando pensa em criação de gado, mas na verdade pode ser assim (pode clicar, não é nada feio).

É evidente que a ignorância parcial (porque, como eu disse, invariavelmente temos uma vaga idéia de como as coisas funcionam) nos preserva em segurança na nossa zona de conforto. Existe um muro entre nós e certos fatos, um muro que nós mesmos construímos usando alguns tijolos presenteados pela vida moderna.

Conhecimento traz sofrimento e ignorância é benção. Concorda?

SOMOS TODOS CRIADORES POR PROCURAÇÃO

Ao consumir algum produto, automaticamente o consumidor entrega ao produtor uma procuração dando o aval para que aquele determinado produto seja feito. Isso implica na concordância com todos os detalhes e métodos da produção. Isso está escrito lá nas letras miúdas. Mas afinal, quem tem tempo pra ler as letras miúdas, não é mesmo? Considere-se um criador de animais a distância. Você consome mais ou menos uns 90 quilos de carne anualmente.

Vou colocar em poucas palavras o que você assina em baixo com tinta invisível porém indelével sempre que come um alimento industrializado de origem animal:

  • Que o animal seja deliberadamente torturado do começo ao fim de sua vida. E isso não é um exagero.
  • Que se consuma na produção de cada quilo de carne cerca de 15000 litros de água doce limpa.
  • Que a poluição gerada pela criação em larga escala contamine rios e lençóis freáticos e que se derrubem florestas para abrir espaço para mais pasto devido ao crescimento da demanda.

Talvez você já saiba mais ou menos disso, mas talvez não. E esses são apenas alguns aspectos do consumo, que não se limita só ao que você mastiga, já que do boi, do porco, da galinha e de outros bichos só se perde o grito.

ESSA É A PARTE QUE ME CABE

A minha cota de vaga ideia de como as coisas são foi contraída de um baterista com quem eu tocava. Um vegan militante, portanto um chato tagarela. Eu era bem novo, obviamente na época eu apenas ria e dava de ombros. Mas a sua postura, mais do que as suas palavras, sempre foi uma lembrança cutucando minha mente.

Algo me trouxe até aqui, até essa posição nesse momento da minha vida. Não sei o quê exatamente e não me incomoda não saber. Não vejo isso como algo bom ou ruim, é apenas o caos ou algo desse tipo, ou outras dessas bobagens em que acreditamos ou deixamos de acreditar.

Fato é que assim como não é possível desver o que foi visto, não dá pra esquecer o que se passa a conhecer. Sabendo disso e consciente de que provavelmente eu fosse ficar incomodado, assisti ao filme Terráqueos.

Penso que foi talvez aí que algo mudou aqui nesse coraçãozinho de pedra. Esse filme plantou na minha cabeça sérias dúvidas sobre o modo como me relaciono com os animais, tanto na posição de indivíduo como na de representante da minha espécie. Foi nesse mesmo estado de espírito que, procurando mais sarna pra me coçar, li o livro Comer animais, de Jonathan Foer.

Virar o rosto e continuar cortando meu bife deixou de ser para mim uma opção correta. Simplesmente não mais me sinto confortável comendo carne e usando voluntariamente coisas de origem animal. Optando conscientemente por esse caminho, resolvi mudar meus hábitos.

É comum que as pessoas que se tornam vegetarianas o façam repentinamente e bem cedo na vida, geralmente na adolescência. Estou no grupo da exceção, passei da idade de “inventar moda” e estou deixando de comer carne paulatinamente.

Pode ser mais um passo na minha busca por autoconhecimento, na definição da minha personalidade, sei lá. Pense o que quiser enquanto penso que está tudo bem e no devido lugar. Hoje mais do que ontem.

MAIS DÚVIDAS DO QUE CERTEZAS

Posso estar errado mas acredito que, da mesma forma que existem mais motivos para se parar de fumar do que para se continuar fumando, o mesmo pode ser com comer carne. Calma, não estou dizendo que comer carne é um vício que prejudica a saúde em níveis alarmantes. Afinal, é lógico que você pode parar quando quiser 😀

Mas, no frigir dos ovos que nunca mais comerei, é interessante notar que na decisão de se parar de fazer algo o que pesa mais é sempre um detalhe, um único ponto, as vezes subjetivo e extremamente pessoal.

Por exemplo, talvez meu principal motivo para largar o cigarro tenha sido o cheiro desagradável que ele deixa na pele e nas roupas, além do hálito. Não para o meu nariz, mas para o dos outros.

Seguindo esse princípio, posso dizer que o motivo primal para eu parar de comer carne e seus derivados talvez seja por não concordar que animais sejam tratados como coisas. E que isso seja feito para mim, para o meu paladar, através do meu aval como consumidor.

Cada um se prende a questão que lhe é mais relevante. Talvez alguns futuros vegetarianos se preocupem mais com a questão ecológica ou de saúde física. Pode ser. Mas o ponto é que motivos para parar não faltam e são numerosos. Por outro lado, razões para manter o bife no cardápio em geral são bem questionáveis. Ou não.

Essas são minhas opiniões e minhas escolhas. Aos amigos e chegados que acompanham meu bloguinho e que podem estar estranhando minha mudança, quero relembrar os seguintes posts que mostram mais ou menos a evolução dessa mudança de postura. Não, essa não é mais uma modinha do robertão 🙂

Só quero que não fiquem loucos matutando muito nisso e tentando classificar as atitudes da pessoa mais importante na sua vida: eu. Não tenho que provar nada a ninguém, morram todos.

A PARTE DIFÍCIL

Duas coisas ficaram muito nítidas para mim quando comecei a refletir sobre o vegetarianismo e a decisão de se evitar o consumo de produtos de origem animal:

  1. Se metade de quase tudo vem do petróleo, a outra metade vem de animais.
  2. As pessoas se reúnem e confraternizam em volta de mesas, na partilha do alimento, onde a fartura é festivamente representada principalmente pela presença de carne.

São dois pontos que tornam complicada a vida de um vegetariano. A primeira porque dificilmente um vegan consegue manter longe do seu carrinho de supermercado coisas que tem relação direta com produção animal. A segunda, porque acaba por isolar, limitar ou no mínimo dificultar o convívio social, as vezes quebrando ritos e tradições familiares e jogando um ex-carnívoro no limbo social. Imagine um vegetariano num churrasco, na ceia de Natal, numa festa de aniversário. Dependendo da postura adotada por ele, atrito e desconforto podem ser seu cartão de visitas.

Vivo num círculo social pequeno e estou confiante de que não serei mal tratado por tomar a decisão de parar de comer carne, porém imagino que torno as coisas um pouco complicadas. Mas acima de tudo espero não virar um vegetariano chato, assim como tenho procurado não ser um ex-fumante chato.

Outra questão é a que se refere a necessidade nutricional, que mesmo não sendo consenso, é bem definida. A carne e seus derivados são uma fonte fácil e muito barata de proteína e de uma vitamina essencial para o organismo: a B12. Isso significa que fora da dieta onívora comum, alimentar-se adequadamente dá mais trabalho e gastos extras.

Mas acredito que para fazer-se o que se considera certo todo esforço é válido porque é necessário.

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10 Mandamentos para o carnívoro

Por Alison Green. Tradução de Mirian M. Costa.

Concluí, após cuidadosa análise, que comer carne era incompatível com meus valores, apesar de adorar carne e não gostar muito de verduras. Eu tinha certeza que minhas papilas gustativas iam se rebelar, talvez manter um ou dois brotos de feijão como reféns em minha boca até que eu pagasse o resgate com um hambúrguer ou um pedacinho de bacon.

Felizmente, não aconteceu bem como eu esperava, meu maior problema como vegetariana não foi a comida — que descobri ser deliciosa e tão satisfatória como a carne — mas as atitudes desconcertantes de minha família e dos amigos. Outros vegetarianos fazem as mesmas reclamações: os olhares estranhos, as perguntas tolas, os interrogatórios pouco amistosos. Parece que os vegetarianos —12 milhões só nos Estados Unidos, e aumentando a cada dia — são uma minoria na verdade tristemente mal compreendida. Assim, eu bolei dez simples mandamentos para os carnívoros usarem em seus contatos com os vegetarianos:

Não pense que os vegetarianos são espartanos que se alimentam de cenouras cruas e brotos de feijão.

A pergunta que mais ouço é “O que você come?” Esta me deixa desconcertada; o que pode responder uma pessoa que tem uma dieta razoavelmente variada? Eu como espaguete, refogados, humus, cozidos, sorvete de framboesa, minestrone, saladas, burritos de feijão, bolo de gengibre, lentilha, lasanha, espetinhos de tofu, waffles, hambúrgueres vegetarianos, alcachofras, tacos, bagels, arroz com açafrão, musselina de limão, risoto de cogumelos silvestres — o que você come?

Aprenda um pouco de biologia.

Eu ainda não sei bem o que fazer com pessoas que são inteligentes sob outros aspectos mas acham que uma galinha não é um animal. Só para constar, vegetarianismo significa não consumir carne vermelha, aves, ou peixe — nada que tenha um rosto. Já perdi a conta das vezes em que garçons sugeriram um prato de frutos do mar como entrada “vegetariana”.

Principalmente se as pessoas forem vegetarianas por razões éticas, não julgue que elas não se importarão com “só um pouquinho” de carne em sua refeição.

Você aceitaria “só um pouquinho” de seu gato, ou “um bocadinho” do Tio Jim em sua sopa?

Deixe de fazer lobby para a indústria da carne.

Parece que os carnívoros pensam que os vegetarianos são como as pessoas que fazem regime e que nós queremos trapacear de vez em quando. Meu pai tem certeza de que se ele conseguir me convencer que sua carne enlatada é uma delícia, eu vou ceder e comê-la. Amigos tentam me fazer experimentar “só um pedacinho” de qualquer prato com carne que eles estejam comendo, partindo da premissa de que é tão bom que é impossível que eu recuse. Há vezes em que penso que os carnívoros aprenderam a fazer pressão com os caras malvados dos filmes anti-drogas que nós assistíamos no ginásio. Ouçam bem: não precisam insistir dizendo que é “ótimo”, nós não vamos comer.

Quando um vegetariano fica doente, não diga a ele ou a ela que está desnutrido.

Dos comentários que ouvi quando tive gripe, vocês pensariam que os carnívoros nunca ficam doentes. Quando eu fico doente, tem sempre alguém esperando para me dizer que é por causa da minha dieta. Na verdade, da mesma forma que existem carnívoros saudáveis e doentes, há vegetarianos saudáveis e doentes.  (Por falar nisso, estudos demonstraram que os vegetarianos tem o sistema imunológico mais resistente do que os carnívoros.)

Quando estiverem em um restaurante com um vegetariano, tenham paciência — comer fora pode ser um desafio mesmo para o mais consumado vegetariano.

Apesar da aceitação em voga da dieta à base de vegetais, a maior parte dos cardápios de restaurantes ainda está repleta de produtos animais. Alguns restaurantes parecem não ter nada a não ser carne em seus cardápios; mesmo as saladas têm ovos ou frango! Não reclamem se seus esforços para determinar os ingredientes exatos do minestrone parecerem paranóia; a experiência nos ensinou que esses interrogatórios à mesa são necessários. Após anos interrogando garçons e garçonetes, descobri que itens descritos como vegetarianos muitas vezes contém caldo de galinha, banha, ovos, ou outros ingredientes animais.

Não façam caretas para nossos alimentos.

Antes de torcerem o nariz para meu cachorro-quente de soja ou para o tofu, pensem naquilo que vocês estão comendo. Só porque se alimentar de animais é amplamente aceito, isso não significa que não seja uma grosseria.

Percebam que nós provavelmente já ouvimos isso antes.

Uma das coisas mais engraçadas sobre ser veg é a pessoa que tem certeza de ter o argumento que vai mudar minha maneira de pensar. Quase que invariavelmente vêem como uma destas jóias:

(a) “Animais comem outros animais, portanto porque os seres humanos não o fariam?”

(Resposta: A maior parte dos animais que mata para se alimentar não sobreviveria se não o fizesse.  Esse obviamente não é o caso com os seres humanos. E desde quando usamos os animais como exemplo de comportamento?)

(b) “Nossos ancestrais comiam carne.”

(Resposta: Talvez — mas eles também moravam em cavernas, conversavam aos grunhidos, e tinham escolhas muito limitadas de estilo de vida. Supõe-se que nós já tenhamos evoluído desde aquela época.)

Apesar da opinião popular, vocês não têm o direito de esperar que os vegetarianos transijam convicções pessoais em nome da “cortesia”.

Pessoas que nunca sonhariam em convidar um alcoólatra recuperado para experimentar sua vodca preferida, ou em querer que alguém que levasse uma vida kosher aceitasse um pouco de bacon, acham perfeitamente razoável esperar que eu coma o bolo de carne da tia Maria porque eu o adorava quando criança e ela ficaria muito ofendida se eu não aceitasse um pouco agora.

Parem de dizer que os seres humanos “precisam” comer carne;

Nós somos a prova viva de que não precisam. Pessoas que sob outros aspectos respeitam minha capacidade de me cuidar recusam-se a acreditar que não tomei a decisão de me tornar vegetariana impulsivamente. Eu fiz muita pesquisa sobre o vegetarianismo — provavelmente mais do que vocês fizeram sobre dieta e nutrição — e estou confiante da escolha que fiz. Vocês conhecem os estudos que demonstram que os carnívoros tem duas vezes mais possibilidade de morrer de problemas cardíacos, 60% mais chance de morrer de câncer e 30% a mais de possibilidade de morrer de outras doenças? Eu não estaria comendo desta maneira se uma extensa pesquisa não tivesse me convencido de que o vegetarianismo é mais saudável e mais ético do que comer carne; uma pergunta mais pertinente seria se você pode justificar a sua dieta. 

Fonte: encontrei aqui.

E vamos nós de novo

…falar sobre aquele lance de ser e não ser vegetariano, ou melhor, ser vegetariano só da boca pra fora.

Pois então, acabei comprando um livro que versa sobre esse dilema. Caiu na minha mesa uma resenha sobre o “Comer animais”, de um sujeito de nome engraçado, Jonathan Safran Foer. Até então, ele era conhecido por duas boas ficções, mas de repente resolveu lançar esse livro contando sobre o dilema alimentício que passou com a chegada de um filho.

Li um trecho do livro, gostei, tá encomendado. Parece ser uma mistura de reportagem com reflexão filosófica e reminiscências da infância. Você sabe, aqueles textos bem pessoais, despretensiosos e que são gostosos de ler. Como esses que você encontra aqui 🙂

Vegetarianismo é um tema espinhoso. Só de ouvir a palavra, muitos já sobem as guardas e soltam as piadas. Assim como um ex-fumante chato ou um ecochato, um vegetariano militante também é igualmente odiado. Ninguém quer ser catequizado, não é?

Quando parei de fumar fiquei com meu olhar superior pairando sobre todos os fumantes a minha volta durante algum tempo, mas aos poucos fui suprimindo esse sentimento nocivo. Também tento resistir ao velho “bom pra mim, bom pra você” e ficar agarrando o braço de todo fumante e falar sobre as benesses de ter os pulmões limpos como uma esponja nova. Mas não é fácil, porque é uma tendência humana querer compartilhar o que consideramos bom pra nós. Obviamente, os mais próximos são os principais alvos no nosso proselitismo.

Enfim, é preciso ter paciência. Você precisa ter paciência, manolo. Com os ecochatos, vegetarianos e ex-fumantes. E também comigo.

Leia essas resenhas do livro, caso tenha ficado interessado. Uma da Folha, uma do Estadão e uma do iG.

“A pior parte foi perto do fim. Um monte de gente morreu bem no fim, e eu não sabia se ia conseguir sobreviver por mais um dia. Um fazendeiro, um russo, que Deus o abençoe, viu meu estado, correu até sua casa e voltou com um pedaço de carne para mim.”
– Ele salvou sua vida.
– Eu não comi.
– Não comeu?
– Era porco. Eu não ia comer porco.
– Por quê?
– Como assim, por quê?
– Porque não era kosher, é isso?
– Claro.
– Mas nem mesmo para salvar a sua vida?
– Se nada importa, não há nada a salvar.

A vantagem de ser vegetariano é que você pode se tornar totalmente um super vilão.