Sobre leis e salsichas

Todo esse caso da carne adulterada produzida pelas famílias Batista (Friboi/JBS) e Diniz (BR Foods) causou um enorme furor. Praticamente toda carne que o brasileiro come vem dessas duas empresas. Sadia, Perdigão, Seara etc. são todas marcas que pertencem a esses grupos.

Começou então uma batalha nas redes sociais entre comedores de carne furiosos e uns poucos vegetarianos e veganos que se arriscaram a dar umas risadas públicas com a situação.

Lembro aos amigos veganos que ser sensível a dor dos animais sem ser sensível a dor de barriga do próximo não condiz com a conduta de vida das Testemunhas de Jeovegan.

Ok, ponto final aqui.

Eu entendo a indignação das pessoas. Imagino que descobrir de repente que a comida que está alimentando meus filhos está sendo maquiada com aditivos químicos perigosos não é nada engraçado. Eu lamento pelos meus amigos e pela minha família.

Mas, a priori, você é responsável pelo que põe na própria boca e na boca dos seus filhos. E não é o ataque a pessoa física que vai resolver o problema. E se você confia na palavra de empresas, atores famosos e agências de inspeção do governo, é melhor parar de fazer isso o quanto antes. A qualidade e saudabilidade (existe essa palavra?) do alimento está diretamente ligada ao modo como ele é produzido. Se você não tem a mínima ideia de como sua comida é feita, tem duas alternativas: 1) continuar sem saber e confiar na auto regulação do mercado e na competência do governo ou 2) tentar descobrir e tomar decisões a partir daí.

Um sujeito chamado Jonathan, preocupado ao ficar sabendo que logo seria pai, resolveu seguir a opção 2 e pesquisar um pouco sobre como é produzida a carne que alimentaria seu filho. O resultado da pesquisa acabou virando um livro. Comer animais, de Jonathan Safran Foer, é um estudo minucioso da produção de carne nos EUA (que define o rumo da indústria no mundo). Um livro escrito em primeira pessoa, de forma leve, eu diria até bem humorada, bastante imparcial e sem um pingo de radicalismo, recheado de dados e fontes mas com linguagem simples e direta.

Recomendo a leitura. Caso tenha se interessado, tem pra vender na Amazon ou você pode encontrar em formato epub “livre” na web.

Abaixo reproduzo um trecho particularmente interessante que mostra bem a sanha da indústria de carne em produzir e lucrar sempre mais gastando menos. E como o governo, qualquer governo, cumpre seu papel de vassalo. Isso não é novo e não está evoluindo para melhor ou para o bem comum, tenha isso em mente. Não é o trecho mais leve do livro mas é o único que resume o processo do começo ao fim.

Leia se quiser ou não leia, a escolha é sua. Só não venha me encher o saco enquanto dou minhas gostosas risadas.

A vida e a morte de uma ave

A segunda propriedade rural que visitei com C estava organi­zada numa série de vinte galpões, cada um deles com 13 metros de largura por 150 de comprimento e abrigando um número aproxi­mado de 33 mil aves. Eu não tinha uma fita métrica comigo e nem condições de fazer qualquer coisa semelhante a uma contagem de cabeças. Mas posso fornecer esses números com confiança porque tais dimensões são típicas na indústria aviária — embora alguns criadores estejam agora construindo galpões maiores: de até de­zoito por 154 metros, abrigando cinquenta mil aves ou mais.

É difícil visualizar a magnitude de 33 mil aves num mesmo am­biente. Não precisa ver por si mesmo, nem sequer fazer as contas, para entender que as coisas por ali ficam bastante amontoadas. Em suas Normas para o Bem-Estar Animal, o National Chicken Council (Associação Nacional do Frango) indica a densidade de criação apropriada de oito décimos de um pé quadrado por ave (equivale aproximadamente a 743 centímetros quadrados. Uma folha A4 mede 623,7 centímetros quadrados). É isso o que uma das principais organizações representantes dos produtores de frango considera bem-estar animal, o que nos mos­tra o quão completamente cooptadas as ideias do que seja bem-estar se tornaram — e por que não podemos confiar nos rótulos que vêm de todos os lugares, exceto de uma terceira fonte confiável.

Vale a pena parar aqui por um instante. Embora muitos ani­mais vivam com bem menos, vamos partir do pressuposto de menos de um pé quadrado. Tente visualizar. (É improvável que algum dia você veja pessoalmente o interior de uma granja, mas há muitas imagens na internet se a sua imaginação precisar de ajuda.) Pegue um pedaço de folha A4 para impressora e imagine uma ave adulta, com formato semelhante ao de uma bola de fu­tebol americano com patas, de pé sobre a folha de papel. Imagine 33 mil desses retângulos numa grade. (Frangos de corte nunca ficam em gaiolas e nunca em vários níveis.) Agora, coloque a grade dentro de paredes sem janelas, com um ventilador no teto. Insira nesse cenário sistemas de alimentação (guarnecida com drogas), água, aquecimento e ventilação. Isso é uma granja.

Agora, vamos à maneira como as coisas são feitas.

Primeiro, encontre uma galinha que cresça rápido com o mí­nimo de comida possível. Os músculos e tecidos de gordura dos frangos de corte projetados recentemente crescem bem mais do que seus ossos, levando a deformidades e doenças. Algo entre 1 e 4% dessas aves morrerão retorcendo-se em convulsões devido à síndrome da morte súbita, uma doença quase desconhecida fora das granjas de criação intensiva. Outra doença induzida por essas granjas industriais, em que o excesso de fluidos enche a cavidade corporal, a ascite, mata ainda mais (5% das aves do mundo). Três a cada quatro aves terão algum grau de defeito ao caminhar, e o senso comum sugere que sentem dor crônica. Uma a cada qua­tro terá tantos problemas ao caminhar que não há dúvidas de que sentirá dor.

Para os frangos de corte, deixe as luzes acesas cerca de 24 horas por dia durante a primeira semana de vida dos pintos, mais ou menos. Isso os encoraja a comer mais. Depois, apague as luzes um pouco, dando-lhes cerca de quatro horas de escuridão por dia — sono suficiente para que sobrevivam. É claro que as galinhas enlouquecem se forem obrigadas a viver em condições tão antinaturais por muito tempo — as luzes, o modo como ficam comprimi­das e o fardo de seus corpos grotescos. Pelo menos, os frangos de corte em geral são abatidos no 42º dia de vida (ou, cada vez mais, no 39º), então ainda não estabeleceram hierarquias sociais pelas quais brigar.

Desnecessário dizer que aves comprimidas, deformadas, dro­gadas e com estresse demais num lugar fechado, imundo e for­rado de excrementos não vivem em situação muito saudável. Além das deformidades, danos aos olhos, cegueira, sangramento interno, infecção bacteriana dos ossos, vértebras deslocadas, pa­tas e pescoços tortos, doenças respiratórias e sistema imunológico enfraquecido são problemas frequentes e duradouros em granjas industriais. Estudos científicos e registros do governo sugerem que praticamente todas as galinhas (mais de 95%) acabam infec­tadas pela E. coli (um indicador de contaminação fecal), e entre 39 e 75% delas ainda continuarão infectadas na comercialização. Cerca de 8% das aves têm infecção por salmonela (menos do que anos atrás, quando pelo menos uma em cada quatro aves era in­fectada, o que ainda ocorre em algumas criações). Entre 70 e 90% são infectadas por outro patógeno potencialmente mortal, o campilobacter. Banhos de cloro são comumente usados para remover o muco, o odor e as bactérias.

Claro, os consumidores talvez percebam que o sabor de suas galinhas não anda muito bom — e como poderia um animal entu­pido de drogas, doente e contaminado por merda ter gosto bom? —, mas “caldos” e soluções salinas serão nelas injetados, coloca­dos de algum modo, no interior de seus corpos, para deixá-los com o que passamos a considerar o aspecto, o cheiro e o gosto da galinha. (Um estudo recente da Costumer Reports descobriu que produtos feitos com carne de galinha e de peru, muitos deles rotulados como naturais, “continham de 10 a 30% de seu peso em caldo, condimentos ou água”.)

Terminada a etapa da criação, é chegada a hora do “processa­mento”.

Em primeiro lugar, você vai ter que encontrar empregados para colocar as aves em engradados e manter o ritmo da produção que irá transformar as aves vivas e íntegras em pedaços embru­lhados com plástico. Precisará estar sempre procurando empre­gados, já que a taxa anual de rotatividade de pessoal excede 100%. (As entrevistas que fiz sugerem que fica em torno de 150%.) Dá-se preferência a imigrantes ilegais, mas imigrantes pobres que não falem inglês também são desejáveis. Pelos padrões da comu­nidade internacional, as condições de trabalho típicas dos abatedouros americanos constituem violação dos direitos humanos; para você, elas constituem uma forma crucial de produzir carne barata e alimentar o mundo. Pague a seus funcionários um salário mínimo, ou perto disso, para juntar as aves — segurando cinco em cada mão, de cabeça para baixo, pelas pernas — e amontoe-as em engradados para o transporte.

Se sua linha de produção funciona na velocidade adequada — 105 frangos postos em engradados por um único trabalhador em 3,5 minutos é a média esperada, segundo vários apanhadores que entrevistei —, as aves serão manipuladas sem cuidados e, como também me contaram, os trabalhadores com frequência sentem os ossos das aves se partindo em suas mãos. (Cerca de 30% de to­das as aves vivas que chegam ao abatedouro têm ossos que acaba­ram de se partir, como resultado de sua genética de Frankenstein e do tratamento descuidado.) Nenhuma lei as protege, mas é claro que há leis sobre como você pode tratar os empregados, e esse tipo de trabalho tende a deixá-los com dores durante vários dias seguidos, então, mais uma vez, certifique-se de que as pes­soas que contrata não terão condições de reclamar. Pessoas como “Maria”, empregada de uma das maiores processadoras de fran­gos na Califórnia, com quem passei uma tarde. Depois de mais de quarenta anos de trabalho e cinco cirurgias devido a problemas físicos relacionados ao trabalho, Maria já não consegue usar as mãos nem para lavar pratos. Sente tanta dor o tempo inteiro que passa as noites com os braços mergulhados em água com gelo e, com frequência, não consegue dormir sem remédios. Recebe oito dólares por hora, e pediu que eu não usasse seu nome verdadeiro, com medo de represálias.

Coloque os caixotes em caminhões. Ignore extremos climáticos e não dê comida nem água às aves, mesmo que o abatedouro este­ja a centenas de quilômetros dali. Ao chegar ao abatedouro, faça mais funcionários pegarem as aves, pendurá-las de cabeça para baixo pelas patas em grilhões de metal, colocando-as numa es­teira transportadora. Mais ossos serão quebrados. Com frequên­cia, os gritos das aves e o barulho de suas asas batendo serão tão fortes, que os trabalhadores não conseguirão escutar a pessoa que estiver a seu lado na linha de abate. Com frequência, as aves vão defecar de dor e pavor.

A esteira transportadora arrasta as aves por uma banheira de água eletrificada. Isso provavelmente as paralisa, mas não as tor­na insensíveis. Outros países, incluindo vários países europeus, requerem (legalmente, pelo menos) que as galinhas fiquem in­conscientes ou sejam mortas antes da sangria e do escaldamento. Nos Estados Unidos, onde a interpretação do USDA da Lei dos Métodos Humanitários de Abate exclui o abate de aves, a voltagem é mantida baixa — cerca de um décimo do nível necessário para deixar os animais inconscientes. Depois de passar pelo ba­nho, os olhos de uma ave paralisada talvez ainda se movam. As vezes, elas terão suficiente controle do corpo para abrir devagar o bico, como se tentassem gritar.

O passo seguinte na linha de abate para a ave imobilizada-porém-consciente será um cortador automático de pescoço. A me­nos que as artérias principais não sejam atingidas, o sangue vai se esvair devagar. De acordo com outro trabalhador com o qual fa­lei, isso acontece “o tempo todo”. Então, mais alguns trabalhado­res são necessários para atuar como reservas no abate — “matado­res” — que cortam o pescoço das aves que a máquina não cortou. A menos que eles também não consigam cortá-los, o que, pelo que me falaram, acontece igualmente “o tempo todo”. Segundo o National Chicken Council — representantes da indústria —, cer­ca de 180 milhões de galinhas são abatidas de modo inadequado a cada ano. Quando lhe perguntaram se esses números o inco­modavam, Richard L. Lobb, o porta-voz do conselho, suspirou: “O processo termina em questão de minutos.”

Falei com numerosos funcionários responsáveis por apanhar os frangos, pendurá-los e matá-los que descreveram aves vivas e conscientes indo para o tanque de escaldamento. (Estimativas do governo obtidas através da Lei da Liberdade de Informação su­gerem que isso acontece com quatro milhões de aves a cada ano.) Já que fezes na pele e nas penas terminam nos tanques, as aves saem cheias de patógenos que podem ter inalado ou absorvido através da pele (a água quente dos tanques ajuda a abrir os poros).

Depois que as cabeças das aves são arrancadas e seus pés, re­movidos, máquinas as abrem com uma incisão vertical e removem suas entranhas. A contaminação com frequência acontece nessa etapa, já que as máquinas de alta velocidade comumente rasgam os intestinos das aves, liberando fezes para o interior da cavidade corporal. No passado, inspetores do USDA tinham que conde­nar qualquer ave com qualquer tipo de contaminação fecal. Mas, há cerca de trinta anos, a indústria aviária convenceu o USDA a reclassificar fezes para poder continuar usando esses evisceradores mecânicos. Outrora um agente perigoso de contaminação, as fezes agora são classificadas como “defeitos cosméticos”. Como resultado, os inspetores condenam metade dos animais que con­denariam. Talvez Lobb e o National Chicken Council apenas suspirem e digam: “As pessoas acabam por eliminar as fezes em questão de minutos.”

Em seguida, as aves são inspecionadas por um oficial do USDA, cuja função aparentemente é manter o consumidor a salvo. O ins­petor tem mais ou menos dois segundos para examinar cada ave por dentro e por fora, tanto a carcaça quanto os órgãos, em bus­ca de mais de uma dúzia de diferentes doenças e anormalidades suspeitas. Ele, ou ela, inspeciona 25 mil aves por dia. O jornalista Scott Bronstein escreveu para o Atlanta Journal-Constitution uma série notável sobre a inspeção de aves, que devia ser leitura obri­gatória para todo mundo que considera a hipótese de comer gali­nha. Ele entrevistou quase cem inspetores do USDA em 37 abatedouros. “A cada semana”, relata, “milhões de galinhas com pus amarelo escorrendo, manchadas por fezes verdes, contaminadas por bactérias nocivas ou prejudicadas por infecções pulmonares e cardíacas, tumores cancerígenos ou problemas de pele são envia­das aos consumidores.”

Em seguida, as galinhas vão para um imenso tanque refrige­rado, onde milhares de aves são resfriadas, em conjunto, na água. Tom Devine, do Government Accountability Project (Projeto de Responsabilidade Governamental), disse que “a água nesses tan­ques foi apropriadamente chamada de ‘sopa fecal’, devido a toda a imundície e bactérias que flutuam ali. Ao imergir aves limpas e saudáveis no mesmo tanque com as sujas, você está praticamente assegurando a contaminação”.

Enquanto um número significativo de processadores de aves europeus e canadenses empregam sistemas de resfriamento a ar, 99% dos produtores de aves nos Estados Unidos permanecem com seus sistemas de imersão e enfrentam processos tanto dos consumidores quanto da indústria da carne bovina para conti­nuar com o uso antiquado do resfriamento pela água. Não é difícil descobrir por quê. O resfriamento a ar reduz o peso da carcaça, enquanto o resfriamento pela água a deixa encharcada (da mesma água conhecida como “sopa fecal”). Um estudo revelou que o mero ato de embalar as carcaças das galinhas em sacos plásticos durante o processo de resfriamento eliminaria a contaminação. Mas isso também eliminaria uma oportunidade para a indústria transformar água suja em peso adicional na comercialização das aves, num valor de dezenas de milhões de dólares.

Não faz muito tempo, havia um limite de 8%, estabelecido pelo USDA, de quanto líquido absorvido podia ser incluído no preço de carne ao consumidor antes que o governo tomasse uma atitude. Quando isso se tornou de conhecimento público, na dé­cada de 1990, houve um compreensível clamor. Os consumidores processaram a prática, que lhes parecia não apenas repulsiva mas uma adulteração. Os tribunais concluíram que a regra dos 8% era “arbitrária e extravagante”.

Ironicamente, porém, a interpretação do USDA das determi­nações legais permitiu que a indústria de frangos fizesse suas pró­prias pesquisas para avaliar qual o percentual de carne que devia ser composto de água suja e clorada. (Esse é um resultado bastan­te comum quando se desafia a indústria do agronegócio.) Após consulta à indústria, a nova lei permite um pouco mais de 11% de absorção de líquido (o percentual exato é indicado em letras miúdas na embalagem — dê uma olhada da próxima vez). Assim que a atenção do público se deslocou para outra direção, a indús­tria de aves distorceu em seu próprio benefício regulamentos que deveriam proteger os consumidores.

Os consumidores dos Estados Unidos doam agora milhões de dólares adicionais aos grandes produtores de aves, a cada ano, como resultado desse líquido adicionado. O USDA sabe e defende a prática. Afinal, os processadores de aves estão, como tantos criadores de granjas industriais gostam de dizer, apenas fazendo o melhor possível para “alimentar o mundo”. (Ou, nesse caso, ga­rantir sua hidratação.)

O que descrevi não é excepcional. Não é o resultado de trabalha­dores masoquistas, de maquinário defeituoso ou de “maçãs po­dres”. É a regra. Mais de 99% de todas as galinhas vendidas por sua carne nos Estados Unidos vivem e morrem desse jeito.

Em muitos aspectos, os sistemas de granjas industriais podem variar consideravelmente, por exemplo, no percentual de aves es­caldadas vivas por acidente durante o processo, ou na quantidade de sopa fecal que seus corpos absorvem. Trata-se de diferenças significativas. Em outros aspectos, porém, granjas industriais — bem ou mal administradas, com animais criados soltos ou não — são basicamente as mesmas: todas as aves vêm de bandos gené­ticos frankensteinianos; todas são confinadas; nenhuma desfruta da brisa ou do calor do sol; nenhuma tem condições de dar vazão a todos os traços de comportamento característicos de sua espécie (em geral, não tem condições de dar vazão a nenhum deles), como fazer ninho, empoleirar-se, explorar seu ambiente e for­mar unidades sociais estáveis; as doenças são sempre em enorme quantidade; o sofrimento é sempre a regra; os animais são sempre apenas uma unidade, um peso; a morte é invariavelmente cruel. Essas similaridades importam mais do que as diferenças.

A vastidão da indústria aviária significa que, se há alguma coisa errada com o sistema, há alguma coisa terrivelmente errada com nosso mundo. Hoje, anualmente, seis bilhões de galinhas são criadas mais ou menos nessas condições na União Européia, mais de nove bilhões, na América, e mais de sete bilhões, na China. A população da Índia, superior a um bilhão, consome muito pou­ca carne de frango per capita, mas o total ainda soma um bilhão de aves criadas em granjas industriais por ano, e esse número está aumentando, assim como na China, a taxas agressivas e global­mente significativas (com frequência o dobro do crescimento da indústria aviária nos Estados Unidos, que aumenta rapidamen­te). No total, são cinquenta bilhões de aves em granjas industriais no mundo, e o número está aumentando. Se a Índia e a China em algum momento começarem a consumir frangos nos níveis em que os Estados Unidos os consomem, isso elevaria a mais do que o dobro esse número já estarrecedor.

Cinquenta bilhões. A cada ano, cinquenta bilhões de aves são obrigadas a viver e morrer desse jeito. Não se pode subestimar o quão revolucionária e relativamente nova é essa realidade — o número de aves criadas em granjas industriais era zero antes da experiência de Celia Steele em 1929. E não estamos apenas crian­do galinhas de um jeito diferente; estamos comendo mais gali­nhas: os americanos comem 150 vezes mais aves do que comiam há apenas oitenta anos.

Outra coisa que poderíamos dizer sobre esses cinquenta bi­lhões é que são calculados com a maior meticulosidade. Os esta­tísticos que geram a cifra de nove bilhões nos Estados Unidos a decompõem por mês, por estado e pelo peso da ave, e a comparam — todos os meses, sem exceção — ao número de aves abatidas um ano antes. Esses números são estudados, debatidos, projetados e praticamente reverenciados como objeto de culto pela indústria. Não são meros dados, mas o anúncio de uma vitória.

(Comer animais, Jonathan Safran Foer, Editora Rocco, 2009, páginas 133-141)

 

Estou lendo

um livro chamado “Apocalipse motorizado”, que caiu na minha mesa vindo não sei de onde. É uma coletânea de ensaios de vários autores e está recheado de textos politizados de esquerda, aquele papo de burguesia, capitalismo, classe social, essas coisas, mas sendo que o tema gira em torno de motivos para se destruir todos os malditos carros e transformar a bicicleta na salvação da humanidade, o conteúdo é bem interessante.

 

Abaixo, transcrevo um trecho significativo. Leia e concorde conosco.

 

Suspender os transportes abriria um caminho para sua alforria. Não mais limitado pela racionalidade do tráfego, da repetição diária, do tempo, da economia e, sobretudo, da segurança. Não mais através da devastação sem vida, do horroroso vazio, todas as viagens poderiam tornar-se prazerosas, mesmo que triviais. Toda locomoção poderia ser um passeio.

Enquanto escrevia este texto, as macieiras silvestres do lado de fora de minha janela foram cortadas pela administração pública porque os motoristas achavam um incômodo encontrar frutas derrubadas pelo vento em seus capôs. É surpreendente que você gaste tanto tempo limpando e polindo máquinas que tornam todo o resto ao alcance de sua vista uma imundice fedida. Macieiras silvestres não são um incômodo. Os carros são um incômodo. Sem carros poderíamos ter árvores em toda parte: limeiras, cajueiros, amieiros, uma fila de álamos-pretos em vez da Radial Leste, grandes carvalhos em vez do Minhocão. De onde você acha que vem o oxigênio afinal? Da merda do escapamento do seu carro?

 

Faça a conexão

Ah, adoro o cheiro de napalm pela manhã! Para começar muito bem a semana, assista esse filme.

Terráqueos (Earthlings, EUA, 2005) é um documentário que vai fundo na questão da dependência humana em relação aos animais, mostrando coisas que uma pessoa comum e inocente nem imagina que existam.

O filme é narrado pelo famoso Joaquin Phoenix, com trilha sonora de Moby.

Polêmico e recheado de imagens fortes, esse filme não foi feito para deixar você melindrado, e sim para provocar reflexão. A palavra-chave no filme é “lucro, lucro, lucro”, faça a conexão. Garanto que é bem mais emocionante que Avatar. Depois de assistí-lo fiquei algum tempo matutando, indeciso entre meter uma bala na minha cabeça ou sair por aí metendo bala na geral. Vegetarianismo seria uma opção se não fosse tão difícil.

 

Toda verdade passa por três estágios: no primeiro ela é ridicularizada, no segundo é rejeitada com violência, e no terceiro é aceita como evidente por si própria. Arthur Schopenhauer

 

Se você é do tipo que não perde um churrasco nem pra ir no enterro do irmão e não liga pra cor do boi, nem assista. Se você cuida do seu gatinho ou cãozinho como se fosse seu filho, assista. Se você é vegetariano militante, já deve ter assistido, e se você é fdp já viu pra poder dar risada depois.

Enfim, assista, mas de mente aberta e estômago vazio.

O filme faz parte de uma trilogia. O produtor, escritor e diretor do filme, Shaun Monson, está trabalhando na parte dois.

“Impactante, informativo e provocante, TERRÁQUEOS é de longe o mais completo documentário jamais produzido sobre a conexão entre natureza, animais, e interesses econômicos. Há vários filmes importantes sobre os direitos dos animais, mas este supera todos. TERRÁQUEOS tem que ser assistido, é altamente recomendado!”

Assista o filme completo, legendado e sem cortes aqui:

Fonte: http://veg-tv.info/Earthlings
http://www.earthlings.com/