Sobre leis e salsichas

Todo esse caso da carne adulterada produzida pelas famílias Batista (Friboi/JBS) e Diniz (BR Foods) causou um enorme furor. Praticamente toda carne que o brasileiro come vem dessas duas empresas. Sadia, Perdigão, Seara etc. são todas marcas que pertencem a esses grupos.

Começou então uma batalha nas redes sociais entre comedores de carne furiosos e uns poucos vegetarianos e veganos que se arriscaram a dar umas risadas públicas com a situação.

Lembro aos amigos veganos que ser sensível a dor dos animais sem ser sensível a dor de barriga do próximo não condiz com a conduta de vida das Testemunhas de Jeovegan.

Ok, ponto final aqui.

Eu entendo a indignação das pessoas. Imagino que descobrir de repente que a comida que está alimentando meus filhos está sendo maquiada com aditivos químicos perigosos não é nada engraçado. Eu lamento pelos meus amigos e pela minha família.

Mas, a priori, você é responsável pelo que põe na própria boca e na boca dos seus filhos. E não é o ataque a pessoa física que vai resolver o problema. E se você confia na palavra de empresas, atores famosos e agências de inspeção do governo, é melhor parar de fazer isso o quanto antes. A qualidade e saudabilidade (existe essa palavra?) do alimento está diretamente ligada ao modo como ele é produzido. Se você não tem a mínima ideia de como sua comida é feita, tem duas alternativas: 1) continuar sem saber e confiar na auto regulação do mercado e na competência do governo ou 2) tentar descobrir e tomar decisões a partir daí.

Um sujeito chamado Jonathan, preocupado ao ficar sabendo que logo seria pai, resolveu seguir a opção 2 e pesquisar um pouco sobre como é produzida a carne que alimentaria seu filho. O resultado da pesquisa acabou virando um livro. Comer animais, de Jonathan Safran Foer, é um estudo minucioso da produção de carne nos EUA (que define o rumo da indústria no mundo). Um livro escrito em primeira pessoa, de forma leve, eu diria até bem humorada, bastante imparcial e sem um pingo de radicalismo, recheado de dados e fontes mas com linguagem simples e direta.

Recomendo a leitura. Caso tenha se interessado, tem pra vender na Amazon ou você pode encontrar em formato epub “livre” na web.

Abaixo reproduzo um trecho particularmente interessante que mostra bem a sanha da indústria de carne em produzir e lucrar sempre mais gastando menos. E como o governo, qualquer governo, cumpre seu papel de vassalo. Isso não é novo e não está evoluindo para melhor ou para o bem comum, tenha isso em mente. Não é o trecho mais leve do livro mas é o único que resume o processo do começo ao fim.

Leia se quiser ou não leia, a escolha é sua. Só não venha me encher o saco enquanto dou minhas gostosas risadas.

A vida e a morte de uma ave

A segunda propriedade rural que visitei com C estava organi­zada numa série de vinte galpões, cada um deles com 13 metros de largura por 150 de comprimento e abrigando um número aproxi­mado de 33 mil aves. Eu não tinha uma fita métrica comigo e nem condições de fazer qualquer coisa semelhante a uma contagem de cabeças. Mas posso fornecer esses números com confiança porque tais dimensões são típicas na indústria aviária — embora alguns criadores estejam agora construindo galpões maiores: de até de­zoito por 154 metros, abrigando cinquenta mil aves ou mais.

É difícil visualizar a magnitude de 33 mil aves num mesmo am­biente. Não precisa ver por si mesmo, nem sequer fazer as contas, para entender que as coisas por ali ficam bastante amontoadas. Em suas Normas para o Bem-Estar Animal, o National Chicken Council (Associação Nacional do Frango) indica a densidade de criação apropriada de oito décimos de um pé quadrado por ave (equivale aproximadamente a 743 centímetros quadrados. Uma folha A4 mede 623,7 centímetros quadrados). É isso o que uma das principais organizações representantes dos produtores de frango considera bem-estar animal, o que nos mos­tra o quão completamente cooptadas as ideias do que seja bem-estar se tornaram — e por que não podemos confiar nos rótulos que vêm de todos os lugares, exceto de uma terceira fonte confiável.

Vale a pena parar aqui por um instante. Embora muitos ani­mais vivam com bem menos, vamos partir do pressuposto de menos de um pé quadrado. Tente visualizar. (É improvável que algum dia você veja pessoalmente o interior de uma granja, mas há muitas imagens na internet se a sua imaginação precisar de ajuda.) Pegue um pedaço de folha A4 para impressora e imagine uma ave adulta, com formato semelhante ao de uma bola de fu­tebol americano com patas, de pé sobre a folha de papel. Imagine 33 mil desses retângulos numa grade. (Frangos de corte nunca ficam em gaiolas e nunca em vários níveis.) Agora, coloque a grade dentro de paredes sem janelas, com um ventilador no teto. Insira nesse cenário sistemas de alimentação (guarnecida com drogas), água, aquecimento e ventilação. Isso é uma granja.

Agora, vamos à maneira como as coisas são feitas.

Primeiro, encontre uma galinha que cresça rápido com o mí­nimo de comida possível. Os músculos e tecidos de gordura dos frangos de corte projetados recentemente crescem bem mais do que seus ossos, levando a deformidades e doenças. Algo entre 1 e 4% dessas aves morrerão retorcendo-se em convulsões devido à síndrome da morte súbita, uma doença quase desconhecida fora das granjas de criação intensiva. Outra doença induzida por essas granjas industriais, em que o excesso de fluidos enche a cavidade corporal, a ascite, mata ainda mais (5% das aves do mundo). Três a cada quatro aves terão algum grau de defeito ao caminhar, e o senso comum sugere que sentem dor crônica. Uma a cada qua­tro terá tantos problemas ao caminhar que não há dúvidas de que sentirá dor.

Para os frangos de corte, deixe as luzes acesas cerca de 24 horas por dia durante a primeira semana de vida dos pintos, mais ou menos. Isso os encoraja a comer mais. Depois, apague as luzes um pouco, dando-lhes cerca de quatro horas de escuridão por dia — sono suficiente para que sobrevivam. É claro que as galinhas enlouquecem se forem obrigadas a viver em condições tão antinaturais por muito tempo — as luzes, o modo como ficam comprimi­das e o fardo de seus corpos grotescos. Pelo menos, os frangos de corte em geral são abatidos no 42º dia de vida (ou, cada vez mais, no 39º), então ainda não estabeleceram hierarquias sociais pelas quais brigar.

Desnecessário dizer que aves comprimidas, deformadas, dro­gadas e com estresse demais num lugar fechado, imundo e for­rado de excrementos não vivem em situação muito saudável. Além das deformidades, danos aos olhos, cegueira, sangramento interno, infecção bacteriana dos ossos, vértebras deslocadas, pa­tas e pescoços tortos, doenças respiratórias e sistema imunológico enfraquecido são problemas frequentes e duradouros em granjas industriais. Estudos científicos e registros do governo sugerem que praticamente todas as galinhas (mais de 95%) acabam infec­tadas pela E. coli (um indicador de contaminação fecal), e entre 39 e 75% delas ainda continuarão infectadas na comercialização. Cerca de 8% das aves têm infecção por salmonela (menos do que anos atrás, quando pelo menos uma em cada quatro aves era in­fectada, o que ainda ocorre em algumas criações). Entre 70 e 90% são infectadas por outro patógeno potencialmente mortal, o campilobacter. Banhos de cloro são comumente usados para remover o muco, o odor e as bactérias.

Claro, os consumidores talvez percebam que o sabor de suas galinhas não anda muito bom — e como poderia um animal entu­pido de drogas, doente e contaminado por merda ter gosto bom? —, mas “caldos” e soluções salinas serão nelas injetados, coloca­dos de algum modo, no interior de seus corpos, para deixá-los com o que passamos a considerar o aspecto, o cheiro e o gosto da galinha. (Um estudo recente da Costumer Reports descobriu que produtos feitos com carne de galinha e de peru, muitos deles rotulados como naturais, “continham de 10 a 30% de seu peso em caldo, condimentos ou água”.)

Terminada a etapa da criação, é chegada a hora do “processa­mento”.

Em primeiro lugar, você vai ter que encontrar empregados para colocar as aves em engradados e manter o ritmo da produção que irá transformar as aves vivas e íntegras em pedaços embru­lhados com plástico. Precisará estar sempre procurando empre­gados, já que a taxa anual de rotatividade de pessoal excede 100%. (As entrevistas que fiz sugerem que fica em torno de 150%.) Dá-se preferência a imigrantes ilegais, mas imigrantes pobres que não falem inglês também são desejáveis. Pelos padrões da comu­nidade internacional, as condições de trabalho típicas dos abatedouros americanos constituem violação dos direitos humanos; para você, elas constituem uma forma crucial de produzir carne barata e alimentar o mundo. Pague a seus funcionários um salário mínimo, ou perto disso, para juntar as aves — segurando cinco em cada mão, de cabeça para baixo, pelas pernas — e amontoe-as em engradados para o transporte.

Se sua linha de produção funciona na velocidade adequada — 105 frangos postos em engradados por um único trabalhador em 3,5 minutos é a média esperada, segundo vários apanhadores que entrevistei —, as aves serão manipuladas sem cuidados e, como também me contaram, os trabalhadores com frequência sentem os ossos das aves se partindo em suas mãos. (Cerca de 30% de to­das as aves vivas que chegam ao abatedouro têm ossos que acaba­ram de se partir, como resultado de sua genética de Frankenstein e do tratamento descuidado.) Nenhuma lei as protege, mas é claro que há leis sobre como você pode tratar os empregados, e esse tipo de trabalho tende a deixá-los com dores durante vários dias seguidos, então, mais uma vez, certifique-se de que as pes­soas que contrata não terão condições de reclamar. Pessoas como “Maria”, empregada de uma das maiores processadoras de fran­gos na Califórnia, com quem passei uma tarde. Depois de mais de quarenta anos de trabalho e cinco cirurgias devido a problemas físicos relacionados ao trabalho, Maria já não consegue usar as mãos nem para lavar pratos. Sente tanta dor o tempo inteiro que passa as noites com os braços mergulhados em água com gelo e, com frequência, não consegue dormir sem remédios. Recebe oito dólares por hora, e pediu que eu não usasse seu nome verdadeiro, com medo de represálias.

Coloque os caixotes em caminhões. Ignore extremos climáticos e não dê comida nem água às aves, mesmo que o abatedouro este­ja a centenas de quilômetros dali. Ao chegar ao abatedouro, faça mais funcionários pegarem as aves, pendurá-las de cabeça para baixo pelas patas em grilhões de metal, colocando-as numa es­teira transportadora. Mais ossos serão quebrados. Com frequên­cia, os gritos das aves e o barulho de suas asas batendo serão tão fortes, que os trabalhadores não conseguirão escutar a pessoa que estiver a seu lado na linha de abate. Com frequência, as aves vão defecar de dor e pavor.

A esteira transportadora arrasta as aves por uma banheira de água eletrificada. Isso provavelmente as paralisa, mas não as tor­na insensíveis. Outros países, incluindo vários países europeus, requerem (legalmente, pelo menos) que as galinhas fiquem in­conscientes ou sejam mortas antes da sangria e do escaldamento. Nos Estados Unidos, onde a interpretação do USDA da Lei dos Métodos Humanitários de Abate exclui o abate de aves, a voltagem é mantida baixa — cerca de um décimo do nível necessário para deixar os animais inconscientes. Depois de passar pelo ba­nho, os olhos de uma ave paralisada talvez ainda se movam. As vezes, elas terão suficiente controle do corpo para abrir devagar o bico, como se tentassem gritar.

O passo seguinte na linha de abate para a ave imobilizada-porém-consciente será um cortador automático de pescoço. A me­nos que as artérias principais não sejam atingidas, o sangue vai se esvair devagar. De acordo com outro trabalhador com o qual fa­lei, isso acontece “o tempo todo”. Então, mais alguns trabalhado­res são necessários para atuar como reservas no abate — “matado­res” — que cortam o pescoço das aves que a máquina não cortou. A menos que eles também não consigam cortá-los, o que, pelo que me falaram, acontece igualmente “o tempo todo”. Segundo o National Chicken Council — representantes da indústria —, cer­ca de 180 milhões de galinhas são abatidas de modo inadequado a cada ano. Quando lhe perguntaram se esses números o inco­modavam, Richard L. Lobb, o porta-voz do conselho, suspirou: “O processo termina em questão de minutos.”

Falei com numerosos funcionários responsáveis por apanhar os frangos, pendurá-los e matá-los que descreveram aves vivas e conscientes indo para o tanque de escaldamento. (Estimativas do governo obtidas através da Lei da Liberdade de Informação su­gerem que isso acontece com quatro milhões de aves a cada ano.) Já que fezes na pele e nas penas terminam nos tanques, as aves saem cheias de patógenos que podem ter inalado ou absorvido através da pele (a água quente dos tanques ajuda a abrir os poros).

Depois que as cabeças das aves são arrancadas e seus pés, re­movidos, máquinas as abrem com uma incisão vertical e removem suas entranhas. A contaminação com frequência acontece nessa etapa, já que as máquinas de alta velocidade comumente rasgam os intestinos das aves, liberando fezes para o interior da cavidade corporal. No passado, inspetores do USDA tinham que conde­nar qualquer ave com qualquer tipo de contaminação fecal. Mas, há cerca de trinta anos, a indústria aviária convenceu o USDA a reclassificar fezes para poder continuar usando esses evisceradores mecânicos. Outrora um agente perigoso de contaminação, as fezes agora são classificadas como “defeitos cosméticos”. Como resultado, os inspetores condenam metade dos animais que con­denariam. Talvez Lobb e o National Chicken Council apenas suspirem e digam: “As pessoas acabam por eliminar as fezes em questão de minutos.”

Em seguida, as aves são inspecionadas por um oficial do USDA, cuja função aparentemente é manter o consumidor a salvo. O ins­petor tem mais ou menos dois segundos para examinar cada ave por dentro e por fora, tanto a carcaça quanto os órgãos, em bus­ca de mais de uma dúzia de diferentes doenças e anormalidades suspeitas. Ele, ou ela, inspeciona 25 mil aves por dia. O jornalista Scott Bronstein escreveu para o Atlanta Journal-Constitution uma série notável sobre a inspeção de aves, que devia ser leitura obri­gatória para todo mundo que considera a hipótese de comer gali­nha. Ele entrevistou quase cem inspetores do USDA em 37 abatedouros. “A cada semana”, relata, “milhões de galinhas com pus amarelo escorrendo, manchadas por fezes verdes, contaminadas por bactérias nocivas ou prejudicadas por infecções pulmonares e cardíacas, tumores cancerígenos ou problemas de pele são envia­das aos consumidores.”

Em seguida, as galinhas vão para um imenso tanque refrige­rado, onde milhares de aves são resfriadas, em conjunto, na água. Tom Devine, do Government Accountability Project (Projeto de Responsabilidade Governamental), disse que “a água nesses tan­ques foi apropriadamente chamada de ‘sopa fecal’, devido a toda a imundície e bactérias que flutuam ali. Ao imergir aves limpas e saudáveis no mesmo tanque com as sujas, você está praticamente assegurando a contaminação”.

Enquanto um número significativo de processadores de aves europeus e canadenses empregam sistemas de resfriamento a ar, 99% dos produtores de aves nos Estados Unidos permanecem com seus sistemas de imersão e enfrentam processos tanto dos consumidores quanto da indústria da carne bovina para conti­nuar com o uso antiquado do resfriamento pela água. Não é difícil descobrir por quê. O resfriamento a ar reduz o peso da carcaça, enquanto o resfriamento pela água a deixa encharcada (da mesma água conhecida como “sopa fecal”). Um estudo revelou que o mero ato de embalar as carcaças das galinhas em sacos plásticos durante o processo de resfriamento eliminaria a contaminação. Mas isso também eliminaria uma oportunidade para a indústria transformar água suja em peso adicional na comercialização das aves, num valor de dezenas de milhões de dólares.

Não faz muito tempo, havia um limite de 8%, estabelecido pelo USDA, de quanto líquido absorvido podia ser incluído no preço de carne ao consumidor antes que o governo tomasse uma atitude. Quando isso se tornou de conhecimento público, na dé­cada de 1990, houve um compreensível clamor. Os consumidores processaram a prática, que lhes parecia não apenas repulsiva mas uma adulteração. Os tribunais concluíram que a regra dos 8% era “arbitrária e extravagante”.

Ironicamente, porém, a interpretação do USDA das determi­nações legais permitiu que a indústria de frangos fizesse suas pró­prias pesquisas para avaliar qual o percentual de carne que devia ser composto de água suja e clorada. (Esse é um resultado bastan­te comum quando se desafia a indústria do agronegócio.) Após consulta à indústria, a nova lei permite um pouco mais de 11% de absorção de líquido (o percentual exato é indicado em letras miúdas na embalagem — dê uma olhada da próxima vez). Assim que a atenção do público se deslocou para outra direção, a indús­tria de aves distorceu em seu próprio benefício regulamentos que deveriam proteger os consumidores.

Os consumidores dos Estados Unidos doam agora milhões de dólares adicionais aos grandes produtores de aves, a cada ano, como resultado desse líquido adicionado. O USDA sabe e defende a prática. Afinal, os processadores de aves estão, como tantos criadores de granjas industriais gostam de dizer, apenas fazendo o melhor possível para “alimentar o mundo”. (Ou, nesse caso, ga­rantir sua hidratação.)

O que descrevi não é excepcional. Não é o resultado de trabalha­dores masoquistas, de maquinário defeituoso ou de “maçãs po­dres”. É a regra. Mais de 99% de todas as galinhas vendidas por sua carne nos Estados Unidos vivem e morrem desse jeito.

Em muitos aspectos, os sistemas de granjas industriais podem variar consideravelmente, por exemplo, no percentual de aves es­caldadas vivas por acidente durante o processo, ou na quantidade de sopa fecal que seus corpos absorvem. Trata-se de diferenças significativas. Em outros aspectos, porém, granjas industriais — bem ou mal administradas, com animais criados soltos ou não — são basicamente as mesmas: todas as aves vêm de bandos gené­ticos frankensteinianos; todas são confinadas; nenhuma desfruta da brisa ou do calor do sol; nenhuma tem condições de dar vazão a todos os traços de comportamento característicos de sua espécie (em geral, não tem condições de dar vazão a nenhum deles), como fazer ninho, empoleirar-se, explorar seu ambiente e for­mar unidades sociais estáveis; as doenças são sempre em enorme quantidade; o sofrimento é sempre a regra; os animais são sempre apenas uma unidade, um peso; a morte é invariavelmente cruel. Essas similaridades importam mais do que as diferenças.

A vastidão da indústria aviária significa que, se há alguma coisa errada com o sistema, há alguma coisa terrivelmente errada com nosso mundo. Hoje, anualmente, seis bilhões de galinhas são criadas mais ou menos nessas condições na União Européia, mais de nove bilhões, na América, e mais de sete bilhões, na China. A população da Índia, superior a um bilhão, consome muito pou­ca carne de frango per capita, mas o total ainda soma um bilhão de aves criadas em granjas industriais por ano, e esse número está aumentando, assim como na China, a taxas agressivas e global­mente significativas (com frequência o dobro do crescimento da indústria aviária nos Estados Unidos, que aumenta rapidamen­te). No total, são cinquenta bilhões de aves em granjas industriais no mundo, e o número está aumentando. Se a Índia e a China em algum momento começarem a consumir frangos nos níveis em que os Estados Unidos os consomem, isso elevaria a mais do que o dobro esse número já estarrecedor.

Cinquenta bilhões. A cada ano, cinquenta bilhões de aves são obrigadas a viver e morrer desse jeito. Não se pode subestimar o quão revolucionária e relativamente nova é essa realidade — o número de aves criadas em granjas industriais era zero antes da experiência de Celia Steele em 1929. E não estamos apenas crian­do galinhas de um jeito diferente; estamos comendo mais gali­nhas: os americanos comem 150 vezes mais aves do que comiam há apenas oitenta anos.

Outra coisa que poderíamos dizer sobre esses cinquenta bi­lhões é que são calculados com a maior meticulosidade. Os esta­tísticos que geram a cifra de nove bilhões nos Estados Unidos a decompõem por mês, por estado e pelo peso da ave, e a comparam — todos os meses, sem exceção — ao número de aves abatidas um ano antes. Esses números são estudados, debatidos, projetados e praticamente reverenciados como objeto de culto pela indústria. Não são meros dados, mas o anúncio de uma vitória.

(Comer animais, Jonathan Safran Foer, Editora Rocco, 2009, páginas 133-141)

 

Anúncios

Muito além do hábito

Não comas alhos nem cebolas, para que o hálito não denuncie a vilania dos teus hábitos; (…) Janta pouco e ceia menos, que a saúde de todo o corpo se forja na oficina do estômago. Sê moderado no beber, considerando que o vinho em excesso, nem guarda segredos, nem cumpre promessas. Toma cuidado em não comer a dois carrilhos, e a não eructar diante de ninguém.
— Isso de eructar, é que eu não entendo — interrompeu Sancho.
— Eructar, Sancho, quer dizer arrotar, e este é um dos vocábulos mais torpes que tem a nossa língua, apesar de ser muito significativo, e então a gente delicada apelou para o latim, e ao arrotar chama eructar; e ainda que alguns não entendam estes termos, pouco importa, que o uso os irá introduzindo com o tempo, de forma que facilmente se compreendam; e isto é enriquecer a língua, sobre a qual têm poder o vulgo e o uso.
— Em verdade Senhor — disse Sancho –, um dos conselhos que hei de levar bem de memória é o de não arrotar, por ser uma coisa que faço muito a miúdo.
— Eructar, Sancho, e não arrotar — observou D. Quixote.
— Pois seja eructar, e assim direi daqui por diante.

(Trecho do livro Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes)

É consenso entre os pediatras que a obesidade infantil é uma pandemia. O Brasil também começa a sentir o impacto: 33,5% das crianças entre 5 e 9 anos estão com sobrepeso, segundo dados do IBGE. Os efeitos já são terríveis hoje, e a longo prazo serão devastadores se nada for feito.

Exagero? Uma criança de 9 anos com doenças de adulto de meia idade é que é um exagero!

A responsabilidade dos pais obviamente é enorme, mas absolutamente todos estão envolvidos quando o assunto é construir o futuro, do professor ao presidente. Por mais que os pais sejam bons exemplos e bons mestres, criar um filho é travar uma queda de braço com o mundo.

No excelente documentário Muito Além do Peso temos um panorama atual sobre a saúde das crianças brasileiras. De quebra um vislumbre do futuro que estamos construindo naquilo que escolhemos por em suas bocas no café da manhã, almoço e jantar de hoje.

O filme nos faz repensar não só os hábitos que estamos plantando nos pequenos mas também os nossos.

Sei que nem todos se animam a assistir documentários em geral, então pra tentar abrir seu apetite (hehe) e talvez despertar seu interesse em assistir esse em especial, veja essa entrevista divertida com os produtores do filme no programa Agora é Tarde com Danilo Gentili.

Achou interessante? Então assista o documentário na íntegra logo abaixo.

MUITO ALÉM DO PESO from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

A comida dos campeões… veganos

É engraçado que volta e meia me perguntam o que eu como, imaginando que veganos tem uma dieta especial ou do tipo usada por astronautas. Não há nada demais na minha dieta, apenas não consumo alimentos que tenham origem animal. Ou seja, quase tudo. Ou quase nada, dependendo da perspectiva.

Pensando nisso, resolvi que seria válido descrever minha alimentação e dar uma pequena mas real contribuição para mostrar como o veganismo não é nada complicado ou fora do normal.

A princípio, a única particularidade notável é que existe pouca distribuição e alcance de produtos industrializados cuja composição seja estritamente vegetal, daí a dificuldade de se encontrar essa variedade em cidades pequenas.

Outro problema é limitar o consumo de industrializados a marcas que não trabalhem com produtos de origem animal, prática comum entre veganos mais ferrenhos. Isso torna tudo muito difícil, pra não dizer impossível, já que nem mesmo um simples pacote de macarrão de sêmola escaparia.

Morando numa cidade minúscula e limitada, eu tomei a decisão de evitar determinadas marcas quando possível e apenas isso.

Outro ângulo a ser visto é que o veganismo não se limita a alimentação e vai muito além, abarcando vestuário, produtos de higiene e limpeza etc. Por enquanto apenas controlo o que como.

CAFÉ DA MANHÃ

Sou do tipo de gente que não sente vontade de comer quando acorda, preferiria apenas tomar uma xícara de café e só. Faço um esforço, já que é consenso que essa é a refeição mais importante. É?

De manhã, além de café adoçado com açúcar mascavo, eu tomo leite de soja da Purity/Cocamar. Andei fazendo leite de soja em casa mas definitivamente não fica tão bom quanto esse.

Na maioria das vezes eu como apenas pão integral, e tenho preferência pelos da linha Grão Sabor, da Wickbold.

Quanto a margarina ou creme vegetal, até pouquíssimo tempo eu usava a Mesa, da Vigor, mas fiquei sabendo que ambas as marcas pertencem a JBS Friboi e, apesar de nada constar na embalagem, há suspeitas de que o fabricante usa sebo como origem de alguns ingredientes. Eu adoro o mundo capitalista, e você?

Bem, o pessoal vegano fala que azeite no pão é o que há, preciso experimentar…

Um recheio para pão que é excelente e as vezes me dou o trabalho de fazer é manteiga de amendoim. Minha receita é essa:

  1. Asse meio quilo de amendoins
  2. Retire a pele (não é fácil e demora)
  3. Moa num moedor. Se não for possível, dá pra arriscar ir direto no liquidificador, desde que este seja dos bons
  4. Bata muito bem no liquidificador juntamente com uma xícara de açúcar mascavo e um pouco de água para facilitar
  5. Pegue um pote de margarina, jogue o conteúdo fora, lave-o bem e coloque a manteiga de amendoim dentro 😛

Para terminar a lista do café da manhã: as vezes também arrisco uma banana ou um pedaço pequeno de maçã ou pêra, meio forçado porque não sou fã de frutas.

ALMOÇO

Assim que cortei definitivamente a carne do cardápio, a substitui por PTS, proteína texturizada de soja. Não é um alimento realmente necessário e aos poucos vou abandoná-la, mas ela facilitou no começo, ocupando no prato o lugar da carne.

A proteína de soja é a base para muitas receitas veganas que tentam emular pratos carnívoros. Particularmente não gosto muito da ideia mas… é uma opção pra quem curte junk food, tipo massas, salgados etc.

A proteína de soja, após ser devidamente hidratada, pode ser preparada como se fosse carne. Minha mãe, que é a cozinheira de casa, a faz como se fosse picadinho.

Antes que você logo pense “mimimi mamãe que tem o trabalho de fazer a comidinha do vegano bichinha” quero dizer que o trabalho a mais que minha mãe tem é de preparar uma variedade maior de legumes, o que só faz bem pra todos.

Em termos simples, a grande diferença no meu almoço é a variedade. Antes eu me limitava a comer o que mais gostasse, ou seja, macarrão, arroz, feijão, carne, em porções generosas, e dava pouco espaço para vegetais. Agora, reservo no prato um espaço igual para cada coisa. Sigo a regra do “quanto mais cores, melhor”.

Meu almoço é composto variavelmente de arroz, feijão, macarrão, mandioca, batata, lentilha, abobrinha e proteína de soja como bases, sendo acompanhos de salada de grão de bico, ervilha, milho, beterraba, cenoura, tomate e folhas, com atenção especial a rúcula, brócolis e couve-flor.

Veja, praticamente como de tudo. Antes eu não poderia dizer o mesmo.

JANTAR

Meu jantar é um repeteco do almoço e sempre tento tomar cuidado para não exagerar no arroz ou no feijão.

COMPLEMENTAÇÃO COM VITAMINA B12

A única coisa que não existe no reino vegetal e é fundamental para nosso organismo é a vitamina B12, presente em alimentos de origem animal. Em algum momento na evolução humana paramos de produzi-la.

Para não correr riscos, veganos necessitam tomar um único suplemento, que é esse. Todo o resto que você ouvir por aí é mito, lenda ou pura besteira. E antes que você pergunte, eu respondo: não é cara e é sintetizada em laboratório.

SINTO FALTA?

De carne, não. De ovos, sim. De leite, não, mas de queijo, sim. Do que mais sinto falta são opções doces. Estou aprendendo a fazer bolos sem leite e ovos para diminuir essa carência. 🙂

COMIDA INDUSTRIALIZADA

Ouvi isso não sei onde é a mais pura pérola de sabedoria: “Não coma nada que sua bisavó não identificaria como comida.”

É muito difícil ter controle sobre os ingredientes de comidas industrializadas. Muitos fabricantes não se dão ao trabalho de informar corretamente na embalagem e nos seus respectivos SACs e sites do que se compõe seus produtos. As vezes eles jogam sujo e além de outros truques desonestos, podem mudar a fórmula sem aviso. A saída, na dúvida, é não comer.

Gente radical e que defende o carnivorismo com unhas e dentes (é…) adora dizer que o veganismo é uma ilusão porque tudo tem carne/ovo/leite/sebo etc. Sim, com certeza volta e meia eu me alimento de algo que tem uma infinitésima parte disso, a questão é que quando tomo conhecimento, não como mais. Simples assim, sem drama.

Não sou alérgico ou tenho nojo, é apenas uma opção de vida. E como eu já disse antes, não importam as razões para se adotar uma dieta vegana, todas são excelentes.

Alergia de cowboy

Nesse final de semana eu venci a inércia social do ermitão que sou e viajei para um povoado próximo aqui de Sucupira, pra mó de visitar um amigo. Foi um bom passeio, conheci a nova choupana do compadre e mais uma vez ele se gabou da beleza do lugar. Verdade, aquele vilarejo tem uma bela paisagem. Aqui a gente só tem as estrelas pra admirar enquanto enfrenta os malditos vampiros sob a luz da lua.

À noite saímos para beber. No centro da cidade paramos num lugar que é uma mistura de restaurante, lanchonete e rancho, abarcando o melhor dos três mundos. Decoração rústica, muita madeira, essas coisas.

Tradicionalmente, assim que nos sentamos pedimos logo uma cerveja. Só depois do primeiro gole vimos que a noite seria mais sertaneja do que esperávamos: uma dupla de jovens caubóis afinava o som pra começar seu show. Vendo um certo incomodo no olhar do parceiro, lhe propus bebermos apenas aquela ampola e partirmos para outra estalagem, mas ele preferiu ficarmos, imagino que tenha sido pela qualidade da comida servida ali. Tolerante que sou a estilos musicais que não me apetecem, aceitei numa boa, porque seria no mínimo interessante observar de perto o ecossistema sertanejo.

Nunca vi tanta piriguete caipira sob o mesmo teto. Parece que o auto astral da música pop sertaneja as atrai como moscas para uma lâmpada! Enquanto isso você fica aí foreveralone ouvindo Radiohead e outras bandas de meninos tristes. Aprenda.

Sendo vegano há pouco tempo mas já estando preparado para enfrentar o mundo carnívoro, me pus pacientemente a procurar no cardápio algo para acompanhar a cerveja. Apenas duas opções: mandioca frita ou batata frita, e a mandioca vinha com queijo. Pensei em pedir essa porção sem o queijo, mas eu já havia comido mandioca num outro bar na noite anterior, então preferi variar e comer fritas.

Então, ali estava esse sujeito que vos escreve, um sujeito vegano num bar sertanejo, cercado de pessoas que comem carne, alguns metidos a cowboys, mas todo mundo gente finíssima, elegante e sincera, só que ao contrário. Um lugar onde carne é a comida principal, onde o couro é a melhor roupa, ou seria se não fosse cara.

Ok. Bom saber que pelo menos a batata frita é apenas batata frita, não é? Quer dizer, vamos ignorar a altíssima probabilidade de que o óleo de fritura da batata é o mesmo usado para as carnes, além de estar sendo usado há pelo menos três dias. Não sejamos radicais, ninguém gosta de fanáticos. Confiemos no velho adágio: o que os olhos não veem, o coração não sente, porque cozinha de restaurante e passado de mulher, meu amigo, quem conhece não come, mas o que não mata, engorda…

BULLSHIT!

A batata chegou rápida e veio com um delicioso queijo derretido fumegando por cima. Eu salivei como o au-au de Pavlov. Meu estomago pulou de alegria enquanto meu cérebro tentava escapar pelas fossas nasais. No momento em que eu abria a boca para dizer algo como “não como queijo, você pode trocar, por favor?”, meu amigo se adiantou e disse que eu era alérgico a lactose. Um cowboy com alergia a um dos produtos do seu trabalho? Que ironia seria.

A garçonete se desculpou frente a acusação mais que justa de não estar escrito no cardápio que até a porra da batata frita vem com algum tipo de derivado animal. E lá foi ela trocar a porção enquanto eu sorria um sorriso alckmin e sentia a barra que é ser um anormal.

Bem, o que me fez vacilar na hora de recusar a batata láctea foi o medo e a certeza de que tudo que comessemos ali a partir daquele momento teria o tempero especial do cozinheiro. Também foi por isso que, ao voltar o mesmo prato de fritas apenas faltando aquelas com mais queijo, eu me limitei a caçar as limpas enquanto proibia meu compadre de reclamar.

Na hora não foi muito engraçado mas agora pensando melhor sobre a situação vejo que não teve graça nenhuma mesmo.

Não tem graça porque, independente do motivo ser filosófico, ético, prescrição médica ou questão de vida ou morte, não há absolutamente nenhum respeito ou consideração pelas pessoas que não comem carne e derivados.

Veja só, estamos em 2011 e, como sempre foi e pelo jeito sempre será, não se pode confiar naquilo que se come fora de casa. Viva a diferença, mas não na mesa.

bar

Revolução na minha mesa

vegetariana

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS, MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OUTROS

Ignorar e não se importar são coisas diferentes. Ignorar é não conhecer, não saber. Não se importar é ser indiferente e é uma ação que pressupõe conhecimento prévio, por menor que seja.

Isso explica porque tanta gente se recusa a assistir documentários e conhecer mais profundamente sobre a criação industrial de animais.

O que se vê nesses filmes já é mais ou menos conhecido, mas não em cores bem definidas. A partir do momento em que você se torna conhecedor dos detalhes e vê em cores nítidas como as coisas acontecem e como funciona o mundo da produção industrial de carne e o uso industrial de animais, acaba sendo forçado a tomar uma posição consciente e deixar de lado qualquer manto de hipocrisia e ignorância, escolhendo um dos lados. Como em vários outros aspectos da vida, enquanto você não faz isso, vive semi imerso na realidade. Veja só uma coisa: você provavelmente imagina isso quando pensa em criação de gado, mas na verdade pode ser assim (pode clicar, não é nada feio).

É evidente que a ignorância parcial (porque, como eu disse, invariavelmente temos uma vaga idéia de como as coisas funcionam) nos preserva em segurança na nossa zona de conforto. Existe um muro entre nós e certos fatos, um muro que nós mesmos construímos usando alguns tijolos presenteados pela vida moderna.

Conhecimento traz sofrimento e ignorância é benção. Concorda?

SOMOS TODOS CRIADORES POR PROCURAÇÃO

Ao consumir algum produto, automaticamente o consumidor entrega ao produtor uma procuração dando o aval para que aquele determinado produto seja feito. Isso implica na concordância com todos os detalhes e métodos da produção. Isso está escrito lá nas letras miúdas. Mas afinal, quem tem tempo pra ler as letras miúdas, não é mesmo? Considere-se um criador de animais a distância. Você consome mais ou menos uns 90 quilos de carne anualmente.

Vou colocar em poucas palavras o que você assina em baixo com tinta invisível porém indelével sempre que come um alimento industrializado de origem animal:

  • Que o animal seja deliberadamente torturado do começo ao fim de sua vida. E isso não é um exagero.
  • Que se consuma na produção de cada quilo de carne cerca de 15000 litros de água doce limpa.
  • Que a poluição gerada pela criação em larga escala contamine rios e lençóis freáticos e que se derrubem florestas para abrir espaço para mais pasto devido ao crescimento da demanda.

Talvez você já saiba mais ou menos disso, mas talvez não. E esses são apenas alguns aspectos do consumo, que não se limita só ao que você mastiga, já que do boi, do porco, da galinha e de outros bichos só se perde o grito.

ESSA É A PARTE QUE ME CABE

A minha cota de vaga ideia de como as coisas são foi contraída de um baterista com quem eu tocava. Um vegan militante, portanto um chato tagarela. Eu era bem novo, obviamente na época eu apenas ria e dava de ombros. Mas a sua postura, mais do que as suas palavras, sempre foi uma lembrança cutucando minha mente.

Algo me trouxe até aqui, até essa posição nesse momento da minha vida. Não sei o quê exatamente e não me incomoda não saber. Não vejo isso como algo bom ou ruim, é apenas o caos ou algo desse tipo, ou outras dessas bobagens em que acreditamos ou deixamos de acreditar.

Fato é que assim como não é possível desver o que foi visto, não dá pra esquecer o que se passa a conhecer. Sabendo disso e consciente de que provavelmente eu fosse ficar incomodado, assisti ao filme Terráqueos.

Penso que foi talvez aí que algo mudou aqui nesse coraçãozinho de pedra. Esse filme plantou na minha cabeça sérias dúvidas sobre o modo como me relaciono com os animais, tanto na posição de indivíduo como na de representante da minha espécie. Foi nesse mesmo estado de espírito que, procurando mais sarna pra me coçar, li o livro Comer animais, de Jonathan Foer.

Virar o rosto e continuar cortando meu bife deixou de ser para mim uma opção correta. Simplesmente não mais me sinto confortável comendo carne e usando voluntariamente coisas de origem animal. Optando conscientemente por esse caminho, resolvi mudar meus hábitos.

É comum que as pessoas que se tornam vegetarianas o façam repentinamente e bem cedo na vida, geralmente na adolescência. Estou no grupo da exceção, passei da idade de “inventar moda” e estou deixando de comer carne paulatinamente.

Pode ser mais um passo na minha busca por autoconhecimento, na definição da minha personalidade, sei lá. Pense o que quiser enquanto penso que está tudo bem e no devido lugar. Hoje mais do que ontem.

MAIS DÚVIDAS DO QUE CERTEZAS

Posso estar errado mas acredito que, da mesma forma que existem mais motivos para se parar de fumar do que para se continuar fumando, o mesmo pode ser com comer carne. Calma, não estou dizendo que comer carne é um vício que prejudica a saúde em níveis alarmantes. Afinal, é lógico que você pode parar quando quiser 😀

Mas, no frigir dos ovos que nunca mais comerei, é interessante notar que na decisão de se parar de fazer algo o que pesa mais é sempre um detalhe, um único ponto, as vezes subjetivo e extremamente pessoal.

Por exemplo, talvez meu principal motivo para largar o cigarro tenha sido o cheiro desagradável que ele deixa na pele e nas roupas, além do hálito. Não para o meu nariz, mas para o dos outros.

Seguindo esse princípio, posso dizer que o motivo primal para eu parar de comer carne e seus derivados talvez seja por não concordar que animais sejam tratados como coisas. E que isso seja feito para mim, para o meu paladar, através do meu aval como consumidor.

Cada um se prende a questão que lhe é mais relevante. Talvez alguns futuros vegetarianos se preocupem mais com a questão ecológica ou de saúde física. Pode ser. Mas o ponto é que motivos para parar não faltam e são numerosos. Por outro lado, razões para manter o bife no cardápio em geral são bem questionáveis. Ou não.

Essas são minhas opiniões e minhas escolhas. Aos amigos e chegados que acompanham meu bloguinho e que podem estar estranhando minha mudança, quero relembrar os seguintes posts que mostram mais ou menos a evolução dessa mudança de postura. Não, essa não é mais uma modinha do robertão 🙂

Só quero que não fiquem loucos matutando muito nisso e tentando classificar as atitudes da pessoa mais importante na sua vida: eu. Não tenho que provar nada a ninguém, morram todos.

A PARTE DIFÍCIL

Duas coisas ficaram muito nítidas para mim quando comecei a refletir sobre o vegetarianismo e a decisão de se evitar o consumo de produtos de origem animal:

  1. Se metade de quase tudo vem do petróleo, a outra metade vem de animais.
  2. As pessoas se reúnem e confraternizam em volta de mesas, na partilha do alimento, onde a fartura é festivamente representada principalmente pela presença de carne.

São dois pontos que tornam complicada a vida de um vegetariano. A primeira porque dificilmente um vegan consegue manter longe do seu carrinho de supermercado coisas que tem relação direta com produção animal. A segunda, porque acaba por isolar, limitar ou no mínimo dificultar o convívio social, as vezes quebrando ritos e tradições familiares e jogando um ex-carnívoro no limbo social. Imagine um vegetariano num churrasco, na ceia de Natal, numa festa de aniversário. Dependendo da postura adotada por ele, atrito e desconforto podem ser seu cartão de visitas.

Vivo num círculo social pequeno e estou confiante de que não serei mal tratado por tomar a decisão de parar de comer carne, porém imagino que torno as coisas um pouco complicadas. Mas acima de tudo espero não virar um vegetariano chato, assim como tenho procurado não ser um ex-fumante chato.

Outra questão é a que se refere a necessidade nutricional, que mesmo não sendo consenso, é bem definida. A carne e seus derivados são uma fonte fácil e muito barata de proteína e de uma vitamina essencial para o organismo: a B12. Isso significa que fora da dieta onívora comum, alimentar-se adequadamente dá mais trabalho e gastos extras.

Mas acredito que para fazer-se o que se considera certo todo esforço é válido porque é necessário.

vegetariana2