Isso é que é banda larga!

Para o bem ou para o mal, participei de dois dias da conferência em Cambridge, proferindo uma palestra e tomando parte na discussão em várias outras. Desafiei os teólogos a responder ao problema de que um Deus capaz de projetar um universo, ou qualquer outra coisa, teria de ser complexo e estatisticamente improvável. A resposta mais contundente que ouvi foi que eu estava forçando brutalmente uma epistemologia científica goela abaixo de uma teologia relutante. Os teólogos sempre definiram Deus como algo simples. Quem era eu, um cientista, para dizer aos teólogos que o Deus deles tinha de ser complexo? Argumentos científicos, como os que eu estava acostumado a empregar em minha área, eram inadequados, já que os teólogos sempre sustentaram que Deus está fora do âmbito da ciência.

(…)

Os teólogos de meu encontro em Cambridge estavam se autodefinindo numa Zona de Segurança epistemológica onde ficavam imunes aos argumentos racionais, porque haviam decretado que assim era. Quem era eu para dizer que o argumento racional era o único tipo admissível de argumento? Existem outros meios de conhecimento além do científico, e é um desses outros meios de conhecimento que precisa ser empregado para conhecer a Deus.

O mais importante entre esses outros meios de conhecimento revelou-se a experiência pessoal e subjetiva de Deus. Vários debatedores em Cambridge alegaram que Deus havia falado com eles, dentro da cabeça deles, de modo tão real e tão pessoal como qualquer outro ser humano teria falado. Já tratei da ilusão e da alucinação no capítulo 3 (“O argumento da experiência pessoal”), mas na conferência de Cambridge acrescentei mais dois pontos.

Em primeiro lugar, se Deus realmente se comunicasse com seres humanos, esse fato não estaria, de jeito nenhum, fora do âmbito da ciência. Deus aparece vindo de onde quer que fiquem seus domínios sobrenaturais e aterrissa no nosso mundo, onde suas mensagens podem ser interceptadas por cérebros humanos — e esse fenômeno não tem nada a ver com a ciência? Em segundo lugar, um Deus que é capaz de enviar sinais inteligíveis a milhões de pessoas simultaneamente, e de receber mensagens de todas elas simultaneamente, não pode ser, de jeito nenhum, simples. Isso é que é banda larga! Deus pode não ter um cérebro feito de neurônios, ou uma CPU feita de silício, mas se possui os poderes que lhe são atribuídos deve ter alguma coisa de construção bem mais elaborada — e nada aleatória — que o maior cérebro ou o maior computador que conhecemos.

(trecho do livro “Deus, um delírio” de Richard Dawkins)

 

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