O guru da maçã

A história é contada pelos vencedores. Mesmo sem intenção de falsear a verdade, o historiador, como integrante desse time, acaba passando uma visão não tão fiel do que realmente aconteceu.

Terminei de ler a biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson. Desde as primeiras páginas o autor demonstra buscar desprendimento na tentativa de fazer um relato imparcial da vida desse ícone da tecnologia. Eu diria que conseguiu pois a idéia que ele me passou é a de que Steve Jobs era um grande filho da puta, mas um filho da puta pra lá de genial.

Meu conhecimento sobre a Apple e suas bugigangas caras era bem limitado. Limitado justamente aí: produtos caros e bonitos. Fui começar a reparar melhor na marca quando lançaram o iPad, algo que me interessou por se aproximar do mundo dos livros. Acompanhando o grande sucesso do dispositivo e as tentativas fracassadas de cópia por parte de outros fabricantes, fui ficando intrigado. O que há de especial nele que não se consegue copiar?

Depois de algum tempo com um ereader Positivo Alfa, percebi que um tablet me cairia melhor e desejei um iPad, mas a falta de grana me levou a tentar algo mais barato. Primeiro um modelo da Coby, o Kyros 1024, depois um péssimo negócio com o caro myPad da Semp Toshiba.

Tanto um quanto outro me deram grande alegria e prazer, valendo o “investimento”. Mas, depois de alguns infortúnios causados pela minha mania de fuçar, acabei brickando meu segundo tablet de maneira que a solução foi enviar para a assistência técnica. Durante esse meio tempo, talvez por sofrer uma espécie de síndrome de abstinência de tablet, tomei no susto a decisão de comprar um iPad. No review que fiz questão de escrever é possível ver uma ponta do entusiasmo que senti.

A diferença de qualidade entre os dois tablets e o iPad é abissal. Ampla de maneira difícil de transmitir em palavras. Mágico, incrível, como dizia Jobs? Talvez palavras subjetivas assim sejam as únicas que conseguem descrevê-lo. Longe de mim diminuir o valor dos meus outros tablets porque eu acredito que tudo que traz experiências tem seu valor. Por outro lado, se eu pudesse voltar atras, provavelmente teria comprado o iPad logo de cara.

É mais fácil entender os produtos da Apple quando você passa a conhecer criatura e criador. A história da empresa e do seu fundador peculiar se misturam de modo inseparável. A biografia de Jobs é uma lição e tanto. Uma lição de que objetos são ferramentas, um meio e não um fim, de que a experiência do consumidor é o mais importante, de que simplicidade, qualidade e beleza são essenciais e inegociáveis. De que a junção da arte e da tecnologia é um bom objetivo a se perseguir, e que a técnica deve servir ao homem, e não o contrário.

Steve Jobs era um sujeito notável que buscava a integração entre tecnologia e arte olhando muito a frente e caminhando a passos largos, não parando nem quando pisava em alguém. Ele separava as pessoas entre gênios e babacas e dificilmente mudava sua impressão, mas respeitava quem o enfrentasse. Não o imagino como alguém agradável de se conviver, por outro lado sua filosofia de que um produto deve ser bonito não só por fora mas também por dentro, nas partes invisíveis, é tocante. Alguém com dificuldades patológicas para escolher uma máquina de lavar pode causar receio a primeira vista, mas ao mesmo tempo pode encantar com suas idéias inovadoras sobre a forma e a função dos objetos do dia a dia.

Só sei que precisamos de mais pessoas como Steve Jobs. Um pouco mais equilibradas socialmente, sem dúvida, mas que tenham esse perfeccionismo acima de tudo, até mesmo acima da necessidade de lucro, como ele demonstrou ao longo da sua carreira. Um dos seus objetivos era criar uma empresa duradoura e conectada com seus consumidores. Com certeza conseguiu.

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