Música e eu

Não acredito que as pessoas nasçam com um dom ou talento, acredito mais em afinidade, facilidade. Porém, como isso funciona, eu não sei bem.

Creio que o meio influencia o desenvolvimento artistico. Veja, filhos de músicos, mesmo não seguindo a carreira dos pais, acabam envolvidos com arte. Um bom exemplo é a cantora Fiona Apple, que vem de uma família de artistas e começou a ter aulas de piano aos 4 anos de idade, além de cantar desde que se entende por gente. Aos 12 anos, Fiona foi vítima de um estupro. Aos 17 lançou-se profissionalmente e já tem um Grammy. Seu sucesso continua, enquanto canta suas feridas incicatrizáveis.

Por outro lado, num outro exemplo, temos Ray Charles, considerado o primeiro entre os melhores artistas de todos os tempos. Charles teve uma infância pobre e traumática, e encontrou na música uma oportunidade e um alento para sua cegueira. Poderiamos também falar de Michael Jackson e seu inacreditável pai, que deveria estar preso e não por aí, mas… enfim. Tudo isso soa parecido com a alegoria da pérola e da ostra, não é?

Eu, por mais parecido que seja com uma ostra, nunca tive histórias tristes para contar ou demônios para espantar. Minha vida sempre foi medíocre, para o bem e para o mal, de maneira que nada me impulsionou a ponto de criar alguma jóia.

Minha relação com a música sempre foi um desencontro intermitente.

Começou quando eu tinha uns 12 anos e, não sei bem porquê, me inscrevi no conservatório municipal. Não lembro direito, me recordo apenas da primeira reunião, que consistia numa palestra de um maestro. Tudo começaria a partir do próximo encontro. Encontro esse em que não fui.

Lembro claramente: eu estava deitado no sofá, com a cabeça no colo da minha mãe, vendo TV. De repente me deu um estalo e vi que eram sete horas da noite. Me ergui e falei algo do tipo “Nossa, esqueci de ir lá naquela reunião!”. Minha mãe disse pra eu correr, que eu não chegaria tão atrasado, pois o conservatório não era longe. A preguiça ou a vergonha foi maior que a vontade e eu simplesmente deixei pra lá.

Andei deixando pra lá desde então, apesar de a música sempre ter estado presente na minha vida. Meu irmão, como técnico de eletrônica, sempre esteve cercado de amplificadores, caixas e aparelhos de som. E eu sempre por ali, curioso.

Fui me envolver mais profundamente com música quando conheci meu amigo Chico, que tinha uma guitarra verde muito feia, mas que na época eu achava impressionante. Eu comprei um violão e daí aprendemos juntos, meio que um ensinando o outro. Fundamos uma autêntica banda de rock de garagem em 1992 e daí pra frente perdemos muito tempo brincando de cantar e tocar.

Em síntese, nunca conseguimos chegar a lugar nenhum. Também nunca conseguimos manter um baterista fixo por muito tempo, coisa que nos atrasou bastante, talvez mais do que o fato de termos demorado pra botar fé nas letras que nós mesmos escrevíamos. Enquanto sonhávamos mais do que agíamos, veio o tempo e trouxe outros interesses e ocupações, e coisas mais importantes como “o que farei pelo resto da minha vida?”.

Em 2008 resolvemos tentar pela última vez, seja  lá o que isso queira dizer, e gravamos algumas músicas. Foi aí que inventamos o supercaras. E foi mais uma banda que acabou mal tendo começado. Mas conseguimos algo concreto, mesmo que cronicamente inacabado, que são essas 14 músicas disponíveis na rede. Todo o processo de gravação foi ao mesmo tempo um grande barato e uma catarse, e fechou um ciclo de nossas vidas.

As vezes eu me ponho a tentar entender por quê não me tornei um músico profissional. Não tenho resposta que não envolva me acusar de vários crimes. A única resposta que posso oferecer socialmente é esse verso pseudo poético: a música e eu nos desencontramos, eu cheguei atrasado e ela adiantada, perdemos o compasso.

Ser competente e, consequentemente, bem sucedido em algo geralmente sinaliza uma busca instintiva e incansável para preencher certos espaços vazios na alma. Nesse sentido, não tenho mesmo nenhum talento musical. No fim, talvez eu seja alguém que preenche seus espaços vazios usando um pouquinho de tudo. Naquilo tudo que faço como simples amador e curioso, naquilo que me distrái por algum tempo e logo fica em segundo plano quando surge uma novidade. Mas a música sempre esteve por aqui, fora de sincronia, mas perto.

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