Do mundo não se leva nada

Eu não gosto de ver coisas encostadas, inúteis. Quartinhos de bagunça me dão arrepios. Nem sempre fui assim mas estou caminhando para me livrar de tudo que não me serve mais. É algo bem simples mas não deixa de ser um exercício de desapego, ao menos de coisas materiais.

Praticar o desapego é uma luta diária. Muitos nem pensam nisso ou só lembram do conceito na hora de limpar a casa e se livrar das roupas velhas. Acredito que todos temos tendência de ir juntando tralha, não só física como espiritual, uns mais, outros menos.

Um livro que me ajudou muito a perceber isso foi o “Dinheiro: é possível ser feliz sem ele”, de Odir Cunha, onde ele conta sua experiência pessoal e o insight que o fez mudar de vida radicalmente. Embora não seja o foco do livro, uma das mensagens que ele passa é justamente a necessidade de ser desapegado com os objetos.

As vezes você pode não se dar conta mas está carregando coisas inúteis e que não precisa. Como sonhos há muito tempo mortos, ideias há muito tempo obsoletas.

Engraçado que minha formação cristã-católica tem uma de suas bases justamente na idéia do desapego e da vida simples, mas precisei ler um livro escrito por um contemporâneo para ter esse insight.

Vejamos algumas coisas que a bíblia nos fala sobre desapego e riqueza material:

Sem dúvida, grande fonte de lucro é a piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento. Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto.

Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições.

(Primeira carta de Paulo a Timóteo, cap. 6, 6-10)

Jesus Cristo foi bem claro também, além de acrescentar o agravante que é ocupar-se demais com o futuro:

Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.

O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!

Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?

Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?

E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?

Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.

Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.

Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.

(Evangelho segundo Mateus, cap 6, 19-34)

“Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.” Bem forte isso, não?

Trocando em miúdos, Jesus diz que devemos viver sem preocupações com o que não podemos controlar e sem desejar mais do que realmente precisamos. E acima de tudo, confiar que Deus nos dará tudo que precisamos.

É justamente o oposto do que nossa sociedade respira e faz. Nossas ocupações são baseadas em correr atrás de tudo que pensamos precisar e desejamos ter, e sozinhos, dia após dia.

É comum muita gente afirmar que as religiões promovem a prática do desapego nos seus fiéis para apenas tomar seu dízimo e criar uma cultura de comodismo, tendo como seu papel verdadeiro ser cúmplice do sistema de domínio da elite sobre as massas. É uma maneira de ver as coisas, com certeza. Mas quando vemos crianças matando crianças para roubar um par de tênis caro, o que podemos dizer?

Por outro lado, atualmente temos uma proliferação de igrejas pregando a teologia da prosperidade. Deus quer que você seja muito rico e tenha ótima saúde, esteja com Ele e você terá tudo o que quiser. Mas mantenha rigorosamente em dia o seu carnê do dízimo para poder concorrer aos prêmios!

Veja, passamos boa parte do tempo pensando no porvir, e é provável que 90% do nosso pensamento sobre o futuro envolva dinheiro. Não é irônico que tantas pessoas percam a saúde e a felicidade no trabalho duro de hoje justamente para garantir a saúde e a felicidade no amanhã? Pense bem, existe alguma lógica nisso?

Publicado por

Roberto Strabelli

Pode conter traços de gente

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