Minhas escolhas

Esses dias atrás resolvi fazer uma limpeza e tomei vergonha na cara de recolher algumas coisas que estavam na casa dos meus pais. Basicamente material da faculdade. Eram muitas pastas de elástico contendo anotações e apostilas.

Eu simplesmente fui retirando as coisas das pastas e amontoando para mandar pra reciclagem. Algumas pastas com melhor aparência eu separei. Não esperava encontrar nenhum tesouro perdido. Fazia uns seis anos que não punha as mãos naquilo, obviamente nada útil é deixado em standby por tanto tempo.

Enquanto eu ia retirando os papéis das pastas, corria o olho e lia alguma coisa. Como era muita papelada mesmo, em dado momento comecei a descartar sem ver. Foi por um acaso que encontrei uma pequena “monografia” (tinha até apud!) escrita logo no começo do curso. Intitulava-se “Minhas escolhas” e era sobre como cheguei ali, o que esperava da formação profissional que iniciava e do futuro.

Absolutamente nem lembrava de ter escrito tal coisa. Pela extensão imagino que a professora não deve ter lido. Me impressionou a consistência do texto, até muito bem estruturado e claro. E eu tão ingênuo a dez anos atrás como sou hoje!

Li tudo com um sorriso no canto da boca, imaginando aquele rapaz esguio, lindo e confuso que um dia fui. Se você me acompanhasse no Twitter teria lido isso em primeira mão:

tweet

Pensei em publicar todo o texto aqui mas felizmente fiquei com vergonha. Resumidamente, nele falo que não sei o que quero da vida e espero que o curso de Biblioteconomia me dê algum dinheiro.

Ah! Mas eu separei um parágrafo especial, veja:

“Esqueci de dizer que sou músico, que componho e canto, que tenho uma banda de rock e que meu objetivo é ficar rico e famoso suando nos palcos, mas essa é uma outra história.”

Pois é, quem olhasse direito teria visto que já não havia salvação para aquele jovem sonhador.

Observando esse meu passado não tão distante percebo que entrei na corrida da faculdade sem nenhuma convicção, sem sangue nos olhos. E passei mesmo por todos os anos do curso sem me engajar. O prêmio foi sair com um canudo vazio. Mas não considero realmente que foi um tempo perdido, aprendi muita coisa. O que levamos pra frente na vida não fica escrito em nenhum diploma. Nenhum papel comprova que você criou juízo. Por outro lado, perdi a oportunidade de ter uma profissão respeitável e um diploma de peso.

Querida professora, bem ou mal acabei fazendo as minhas escolhas. Escolhi ser um funcionário público dos mais comuns, escolhi ser um pequeno comerciante dos mais simples. Escolhi finalmente deixar a música no seu lugar devido na minha vida. Apesar de aparentemente não ter chegado a lugar nenhum, estou feliz e satisfeito, porque da mesma forma que Miguel de Cervantes, almejo muito mas me contento com pouco.

E essas são as minhas escolhas hoje, amanhã tudo pode ficar diferente porque eu mudo de ideia como quem muda de roupa. Se a minha geração já está toda bem encaminhada, eu ainda tento descobrir o melhor rumo para mim. Mesmo sem grandes perspectivas à frente, enquanto puder fazer minhas próprias escolhas, estarei trilhando um caminho tranquilo. Sim ou não?

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