Música do futuro da música

Les Paul era um cara foda. Além de criar a emblemática guitarra que leva seu nome, inventou também a técnica de gravação sonora em multi canais. Duas bases sólidas do rock. Não sabe? Eu explico.

Até meados de 40 e 50, todas as gravações musicais eram feitas ao vivo. Todo mundo junto, banda ensaiada, microfones posicionados, um dois três e vai!

Por isso, deve-se ouvir com muito respeito tudo que foi feito nessa época. Executar uma música do começo ao fim sem erros e com feeling não é moleza, principalmente quando são muitos músicos que dependem da boa atuação uns dos outros. O tempo urgia e qualquer erro podia jogar no lixo todo o suor e inspiração de um bom take.

Eu sei o que você está pensando, “que nada, até o Calipso faz um disco inteiro ao vivo numa boa”. Filho, hoje em dia dá pra fazer milagres com efeitos de computador! Não se engane, há toneladas de tecnologia por trás da gravação de um DVD ao vivo.

Em 1940, o que havia era isso:

Bem impressionante, heim? Principalmente se você sabe como são os equipamentos de estúdio atuais e já viu o que um simples PC e um bom software podem fazer.

Mas o maior milagre mesmo era feito na captação do som, onde a posição ideal de microfones e músicos era a arte que fazia toda a diferença. Mesmo hoje em dia, quando um engenheiro busca fazer uma gravação que soe natural de verdade, ele olha para trás e vai ouvir o som daquela época para tentar entender como algo feito com tanta simplicidade podia soar tão bem.

O INÍCIO DA POP MUSIC

Eis então que aparece mister Les Paul, que talvez seja o primeiro músico nerd da história, com uma ideia maluca de querer gravar um solo enquanto ouve uma base de guitarra. Sozinho, como todo bom nerd.

A primeira música gravada usando a técnica recém criada foi cantada por sua esposa, Mary Ford. Veja um pequeno vídeo onde o casal explica como funciona o multrack. Cara, isso é muito velho!

A invenção de Les Paul foi o catalisador que permitiu a proliferação desenfreada da música popular, tornou mais fácil a vida dos músicos e abriu possibilidades sonoras nunca antes vistas.

Além das primeiras gravações em multi-pista, Les Paul foi pioneiro em vários experimentos sonoros, inventando inclusive alguns efeitos famosos como o phase e o delay. Como eu disse, o cara era foda.

AS QUATRO FABULOSAS

Nos anos 60 todo estúdio que se prezasse possuia pelo menos um gravador multitrack. Era possível gravar as mais belas canções usando-se incríveis 4 pistas! Uau!

É, eu sei o que você está pensando agora, “credo, não dá pra fazer nada com só 4 pistas!” Bom, esses caras aí fizeram miséria usando só isso:

Repare os rostos felizes, todos satisfeitos, cada um com sua pistinha.

Na verdade George Martin rebolava muito para fazer caber em 4 pistas tudo que os 4 fabulosos faziam. Usava-se uma técnica conhecida como ping-pong, que é assim: grava-se três pistas e faz-se uma mix jogando tudo na quarta pista. E assim por diante, até caber todos os instrumentos e vozes. A desvantagem é o ruído e perda de qualidade sonora, mas a equipe de Martin tinha lá os seus truques e macetes que eram também um milagre a parte.

Já brinquei bastante de ping-pong usando um desses:

Dava para amontoar umas 7 pistas sem perder muito a qualidade.  Quer dizer, toda a qualidade que uma fita k7 rodando duas vezes mais rápido podia oferecer. Bons tempos.

HOJE TEMOS TUDO

Nos dias de hoje qualquer idiota pode se considerar músico ou DJ (ou jornalista, ou blogueiro). A verdade é que Les Paul trouxe ao mundo algo que cria também pseudos músicos. Lembre-se que até então exigia-se que o artista fosse bom ao vivo. Bom não, perfeito. Dominar seu instrumento com maestria e ter boa capacidade de trabalhar em equipe era o caminho do sucesso.

Claro que o advento do multitrack abriu um leque imenso de possibilidades que foram muito bem exploradas e trouxeram riquezas enormes para a música contemporânea, mas claro é também que abriu portas largas para a mediocridade e preguiça musical.

E hoje temos os microcomputadores. Com o notebook que uso para escrever esse texto, um notebook nem tão parrudo assim, seria possível reproduzir sem dificuldade tudo que os Beatles fizeram (exceto, é claro, as vozes – por enquanto).

Hoje qualquer um tem acesso, por um preço muito baixo, a toda a tecnologia necessária para fazer seu próprio álbum. E isso sem precisar saber uma única nota musical. Vivemos atualmente o auge da arte fake. Todo mundo pode ser músico na frente de um PC, até mesmo você, manolo.

Mas é claro que este é o meu modo de enxergar as coisas. Você pode dizer que o que mudou foi apenas o modo de fazer música, e que os músicos suam a camisa não no ensaio, mas na criação de novos timbres, novas texturas musicais, tudo na frente do PC. Pode ser, pode ser…

PRODUTOS MÁGICOS PARA A MÚSICA

E então fiquei curioso ao ler essa matéria do Gizmodo e baixei o disco que o Gorillaz gravou usando apenas iPads. Isso mesmo. Vá lá ler a matéria e depois volte aqui.

Me propus a ouvir o disco todo prestando alguma atenção, coisa que normalmente só faço quando enxergo uma boa oportunidade de zoar muito depois. Mas procurei ouvir de mente aberta, afinal sou um cara otimista.

O que posso dizer? Nunca tinha prestado atenção antes nessas vertentes musicais mais moderninhas. Os timbres conseguidos com o iPad são interessantes, parecem mesmo muito bons. Gorillaz? É música eletrônica bizarra e slow, meio deprê. Nada muito incrível, aquela velha técnica de soltar um loopizinho aqui, entra outro ali, canto umas palavras aqui com voz de monstro e pronto. Se você gosta desse tipo de som, lambuze-se.

Olha! A faixa sete começa com um lindo zumbido de plug caído no chão. Fantástico. Como nunca pensei nisso antes?

Agora, vem cá. Disco inteiro feito em iPads? Me engana que eu gosto. Tudo bem que os sons tenham saído do brinquedo, mas a brincadeira acabou aí. Olha esse espectro e me diz que não foi muito bem pasteurizado num estúdio fodidão.

Clique para ver maior

Na minha humilde opinião, esse disco do Gorillaz é uma bela droga. Rolou grana pra promover o brinquedinho da Apple? Quem liga, afinal, isso é arte.

As músicas consistem basicamente em pequenas alucinações sonoras, obviamente frutos de mentes perturbadas. Você curte?

Com meu chinelo havaianas que está aqui no meu pé e minha flauta doce consigo fazer algo parecido. Tendo, é claro, um bom equipamento de estúdio ao alcance dos dedos.

Pra não dizer que odiei tudo, simpatizei com a faixa 13. A que soa mais tradicional. Depois fui ler as informações constantes no encarte em pdf que acompanha o disco e descobri por que gostei…

SO YOU WANT A REVOLUTION, HUM?

O jeito é a gente tomar vergonha na cara e tentar repetir o passado, desinventar as facilidades da tecnologia? Não, porque o novo sempre vem. Muito do que será a música desse século está surgindo nesse tipo de som frankenstein que anda sendo feito por aí. É preciso ter fé.

Para concluir, deixo esse pensamento muito oportuno. Uma mensagem para os músicos. Um pouco forte demais e com alguma verdade que faz pensar. Traduzi o melhor que pude (original aqui):

Os Beatles estão mortos. A cultura jovem não liga mais pra eles. Sua influência histórica não deve ser questionada, mas sua influência cultural não está em ascensão. Se você quer uma carreira para lugar nenhum na música, continue a escrever canções, continue a gravar, continue a tocar guitarra, bateria, baixo. Se você quer uma carreira para algum lugar, comece codificando, comece programando, remixando, cantando, visualizando e criando design gráfico como expressão da sua arte, criando redes sociais. O futuro do negócio musical é o futuro da criatividade musical. A inovação no negócio é dependente da inovação musical, em seus formatos comercializáveis. Tudo que se podia fazer com instrumentos acústicos já foi feito. O que e quem irá inovar na revolução cubista da música?

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