Um corpo na biblioteca

camundongo Matei um camundongo ontem a noite. 33 anos nas costas e não me lembro de ter matado qualquer coisa maior que uma barata. É estranho. Pode me chamar de frouxo, fiquei um pouco down depois de cometer o crime.

Ele e eu tínhamos muito em comum, a começar pela vontade de viver: não foi fácil dar cabo dele. Só depois de algumas vassouradas ele sucumbiu. A vida é uma luta pela sobrevivência, por isso o mais forte sempre vence. Era ele ou eu.

E lá no sebo, amanheceu o pequeno cadáver, recordando que matar é fácil e que o difícil é se livrar do copo.

Tirar a vida desse pequeno ser, mamífero e de sangue quente como eu, me fez lembrar daquele velho pensamento que diz que se as pessoas fossem obrigadas a caçar, matar e preparar seu próprio alimento, grande parte delas se tornaria vegetariana.

E é verdade. Mastigo com tranquilidade minha coxa de galinha sem pensar na galinha como um todo, assim como você faz o mesmo com a costelinha de porco, e no entanto, eu lembro com horror a visão de minha mãe matando uma galinha quando eu era pequeno.

Gosto de comer carne mas sei que conseguiria viver sem ela numa boa. Sentiria falta? Talvez, da mesma forma que sinto falta de fumar. Faria falta no meu organismo? Não, embora sempre exista um coro invisível vociferando que sim.

Há algum tempo vejo com simpatia a opção de ser vegetariano e de fato está nos meus planos reduzir e cortar a carne do meu cardápio. Assistir ao filme Terráqueos ajudou a reforçar a ideia. Não sei bem porque ainda não comecei a fazer isso. Caímos de novo naquela velha história sobre mudança, que é sempre uma coisa difícil.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (Fernando Pessoa)

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