Viajar é preciso, conhecer não é preciso

No passado, o viajante corria o mundo para encontrar outros povos. A função das agências de turismo agora é impedir esse contato. (Daniel Boorstin)

A frase irreverente do historiador americano Daniel Boorstin traz uma verdade tão cotidiana que chega a ser difícil de perceber. A indústria do turismo se transformou numa barreira que impede o contato informal entre culturas.

Não sou grande amante de viagens, tanto por falta de ânimo como por falta de grana, embora conhecer lugares novos sempre me pareça interessante. Infelizmente minha preguiça é maior que minha curiosidade, e minha disciplina em economizar dinheiro seja para o que for é zero. Sou do tipo que só consegue economizar água e energia elétrica. Para viajar, principalmente para outros países, não basta dinheiro, é preciso ter muito vontade, também.

O caminho do turista

Aquele sujeito que guarda dinheiro durante seis, doze meses e compra um pacote turístico para viajar com a família e conhecer outro país recebe exatamente isso: um pacote. Fechado, delimitado e medido, um caminho default. Essa característica comum na indústria turística empobrece a experiência que se obtém ao por os pés em outras terras e ter contato com culturas diferentes.

Enfim, a mim me parece, numa reflexão rápida sobre a questão (apenas para mais um post superficial e irrelevante), que as coisas são assim em função de um comodismo geral, sendo que a culpa da alienação turística pode ser rateada entre:

  1. O ponto turístico e sua infra-estrutura que se torna algo parecido com um show que é repetido e repetido infinitamente, sempre igual e de brilho falso, sempre para uma platéia diferente e deslumbrada com os trajes exóticos dos artistas. E tudo acaba por isso mesmo, não havendo real troca de impressões entre turistas e nativos.
  2. As agências de turismo e todos os seus braços — que se protegem de eventuais problemas legais e facilitam suas atividades trabalhando maquinalmente, criando roteiros seguros e assépticos, sem riscos de desastres diplomáticos ou perigo de um turista ser devorado por um leão.
  3. O turista – que, no fundo no fundo, não quer ver o mundo como ele é e não se importa realmente em conhecer outras culturas. Está apenas atrás de divertimento de fácil digestão para a família, com a vantagem de aumentar seu status ao dizer “estive em Miami” ou “estive em Milão”.

Isso cria uma grande farsa, onde toda a facilidade contemporânea de se viajar o globo cai inútil por terra, para o cidadão comum, já que existe um campo de força que impede o encontro entre os povos. Um campo de força mantido por simples comodismo? Se você refletir um pouco além sobre isso, vai encontrar desdobramentos obscuros para a razão das coisas serem e permanecerem assim. Não pense.

Exceções são tão possíveis quanto escassas. Já ouvi dizer que existem pessoas corajosas e aventureiras que embarcam num avião, vão para Bangladesh e se misturam com o povo. Eu não conheço ninguém assim, e você? O que você pensa disso tudo, Manolo?

nativos

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