Chuta pro gol de bico, Robertinho!

Minha vida de futebolista foi encerrada quando comecei a usar óculos.

Isso aconteceu quando eu tinha apenas 10 anos. Depois disso nunca mais joguei com garra.

Não que eu tenha abandonado de vez os campos (na verdade, a rua de baixo, onde não passava carro e era território regido pela lei dos garotos), mas o futebol como profissão foi sabotado pelos óculos e por minha mãe.

Longe de mim culpar minha querida mãe por qualquer fracasso meu, mas não tem como deixar de considerar o efeito de certas palavras ditas por quem nos traz ao mundo, quando se é um garoto franzino e medroso, num mundo onde tudo é grande e impressionante.

Depois que comecei a usar óculos, minha mãe acrescentou ao seu repertório de conselhos um especialmente desenvolvido para manter minha segurança durante a prática de esportes: “cuidado com a bola, não deixa ela bater no seu rosto senão quebra o óculos e entra caco de vidro no seu olho!”. Cuidado com a bola.

Tirar os óculos seria uma alternativa se a miopia não fosse já naquela época suficiente para transformar tudo que vejo em borrões amorfos. Fatalmente eu daria o passe errado, entregando a bola para o Pedrinho pensando ser o Zeca, e isso teria efeitos nefastos na minha saúde. Lentes de contato eram inviáveis, pois eram tão ou mais dispendiosas que hoje.

Restava só a opção de tomar cuidado. Foi aí, então, que me tornei um jogador cuidadoso: quando a bola vinha pra cima de mim, eu fechava os olhos e virava o rosto. Isso prejudicou um pouco meu desempenho nos esportes com bolas. E não tive perdão: perdi posições preciosas na hierarquia dos meninos. Agora eu era um quatro-olhos.

Desenvolvi com meus óculos uma relação íntima de ódio e amor. Ódio por precisar pendurar algo no meu nariz, uma coisa incomoda e obrigatória. Amor por um instrumento que me propiciava ver o mundo com nitidez e detalhes.

O fato de ter miopia e precisar usar óculos desde bem cedo determinou o rumo da minha vida e inevitavelmente mudou meu caminho. Mudei das armas para as letras. A medida que meu interesse por praticar esportes diminuía, meu interesse por livros se desenvolvia.

(…)

É o destino… E tudo isso para hoje estar aqui, blogando feliz sobre como é triste não ter estado na África do Sul para fazer a diferença no trágico combate Brasil-Holanda.

Eu tinha um bom chute.

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