Guia de estilo do jovem escritor moderno

Só diga de peito aberto “eu sou escritor” depois de se enquadrar nas seguintes regras de boa escrevinhação. Leia e chore.

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  • Se vai escrever sobre qualquer espécie de vício, por favor, pare. Se vai escrever sobre relacionamento, por favor, pare. Se vai escrever sobre a sua vida, a minha vida ou a vida do seu avô, pare.
  • Não escreva sobre como é duro ser gay, a não ser que você seja um paquistanês e/ou esteja no Paquistão. Não escreva sobre como é difícil a vida do homem heterossexual, a não ser que você seja argentino.
  • Não escreva usando gírias da jovem guarda, nem dos anos 80 e nem as de nunca. Não escreva nada erótico ou pornográfico, já temos material suficiente sobre esse assunto, obrigado.
  • Não tente “escrever sobre o que você sabe”. Ninguém sabe porra nenhuma de nada, muito menos você. Nem eu sei.
  • Se você tem que escrever sobre drogas, não escreva sobre maconha, cocaína, crack, merla, skank, heroína, LSD, ópio, morfina, ecstasy, álcool ou remédios de tarja preta. Que tal alguém viciado em TicTac a ponto de matar por uma caixinha?
  • Não escreva sobre acidentes de carro, trem ou avião, isso não é engraçado e nem interessante. Não escreva sobre lugares em que você não tenha vivido pelo menos dez anos corridos da sua vida depois dos vinte anos.
  • Sua história não pode se passar no espaço e nem no centro da Terra.
  • Não use na sua história poemas ou músicas de autores famosos. Se o poema for do jornaleiro da esquina, está liberado.
  • Se você escreve a mão, use a boba. Se você usa computador, use o bloco de notas. Se você usa uma velha máquina de escrever porque acha charmoso, pare.
  • Não escreva sobre hospícios ou hospitais, a não ser que tenha estado internado num por pelo menos cinco anos corridos. Se esteve preso, pare.
  • Deixe sua vida social de lado para escrever, afaste todos com violência, até mesmo sua mãe. Quando conseguir ser aceito por uma grande editora, se redima com todos.
  • Prove para si mesmo ser um escritor dominado pela arte: jogue seu manuscrito fora quando tiver mais de 100000 palavras e reescreva tudo.
  • Escreva um livro que vá me fazer preferir continuar lendo-o em vez de ganhar um boquete. Eu consigo pensar em 10.
  • Quando uma ótima idéia surgir em sua mente, vá visitar sua mãe.
  • Se você baseou o herói da sua história em alguém que já apareceu na TV, pare, acabou aqui.
  • Eu ainda estou esperando para ler uma boa cena sobre alguém fazendo um piercing na orelha. Isso pode ser feito.
  • Nunca tenha filhos. Estude história. Entenda que você não pode vencer. Repita.
  • Se você alguma vez pensou em Guerra nas Estrelas, mencionou Guerra nas Estrelas em uma conversa ou tem alguma coisa relacionada a Guerra nas Estrelas – ou assistiu Guerra nas Estrelas – não escreva.
  • Se você visita museus sozinho, ou mesmo frequenta sozinho algum lugar chato, pare. Se você escuta Beatles, Radiohead ou Jay-Z, não escreva.
  • Se você gosta de MPB e seu pai foi estudante militante na época da ditadura, não escreva.
  • Se você não é fumante, não escreva. Se você só fuma na balada, morra. Se você alguma vez já fez a mão de chifrinho num show, não escreva.
  • Não escreva diálogos com mais de três palavras no total. Não mencione a existência da Internet, nem celulares ou computadores na sua história.
  • Não escreva sobre pele a não ser que seja ruim. Acne é sempre um assunto a ser escolhido. A vergonha e constrangimento que vem com uma pele horrível podem ser uma mina de ouro. Estou falando da acne de verdade, não dos cravos pretos na porra do seu nariz.
  • Se você vai me contar sobre sua mãe, faça isso do ponto de vista do seu pai. Quero saber como ela é na cama. O mesmo vale para seu pai.
  • Não tente se conectar com o leitor. Não faça de conta que você sou eu ou que o narrador é você em outra dimensão. Na dúvida, sua mãe.
  • Não tente soar engraçado. Ou a frase é ou não é. Na dúvida, é a sua mãe.
  • Lembre que seu cu é um túnel.
  • Se você alguma vez leu Paulo Coelho, por favor, pare. Se você alguma vez leu Chico Buarque, por favor, pare. Se você alguma vez leu Jô Soares, acabou.
  • Se você leu ou assistiu qualquer coisa de Harry Potter, Senhor dos Anéis ou Crepúsculo, por favor, desista.
  • Não escreva nada relacionado a música, a não ser que você seja um virtuose.
  • Beba um pouco de água.
  • Não escreva sobre escrever. Você alguma vez viu uma pintura de alguém pintando? Não? Bom, é uma merda.
  • Se você alguma vez disse para alguém que ele estava “lendo errado” um filósofo, vá chupar rola.
  • Oooh, prostitutas. Então você tá nessa. Demais! Eu preferiria ouvir delas sobre você.
  • Se nunca houve um livro que fez você não querer sair mais de casa, não tente fazer o seu próprio.
  • Pare de colocar seu personagem principal em bares o tempo todo. Homem num Bar = Homem na Vida. Nós sabemos.
  • Fique com seus conselhos da mesma maneira que um dia você tentou chupar seu próprio pau. Quero dizer: tudo é verdade.
  • Se meu primo por parte de pai sabe quem você é ou quer ler seu livro, você pode estar morrendo.
  • Qualquer crítica social ou emocional na sua história vai passar despercebida. Pena.
  • Se você pode separar as palavras e a história: lixo.
  • Evite completamente São Paulo, Rio de Janeiro ou qualquer outra grande metrópole. Se você morou ou mora mesmo em alguma dessas cidades você já teria desistido de escrever. Eu não acredito em você.
  • Você alguma vez já imprimiu seu manuscrito e se banhou nele?
  • Se você ou as pessoas na sua história compraram roupas novas nos últimos dois anos, pare.
  • Se você pode mostrar onde está a ação em um livro, por que não é um filme?
  • Não escreva sobre o futuro. Não escreva sobre finais. Provavelmente não escreva nada.

Fonte:
Adaptação livre e abrasileirada da tradução mal feita do Vice BR (Guia do NY Tyrant para não ser um escritor de meia-tigela em 2010)

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Um comentário sobre “Guia de estilo do jovem escritor moderno

  1. Essa é a pior coisa que poderia ter lido hoje. O que vocês querem? Uma fórmula mágica para escrever bem? Não existe isso. Vá correndo atrás de suas fórmulas de felicidade, vá do trabalho para sua vida íntima e deixe a literatura em paz, quase adormecida, pois é assim que notamos o quanto ela é misteriosa.

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