Histórias de um cowboy

Quando conheci Mariana, minha equipe estava participando de um rodeio em Araguari de Minas. Por um acaso, era a cidade natal do meu primo, que também era cowboy e trabalhava comigo e meu pai. Foi ele quem me apresentou Mariana num intervalo do rodeio, quando encontramos seus amigos de infância. Ela havia sido sua vizinha na rua em que ele cresceu.

Foi amor a primeira vista. No último dia da festa já estávamos de mãos dadas e eu preocupado em saber quando a veria de novo. Por sorte do destino, a próxima parada do rodeio era na cidade de Monte Carmelo, uns noventa quilômetros de distância. Então, com a boa vontade do meu pai que me emprestava a pick-up, ainda poderia me encontrar com Mariana durante mais uma semana.

Eu era um bom cowboy porque meu pai era um bom professor. Quando eu disse pra ele que ia largar a escola pra seguir a mesma carreira que ele, ele me fez jurar que era isso que eu realmente queria da vida, depois me fez jurar que seria o melhor cowboy do Brasil. Meu pai era exagerado, e dizia que aprendeu muito com o Zé do Prato, com quem trabalhou em Cassilândia. E era isso que eu queria, ser um cowboy dos bons.

Mas foi por acreditar no amor que, quando a caravana partiu, eu fiquei.

Meu pai ficou triste e preocupado, mas por ser um pai tão compreensivo, me obrigou a ficar com a pick-up, me deu algum dinheiro e muitos conselhos. Arrumei um emprego de carpinteiro e me fixei na cidade. Eu estava feliz com Mariana e tentei me adaptar a uma vida tranquila. O tempo foi passando, finalmente nos casamos.

Então as coisas começaram a mudar. O olhar dela, que antigamente tanto brilhava ao me ver montar, não era mais o mesmo. Como eu ganhava pouco trabalhando de carpinteiro, vivíamos uma vida muito simples. Começamos a brigar regularmente. Eu começava a pensar que seria bom termos um filho, mas ela não queria e me acusava de estragar nossa vida por ter deixado de ganhar dinheiro com rodeios. Um dia, ao voltar do trabalho, não encontrei minha mulher. Mariana havia voltado para a casa dos pais. Fui até lá, mas ela não queria me ver. Na minha casinha, em que pagava o aluguel com muito esforço, fiquei só durante alguns dias, até que um homem bateu na porta. Trazia papéis para que eu assinasse o divórcio com Mariana.

Quando reencontrei a comitiva e a equipe de peões, descobri que meu pai andava doente. Ele sempre tinha sido muito teimoso e insistia em nunca ir ao médico. A felicidade em me ter de novo na equipe o deixou animado por alguns dias, mas apesar da nossa alegria, ele caiu mortalmente doente. Perdi meu pai pouco tempo depois de ter voltado a ser um cowboy.

Hoje, muitos anos depois, ainda vivo no circuito. Conquistei alguma fama como bom montador de touros e levo a vida que sempre quis, mas carrego aquela ferida mal cicatrizada e ainda tento entender porque Mariana me deixou. E quase todos os dias pergunto pra Deus porque ele levou meu pai tão cedo.

Há um tempo atrás contei minhas aventuras da juventude a um amigo violeiro. Ele ficou comovido e disse que minhas histórias poderiam virar boas músicas.

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