Nardel

“Eu sabia, eu sabia!” Nardel falava com aquela voz aguda do caralho. “Sabia que você ia mijar pra trás!”
“Só to falando que quero beber uma cerveja antes! Aqueles bolinhos de carne tavam muito salgados, porra.”, argumentei enquanto ele reduzia pra entrar no posto. “Você vai me dar razão depois. A cerveja lá é cara pra caramba, não é?”.
Pra quê fui combinar com ele dando tanta ênfase? Praticamente foi uma promessa. Essa mania idiota a minha de prometer uma coisa pra depois só pra me livrar da pressão. Mas eu estava tranqüilo e decidido a ir até o fim, só precisava tomar uma cerveja pra parar de tremer.

“Como é o esquema?”, eu perguntei pro guarda-roupa de preto que ficava na porta do clube.
“Vinte, com direito a duas cervejas”. Nardel olhou pra mim com aquela cara de dor no coração. Tem sangue de turco ou judeu com certeza. Mas é claro que ele estava disposto a entrar, só não conseguia impedir a contração involuntária no rosto. Eu estava com o bolso cheio de dinheiro, pronto pro que der e vier.
Eu me sentia estranho. Primeira vez que entrava num lugar desses de livre e espontânea vontade e ainda por cima sóbrio. O salão não era de todo ruim apesar de pequeno. Boa decoração, mas com poucas mesas. O som estava alto e eu não ouvi uma palavra do que uma das quatro moças na mesa perto da entrada disse pro Nardel ao alisar seu braço enquanto íamos pra uma mesa perto do palco.
“Lugar legal.”
“É, parece um barzinho.” Gritei enquanto olhava de soslaio para as garotas encostadas no balcão. Pedimos nossas cervejas e elas vieram acompanhadas de uma morena e uma loira. A loira sentou colada ao Nardel enquanto a morena já ia perguntando meu nome.
“Como você se chama?”
“Rogério”. Dei meu nome verdadeiro. Não tem porquê esconder numa cidade tão longe. Nardel também não inventou. A puta provavelmente esqueceria o nome dele algumas horas depois.
Eu ainda tremia um pouco mas passou logo. O nome dela era Juliana. Começou a falar sem parar. Contou sua vida. Era de São Paulo. Fazia um curso técnico e estava de férias no interior. Ia embora na segunda-feira. Tinha 26 anos e um filho pequeno. Estávamos de frente um pro outro. Ela alisava minhas coxas e eu as dela. Seu hálito estava fresco. Falava junto ao meu rosto, ora direcionando os lábios pro meu ouvido direito, ora pro esquerdo. Às vezes fazia uma pergunta e me olhava nos olhos esperando a resposta. Eu só dava respostas curtas e um pouco evasivas. Chegou uma hora em que ela acreditou que eu não havia gostado dela.
Não era feia. Uma garota normal, dessas que a gente vê no supermercado ou no ônibus, sem grandes atrativos que façam torcer pescoços e sem desproporcionalidades que fazem torcer o nariz. Fez que ia levantar mas eu pedi que ficasse.
“Eu tenho que circular, só posso ficar se você me pagar uma bebida.”
Olhei o cardápio. Não havia nada por menos de dez paus e ela não bebia cerveja. Pedi uma dose de não sei o quê e que ela disse que gostava. Ela mesma foi buscar. Nesse interim lembrei do Nardel. A loira tinha ido embora e uma garota pálida de cabelos pretos estava sentada no colo dele. Que malandro. E a namorada na faculdade.
Começaram as performances das garotas no palco. Juliana fazia alguns comentários de uma das garotas. Uma loira que era linda mesmo depois de ter parido dois filhos e blá, blá, blá. Voltamos a conversar de rosto colado e agora eu falava pelos cotovelos.
Não sei direito como foi mas acabei beijando seus lábios. Lábios macios. Uma sensação que há muito eu não experimentava. Como era bom beijar uma garota novamente depois de tantos anos. Depois disso eu desembestei e comecei a cogitar fazer sexo com ela. Falei um monte de bobagens meio envergonhado e escolhendo bem as palavras. Não conseguia transmitir em palavras nenhuma gota do mar de perversões que afogava minha mente. Mas não parava de dar beijinhos nela. Isso é melhor que qualquer coisa no mundo. Chamei Nardel e fomos ao banheiro.
“O que você acha?”
“Vai, cara!”
“Putz, é oitenta paus mais trinta do quarto, fora o que eu já gastei!” Falei por falar. Já estava decidido a não pensar em dinheiro.
Como eu estava generoso e sabia que o Nardel trazia pouca grana, tentei fechar um pacote com as duas moças. Não deu certo e saí com a Juliana de mãos dadas. O Nardel estava satisfeito em ficar ali e assistir os strip-teases.
Ela era da minha altura e esguia como uma modelo. Era bonita, sim. O cabelo negro e alisado rente aos ombros. A pele de morena-jambo. Olhos negros e enormes e aqueles lábios carnudos.
“Eu não tenho muita experiência.” Contei minha história boba.
“Fica tranqüilo, deixa comigo.”
O quarto era só por uma hora. Pequeno, com um banheiro minúsculo e uma cama grande e mal arrumada. Fizemos tudo o que eu quis. Tentei ser sensível e não parecer egoísta. Realmente não sabia direito como agir. O tempo passou rápido. Ela tentou me segurar dizendo que não tinha problema, mas eu havia contado meu dinheiro mentalmente enquanto olhava a grande e sacolejante moita negra sobre meu quadril refletida no espelho do teto.
“Mentiroso.” Falou amavelmente, dizendo que eu tinha mais experiência do que ela. Será que todas são assim? Tentam fazer a gente se sentir o máximo?
“Aprendi em filmes.”, esclareci.
Voltamos pro clube. Nardel estava com uma oriental. Essa era mais bonita que as outras duas. Juliana ainda ficou comigo algum tempo mais depois se foi. Insistiu pra que eu ficasse com seu telefone. Coloquei na memória do meu celular. Ela me deu um último beijo. Prometi que ligaria.
Numa olhada pro balcão eu a vi trocar sorrisos e algumas palavras com um dos seguranças. O que será que ela dizia? “Ganhei a noite.”, “A melhor transa da minha vida.”, “Grana fácil.”, “Foi moleza.”, “Estou apaixonada.” Nardel disse que perdi ótimos shows. Pagamos a conta e fomos embora.

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