A voz

— Alô?

— Alô, boa tarde. É o sr. Paulo?

— Sim.

— Boa tarde, sr. Paulo, meu nome é Vanessa, sou da operadora XIS, o senhor tem um minuto?

— Claro, ouvindo essa voz eu posso passar o resto da vida sem Beethoven.

— Obrigada. Eu gostaria de estar oferecendo para o senhor nosso novo plano de minutos adicionais…

— Sim eu quero, mas… Qual mesmo seu nome?

— É Vanessa. O plano de…

— Tudo bem, Vanessa, não precisa explicar como funciona o plano, eu aceito, pode me cadastrar aí. Mas me diga: alguém já lhe disse que sua voz é linda?

— (Risos) Já, muito obrigada…

— Não estou falando do cara que te contratou pra ser telefonista, estou falando do seu namorado, marido.

— Não sou casada…

— Com essa voz isso muito me espanta. Feia você não deve ser porque Deus não comete esse tipo de injustiça.

— Sr. Paulo, eu não posso usar o telefone da operadora para assuntos pessoais…

— Eu entendo, Vanessa, mas sei muito bem que você tem um tempo limite para me convencer a aceitar o tal novo plano, não é?

— Sim, é verdade…

— Muito bem. Como você já me convenceu, temos ainda algum tempo pra conversar, não é verdade?

— Bem…

— Ótimo! Me diga, Vanessa, você faz alguma outra coisa com essa linda voz além de gastá-la no telefone?

— Não, mas essa é a primeira vez que trabalho como operadora de telemarketing.

— Que bom, ainda há tempo de salvá-la desse mundo horrível! Você pode ser cantora, atriz, dubladora… O que acha?

— Nunca pensei nisso, não sou boa cantando.

— Isso se aprende. O essencial você já tem. Sua voz é a mais linda que eu já ouvi na vida inteira, e isso eu estou afirmando tendo ouvido apenas pelo telefone. Acredito que ao vivo seja como ouvir um anjo.

— Falando assim o senhor me deixa sem jeito…

— Não fique, não fique. É tudo verdade! E não me chame de senhor, me chame de Paulo. Tenho 34 anos, e você?

— Tenho 27…

— Sua voz é magnífica! Me deixa maluco. Fico imaginando poder ouvir você dizer coisas como “paralelepípedo”, “framboesa”, “flores”, “amor”, “Preciso de você agora”… Pode dizer pra mim?

— Senhor… Paulo, preciso desligar.

— Por favor, Vanessa, não desligue sem me passar seu telefone. Não pense mal de mim, realmente gostei de você.

— O regulamento não…

— Não diga “não”. Eu preciso te conhecer! Ouça: não precisa ter medo, não sou nenhum maluco ou tarado. Sou escritor, sua voz me inspira. Me dê uma chance, sim? Ao menos guarde o meu número e me ligue depois. Pode fazer isso?

— ( Risos) Tudo bem, mas agora preciso desligar.

— Então até logo, meu anjo…

— A XIS agradece a atenção, tenha uma boa tarde.

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